Nossos Artistas

Crônicas e Contos
    Annibal - O Grande Almoço e O Marujo da Perna de Pau
    Carlos Castellar (Antunes) - 
Conto Erótico
    Carlos Castellar (Antunes) -  Uma História da Vida
    Carlos Castellar (Antunes) - Casa da Felicidade
    Netto dos Reys -
Tom: "Le Mot"
    Ney Dantas - Heterodoxo Enlace e
Sonho Marinheiro
    Ney Dantas - Saudoso de Paquetá e Impudente Mascate
    Ney Dantas - Guerra de Palavras
    Roberto de Oliveira -
O Cemitério Maldito
    She -
Penedo


O Grande Almoço

            Conto do Annibal

           À guisa de intróito, lembro os fatos ocorridos naquele dia em que se realizava mais uma reunião mensal da turma. É ramos cerca de uns quarenta ou cinquenta participantes aguardando que fosse dada a partida para o almoço. Enquanto isso não acontecia, chopes e salgados, como de costume, circulavam à farta. A alegria e a informalidade mostravam ruidosamente a presença do espírito jovem ainda reinante no grupo, cujos componentes já beiravam a faixa dos sexagenários.
    Por fim, dirigimo-nos ao salão, ocupando a extensa mesa que nos fora reservada para a refeição propriamente dita. Em dado instante, alguém ao meu lado, apontando discretamente para outra mesa mais à frente, disse em voz baixa: -Olha ali o nosso futuro...
    A mesa indicada estava ocupada por seis homens de idade bem mais avançada. Em cada rosto, um vulto conhecidotrazia lembrança de antigos chefes. Tratava-se tambem de uma reunião de turma, sóque uns vinte anos mais antiga que a nossa. Almoçavam em um quase silêncio, trocando poucas palavras entre discretos sorrisos. Trajavam terno e gravata. Sobre a mesa, garrafas de água mineral, enquanto que nos pratos imperavam as saladas ligeiras, quando muito, ornando partes singelas de frango grelhado.
    E assim, o conto a seguir nasceu de repente.

    O homem idoso atravessou o salão do restaurante com passos firmes e foi sentar-se a uma das mesas redondas junto à janela. Ofegava discretamente, como a refazer-se de algum maior esforço há pouco realizado. O rosto, algo crispado,  deixava transparecer certa intranquilidade, o que era também denunciado pelo movimento nervoso das mãos ao dobrar e desdobrar continuamente o guardanapo. O garçom aproximou-se solícito, demonstrando, pelo jeito e pelo sorriso,   guardar respeitosa intimidade com o cliente, e afastou-se logo em seguida em direção à copa. As poucas palavras então trocadas a baixa altura limitaram-se à cortesia de praxe, sem que se registrasse qualquer pedido em especial, o que não impediu que o garçom regressasse logo após. Trazia um copo de chope claro encimado por dois dedos de espuma densa, quase a transbordar, acompanhado de pratos com salgados diversos, que foram arrumados sobre a mesa com cuidado profissional.
    O ancião dirigiu ao garçom um sorriso de agradecimento e sorveu um pequeno gole da bebida como a prová-la, seguido de outros dois outros mais profundos, tragados com inegável prazer. Recostado à cadeira, assim permaneceu ele por longo espaço de tempo, olhar projetado no infinito através da janela envidraçada sobre a larga avenida semi encoberta pela copa dos oitis. Da via pública, andares abaixo, subiam o ruído e o mormaço daquela quarta-feira comum para tantos transeuntes em hora de almoço, mas o velho estava po demais mergulhado em seus pensamentos para ver as coisas comuns daquele dia. Tanto assim, que até mesmo o chope jazia esquecido pelo meio, a perder o gelo. Quem o observasse agora veria ali o semblante de um homem triste, profundamente triste.
    Ogarçom voltou a aproximar-se, assuntando discretamente,  e permaneceu por alguns segundos indecisos se deveria ou não perturbar o cliente. Por fim, fazendo-se notar, indagou:
    - E os outros? Atrasados? Já passa bastante de meio dia...
    - Não há outros, respondeu o cliente, um tanto enigmático, enquanto girava distridamente o copo sobre a mesa, entre os pratos que permaneciam intocados.
    O garçom pareceu não entender a resposta e franziu o cenho, com ar de interrogação. O ancião, como se já aguardasse a pergunta, prosseguiu:
    - Eu sou o último da turma. Ainda no mês passado, éramos dois, lembra-se?
    - Sim, lembro-me. Mas nos outros meses havia mais gente, não é? Sempre guardei essa mesa para o senhor na segunda quarta-feira do mês. Mesa para seis, junto à janela - completou, compenetrado.
    - Bem,  - disse o ancião - desde que você nos atende aqui, nesses últimos dois anos, fomos seis, depois cinco, quatro, três e dois, como da última vez. E agora, só fiquei eu com minhas lembranças que não são poucas... Todos os demais se foram, seguindo os desígnios de Deus. Fui escolhido para ser o último. Na verdade, não sei dizer se foi boa ou ruim tal espécie de sorte...
    O garçom, um tanto desconcertado, indagou de chofre:
    - Morreram todos os cinco?
    - Ao certo, - continuou o outro - não só os cinco como todos os demais que você conheceu. Pouco mais de trezentos. Alguns se foram até bem cedo, em plena juventude.
    - E almoçavam todos aqui?
    - Não, só começamos a vir aqui na década de 80, quando se reuniam uns quarenta ou cinquenta de cada vez. Todos juntos à mesma mesa, isso jamais ocorreu. Lá pelos anos 50, em outros lugares, chegamos a mais de duzentos, mas éramos então muito novos para dar algum valor a isso. Curiosamente, vivemos separados durante a maior parte de nossa existência. Alguns poucos, pelo tempo; outros mais pelo espaço. Uniram-nos, em dado instante, alguns ideais; separavam-nos as circunstâncias. Espalhamo-nos por cidades, por países, pelo mundo das terras, dos mares e das idéias. Unia-nos porém o denominador comum do espírito de turma. Juntos estamos todos agora, mais do que nunca, nas minhas lembranças e saudades.
    O garçom, sentindo o abatimento que se aprofundava nos olhos do cliente, procurou desviar o assunto, oferecendo um novo chope em substituição àquele já morno, o que foi aceito com um simples aceno de cabeça.
    A nova bebida foi recebida por mãos trêmulas que permaneceram indecisas por instantes a enxugar as gotículas condensadas no copo. Em seguida, o ancião elevou o copo à altura dos olhos enquanto mentalmente formulava um brinde que foi interrompido por aquela dor no peito que o fez pousar o copo sobre a mesa, não sem antes beber um pequeno gole. Em instantes, todo o momento presente se fez difuso em estranha névoa, enquanto imagens de suas lembranças se condensavam em formas cada vez mais nítidas, como em uma fantástica ação teatral de mudança de cenário.
    E em um ponto qualquer do Universo, naquele mesmo instante, 306 taças se elevaram em resposta ao brinde e recepcionando o recem-chegado. Pela primeira vez, então, todos os 307 compartilharam da mesma mesa, e se rejubilaram por isso.

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O Marujo da Perna de Pau

                    Conto inédito do Annibal

    Marujo pulou da enxárcia para o convés, apoiando-se só na perna esquerda, que se flexionou elástica e habilmente para absorver o choque. A outra perna estava dobrada para trás, de modo a ficar protegida e não tocar o piso. Sua perna direita havia sido parcialmente perdida nos dentes de um tubarão quando, há algum tempo, deixou-se ficar sentado à borda de um barco, brincando em chutar as marolas que corriam pelo costado. Por sorte, navegavam próximo ao porto. O fato de lhe garrotearem logo a coxa com o chicote da adriça permitiu-lhe chegar com vida ao hospital, onde a amputação foi concluída, logo abaixo do joelho.
    Agora, aquele marinheiro andava com o auxílio de uma perna de pau bem torneada, que fazia questão de manter sempre bem lustrada a verniz, o mesmo verniz que usava no cuidado com as embarcações onde trabalhava. Nos primeiros tempos daquela nova situação, deixava-se ficar à beira do cais, vivendo de pequenos biscates. Inteligente e hábil nas artes da marinharia, era constantemente requisitado pelos mestres das embarcações, para a execução de pequenos serviços que estivessem a seu alcance. Com o tempo, porém, o chamado do mar começou a se fazer mais forte, e o marujo passou a assediar os proprietários dos barcos, em busca de embarque. Já não lhe bastava ficar em terra trançando cabos, raspando e pintando costados. O cheiro do mar que o vento trazia e lhe esfregava às narinas era um chamativo por demais forte para ser simplesmente ignorado. Visto pelo lado emocional, superara até muito bem a perda da perna. Fazia até mesmo questão de exibir sua destreza no uso daquela prótese bruta que se lhe encaixava logo abaixo do joelho, atada por correias de couro e fivelas de latão, enquanto justificava, em sua simplicidade, que “marujo tem que ser safo”. Contava, com certa vaidade, que a perna de madeira fora feita por Zé Bento, um velho carpinteiro naval seu amigo e protetor, em cuja oficina no final da praia vivera sua infância de órfão. Zé Bento, que lhe dera as primeiras letras e o gosto pelas coisas do mar, dera-lhe também a nova perna, trabalhada com esmero a partir de uma sólida peça de pinho-de-riga, outrora parte do mastro de um navio por ali soçobrado.
    Mas se superara a perda da perna, o marinheiro Marujo não havia superado a falta que lhe faziam as viagens de um porto para o outro a bordo dos saveiros que ligavam aquelas ilhas e enseadas do continente. Gostava do mar, do sol e do vento, daquele misto de trabalho e aventura que nem mesmo a chuva e o mar virado o faziam lamentar. Mas do que gostava mesmo era da chegada aos portos, fossem quais fossem, onde sempre havia novidades a ouvir e a contar. Naqueles tempos, as notícias por ali só circulavam levadas no bojo das embarcações, amontoadas com os passageiros e a carga em geral. E o marujo fazia sua parte com prazer: dava e recebia notícias de nascimentos, mortes, casamentos, batizados e tudo o mais que pudesse interessar aos habitantes das vilas e lugarejos. Essa atividade o fazia popular e querido por onde andasse, o que lhe era o bastante. É bem verdade que sua popularidade e simpatia sempre lhe rendiam dividendos, fosse no convite para uma peixada ou para um simples copo de cerveja. Nos dias de maior sorte, um sorriso promissor o levava para uma praia discreta onde bem combinavam a brisa, o luar e o carinho das caboclas.
    Mais de dois anos haviam se passado, desde que deixara o hospital. Aquele fora o tempo necessário para que se adaptasse à sua nova condição, até sentir-se perfeitamente capaz para voltar ao mar. Além disso, demorara um pouco a encontrar um mestre de saveiro que lhe permitisse embarcar. Chico Raimundo, o mestre do Senhor dos Navegantes, não tardou porém a verificar que aquele seu novo tripulante superara em muito todas as expectativas. Concedera o embarque mais pelo coração do que pela razão. Agora, após doze dias de viagem, em que o tempo havia inclusive se mostrado bem adverso, não tinha mais dúvidas quanto às habilidades daquele marinheiro sem nome de batismo, chamado carinhosamente de Marujo por todos aqueles que o conheciam.
    Naquele dia, Marujo estava particularmente feliz. Completava sua primeira viagem após o incidente com o tubarão, e não havia um só dia de mar ou de porto que não tivesse transcorrido pleno de venturas e aventuras. Sentia-se plenamente reintegrado tanto às fainas no mar quanto às alegrias em terra. Nem mesmo as caboclas haviam lhe negado seus sorrisos e favores. Talvez, de início, também mais por piedade do que por afeto, mas logo constatavam, à semelhança do mestre do saveiro, que não faltavam ao homem qualidades para os malabarismos, inclusive os do amor.
    A expectativa de chegada ao seu porto já o fizera subir por diversas vezes enxárcias acima, para melhor avistar a terra que se aproximava. Subia agilmente, fixava a vista no horizonte pela proa e descia logo em seguida, para tornar a subir logo após, impaciente com a demora. Maldizia o vento fraco que se recusava a enfunar plenamente as velas e dar maior seguimento ao barco. Somente se acalmou após montarem a ponta do farol, quando já se podia divisar o cais onde finalmente o Senhor dos Navegantes atracou sob o sol de meio dia e à popa de um pesqueiro nunca antes visto por aquelas paragens.
    O pesqueiro MARUJO ali arribara quatro dias atrás, vítima do mau tempo. Entre outras avarias, perdera um pedaço da porta do leme e fazia água pela popa, levando seu mestre, João Praxedes, a tomar o rumo do porto mais próximo, em busca dos reparos necessários. Aliás, necessidade de reparos era o que não faltava naquele barco de cor escura e indefinida, maltratado pelo mar e pelo desleixo da tripulação, a começar por seu próprio mestre. João Praxedes era um desses homens cuja rudeza vinha acompanhada por uma total indiferença por seus semelhantes. Aqueles que considerasse em posição subalterna recebiam de costume seu desprezo e sarcasmo. Essa era, aliás, uma das poucas formas que tinha para se divertir. Seus tripulantes se sujeitavam a ele apenas na justa medida da necessidade de manter o emprego. Estórias de motins faziam, inclusive, parte de sua vida.
    Na pequena oficina, Zé Bento e João Praxedes acertavam as contas dos reparos efetuados no pesqueiro Marujo, quando o marinheiro Marujo chegou sorridente e abraçou o velho carpinteiro com carinho. Zé Bento apresentou-o a João Praxedes que, sem estender a mão, limitou-se a emitir um sorriso irônico, deixando aparecer os dentes amarelados por entre a barba crescida e maltratada, voltando logo a conversa para os negócios em andamento. Os reparos propriamente haviam sido quase concluídos. A porta do leme fora recomposta e um bom pedaço do costado na popa teve que ser calafetado, atingindo toda a área em que era disposto o nome da embarcação. Restava apenas refazer a pintura. Não que João Praxedes fizesse questão disso, mas era uma exigência legal que a embarcação mostrasse seu nome à popa, e assim deveria ser feito. Ficou então acertado que Marujo faria o serviço de pintura, que era relativamente pequeno mas requeria uma certa habilidade com o pincel para o desenho das letras. Marujo mal havia posto os pés em terra e não estava muito inclinado a aceitar o biscate, mas se sentia na obrigação de atender ao convite do amigo, de quem se julgava um eterno devedor; afinal, até a perna que agora usava tinha sido obra dele, e isso era, no seu entendimento das coisas, como se devesse a própria vida.
    No dia seguinte, pela manhã, Zé Bento retirou-se do barco com suas ferramentas e deixou Marujo com as tintas e os pincéis. Toda a popa deveria ser pintada em azul escuro, de alheta a alheta, numa faixa de cerca de um metro de altura. Após a secagem, as letras em tinta branca seriam dispostas como conveniente. Marujo concluiu o serviço lá pelo meio da tarde, devendo-se a maior demora ao tempo requerido para a secagem do fundo azul. Tampou cuidadosamente as latas de tinta, limpou os pincéis e deixou o material no fundo do bote que utilizara para fazer o trabalho. Na verdade, achara divertido pintar seu nome naquela embarcação. Restava agora dar o pronto do serviço e receber o pagamento acertado. Rapidamente, içou-se para bordo, dando de cara com o mestre do pesqueiro, que vinha chegando.
    João Praxedes recebeu Marujo com indiferença que lhe era costumeira e nem se dispôs a examinar o serviço. Meteu a mão no bolso da calça ensebada, dali retirando algumas notas amarrotadas e um pedaço de papel pautado, entregando tudo ao marinheiro.
    -Passe o recibo ! - ordenou secamente. 
    Marujo meteu o dinheiro no bolso da camisa, de onde sacou um toco de lápis e com ele desenhou no papel, em letras de forma, aquilo que sabia ser seu nome: MARUJO. João Praxedes olhou aquela assinatura, encarou o outro por alguns segundos e explodiu, com ironia na voz:
    -Isso não é nome de gente! E se fosse, tinha que ter sobrenome p’ra botar no recibo.
    - Mas esse é o meu nome e esse tal de sobrenome eu nunca tive -retrucou o marinheiro.
    João Praxedes, sentindo-se provocado, voltou à carga, já pensando em se divertir com a situação.
    - Se não tinha, vai ter agora. Vou botar aqui no recibo o sobrenome abreviado: 
MARUJO P P.
    Marujo não entendeu o significado daquilo e, em sua ingenuidade, perguntou:
        - Que nome é esse tal de PP ?
    - É Perna - de - Pau, e toque-se já para fora do meu barco - concluiu.
    Confuso, o marinheiro obedeceu e seguiu cabisbaixo, sem destino certo. Pela primeira vez na vida se sentira humilhado. Pela primeira vez teve consciência plena de sua invalidez, e um sentimento de insegurança e tristeza invadiu seu espírito.
    A cena na popa do pesqueiro teve porém uma testemunha. Da proa do Senhor dos Navegantes, Chico Raimundo viu e ouviu o suficiente para decidir, por pura diversão, entrar também naquela estória, sem pensar nos desdobramentos possíveis para o fato. Ao cair da noite, jogou pela borda um cabo e por ele desceu até o bote ali deixado por Marujo. Rapidamente, tomou da tinta branca e do pincel e pintou duas letras P após o nome do pesqueiro.
    Marujo passou o resto do dia cabisbaixo, respondendo apenas com monossílabos e gestos vagos às provocações dos companheiros reunidos no bar à beira do cais. Uma única vez tomou a iniciativa de falar, mas apenas para, a baixa voz, indagar ao dono do estabelecimento qual era o significado da palavra abreviatura. Recebida a explicação, emudeceu novamente. 
    Bem mais tarde, Marujo regressou para bordo do Senhor dos Navegantes, em busca de sua rede. Esperava agora que o sono terminasse por apagar de sua memória as más lembranças que a cerveja com os amigos não fora suficiente para dissolver. Ao cruzar o convés, olha de relance para a popa do pesqueiro e nota a alteração ocorrida. Duvida de seus olhos e se debruça na borda para, à luz do luar, confirmar a visão anterior. Para ele, aquilo só poderia ser uma continuação do deboche de João Praxedes, e não iria agora ficar sem resposta. Segue, sem saber, os passos dados por Zé Raimundo em sua brincadeira inconsequente, e acrescenta à popa do pesqueiro mais algumas letras. Volta para seu barco e, de alma lavada, dorme o sono dos justos.
    O pesqueiro Marujo suspende com a maré, ainda no escuro daquela madrugada. Dias mais tarde, ao atracar em seu porto de destino, mestre João Praxedes desce ao cais e, ao olhar para a popa de seu barco, recebe com espanto a estranha mensagem que lhe fora destinada: 

MARUJO P P É A PQP

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Homem Nordestino Só Casa com Mulher Virgem

        Conto erótico do Carlos Castellar (Antunes)

   ...
   - Fernando, preciso falar com você. (a voz era baixa, mas firme).
    Olhei-a com perplexa curiosidade. Vestia uma camisola curta, de cor branca, quase transparente, deixando antever o contorno dos seus seios (estava sem "soutien") e o sombreado da calcinha. Sentou-se ao meu lado.
    - Quero que saiba que percebi tudo que você fez.
    Mais perplexo e surpreso fiquei, pois não sabia onde ela queria chegar.
    - E o que é que eu fiz? Não estou entendendo?
    - Lembra-se quando colocou e retirou o cinto de segurança; do abraço lá no mirante ? E a espionagem quando eu tomava banho? Espelhos fazem reflexos, sabia...? Eu percebi tudo.
    Uma porrada no crânio não teria feito mais estragos do que o de ter sido flagrado suas artimanhas.
    A surpresa de suas palavras foram outro impacto no meu cérebro. Nossos olhares mantiveram-se firmes, como predadores observando a presa antes de devorá-la, até que Lenita mostrou seu sorriso. Eu só enxergava sua boca e seus lábios, assim, a razão deu lugar a emoção, ao desejo, ao tesão. Passei-lhe o braço pelos ombros e segurando seu rosto trouxe-a bem para perto de mim. Olhos nos olhos, boca em frente de boca e aquele beijo inesquecível aconteceu.

                Quer saber o que aconteceu depois daquele beijo inesquecível?

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UMA HISTÓRIA DA VIDA


Conto saudosista do Carlos Castellar (Antunes)

    O almirante Castellar tinha naquele dia muitos compromissos agendados, por isso chegara mais cedo que o usual ao Edifício Barão de Ladário, na Rua 1º de Março, onde se situam os escritórios das Diretorias Técnicas da Marinha Brasileira (MB). Da janela de seu gabinete, no 20º andar, descortinava o belo panorama que a baia da Guanabara oferecia. Incidentalmente seu olhar fixou-se no cais de atracação dos Rebocadores de Alto Mar, ao sul da Ilha das Cobras, Base de Apoio Naval da MB. Lá, um dos rebocadores iniciava suas manobras de desatracação. A visualização daquela rotina de se fazer ao mar trouxe-lhe à lembrança uma história, da qual foi protagonista, acontecida nos idos de 1965, quando era um jovem e entusiasmado tenente servindo no Aviso Oceânico Benevente.

    O Benevente atracado , ao cais sul da Ilha das Cobras, era um dos navios remanescentes da classe dos Destróier Escolta (DE), construídos na década de 40 para a Marinha dos Estados Unidos. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial um Esquadrão foi cedido a MB para atuarem na prevenção contra ataques de submarinos aos comboios mercantes aliados. Terminado o conflito e com o passar dos tempos, os DE tornaram-se obsoletos para as novas configurações que assumiram a moderna guerra naval. Eram, contudo, devido a excelência de sua construção, muito úteis nas mais diversas operações e fainas marinheiras. A partir dessa premissa, constituiu a MB o Esquadrão de Avisos Oceânicos. Eram os navios “pau para toda obra”.
    O Benevente estava pronto para zarpar no cumprimento de mais uma tarefa. As manobras de desatracação haviam começado A tripulação estava a postos. O navio mantinha-se preso ao cais apenas pelos cabos que sustentavam a proa e a popa, de modo singelo.
    O Comandante, aguardava a verificação final do Imediato Britto para o início da faina de desatracação.
    - Navio pronto e guarnecido Comandante, avisa o Imediato.
    O Comandante Barreto, com a calma da experiência, ordena ao tenente Villaça, Oficial de Manobra, que o cabo de popa seja largada do cabeço do cais.
    - Larga a espia de popa, repete a ordem, pelo telefone de combate, ao tenente Schmidt, Encarregado da Divisão da Popa.
    O Comandante Barreto, pacientemente, espera que a ação da maré e do vento sejam suficientes para que a popa se distancie do cais e possa fazer uso das máquinas. A natureza ajuda. O vento de sudeste moderado e a maré de enchente permitem um afastamento rápido. A popa começa a girar se distanciando do cais, sustentada pelo lançante de proa ainda encapelado, preso ao cabeço de atracação. O tenente Castellar, Encarregado da Divisão de Proa, atento a manobra, vai dando saltos no lançante permitindo que a popa continue a girar. A popa atinge a posição desejada para continuidade da manobra.
    - Máquinas atrás devagar, larga a espia de proa, ordena o Comandante
    As ordens do comandante são cumpridas e o Benevente desliza suavemente para trás afastando-se do cais. Ao largar da última espia o apito de desatracação é ouvido, informando que o navio se fazia ao mar.
    O Comandante Barreto manobra o navio com máquinas e leme, colocando-o em rumos práticos até a saída da barra do Rio de Janeiro.

    O inverno/ primavera de 1965 foi desastroso para os Estados do Sul. Muitas enchentes ocorreram deixando ao desabrigo parcela considerável da população local. Houve muita solidariedade em todo o Brasil. Doações em massa, inclusive de alimentos, aconteceram e a
Marinha Brasileira , participando desse movimento, designa o Benevente para ser o “navio transporte” da carga a ser levada aos portos do Sul atingidos pela calamidade. Itajaí e Porto Alegre estavam no roteiro do Benevente.
    A participação na prestação da solidariedade e a escala dos portos faziam a tripulação sentir-se duplamente motivada. Um dos mais entusiasmados era o tenente Schmidt, gaúcho de Porto Alegre. Desde que terminara o curso da Escola Naval ainda não tivera a oportunidade
de rever seus familiares.
    Após dois dias de viagem atraca o Benevente em Itajaí. Cumpre sua tarefa de descarregar a carga prevista para aquela cidade e faz-se ao mar rumo a Porto Alegre.
    A chegada a Porto Alegre acontece numa sexta-feira. No cais, os pais e parentes do tenente Schmidt aguardavam ansiosamente a atracação. Cumprida as formalidades de boas vindas pelas autoridades locais, o Comandante Barreto convida os familiares do tenente Schmidt à Praça D’Armas, local de estar e refeição dos oficiais. São feitas as apresentações ao Comandante e a oficialidade. Conversa daqui, conversa dali, brincadeiras envolvendo o sotaque do gaúcho e do carioca, as rivalidades do futebol - flamenguistas, vascaínos, gremistas, colorados. Neste ambiente de confraternização que espontaneamente acontecera, o senhor Schmidt, chefe da clã e avô do tenente gaúcho, pede um minuto de atenção ao Comandante.
    - Senhor Comandante, agradeço em nome de minha família a gentileza como nos recebeu em seu navio e gostaria de retribuir convidando, o senhor, e toda a oficialidade para um churrasco, à gaúcha, em nossa residência, no próximo domingo.
    A oficialidade nem esperou a reposta do Comandante. Uma calorosa salva de palmas ao vovô Schmidt ecoou na Praça D’Armas em sinal de aprovação.
    - Senhor Schmidt, a minha oficialidade já deu a resposta. Estaremos lá.
    O bate papo prosseguia cada vez mais animado quando vovô Schmidt manifestou vontade de conhecer o navio. Prontamente o tenente Castellar colocou-se à disposição. Durante a visita com a dialogação e a cordialidade havida, uma empatia mútua e natural surgiu entre o jovem oficial e o velho senhor. Ao regressarem à Praça D’Armas pareciam já se conhecerem há muito tempo, amigos de longa data.
    Mas, os oficiais tinham tarefas a realizar e a família Schmidt se despede de todos não deixando de reiterar o convite para o churrasco. O tenente Schmidt, por ser filho da terra, foi dispensado pelo Comandante, uma tradição naval, e pôde acompanhar seus pais.
    No domingo, por volta das onze horas a turma do Benevente, com exceção do Oficial de Serviço, chega ao lar dos Schmidt. Recepção calorosa e amável seguida de imediato convite para o “cocktail” que estava por ser servido, iniciando o churrasco. A interação entre a oficialidade, familiares, e outros convidados não poderia ser melhor. Todos loquazes, ajudados, é claro, pelo whisky, cerveja, vinho, etc...
    Vovô Schmidt, desde logo, tomou conta do tenente Castellar e apresentou-o à esposa que não tinha ido ao navio. Uma senhora muito simpática e tranqüila, aparentando uns 65 anos, dedicados inteiramente ao lar, ao marido, aos filhos e netos, deduziu o tenente Castellar após uma boa conversa com a senhora.
    O churrasco cada vez mais animado. A fartura e a qualidade das carnes eram elogiadas por todos. Por volta das treze horas, o senhor Schmidt lembrou-se da ausência do Oficial de Serviço e participa aos convidados que iria a bordo levar ao oficial uma “amostra” do churrasco. Todos aprovam a lembrança do senhor Schmidt.
    Vovô Schmidt solicita ao tenente Castellar que o acompanhe, pois estava impossibilitado de dirigir automóvel. Vai à cozinha onde já se encontravam preparados os pratos com o churrasco. Pega a chave do “Fusca” , entregando-a ao tenente Castelar.
    Vovô Schmidt ia indicando ao tenente Castellar o caminho. Entra nesta rua, dobra à direita, siga em frente. O tenente Castellar estranha as ruas que os levariam ao porto, mas, como era “estrangeiro”, manteve-se calado. Ao entrar em uma determinada rua, o senhor Schmidt pede-lhe que estacione em frente a uma modesta casa, com um pequeno jardim à frente, cercada por muros e com um portão de ferro à entrada.
    - Chegamos tenente Castellar.
    O tenente Castellar não entende nada e mais ainda quando o vovô Schmidt saca de uma chave e abre o portão de acesso ao jardim. Os dois amigos se olham. O tenente Castellar, com uma expressão de interrogação e surpresa, como que aguardando uma explicação. O senhor Schmidt impassível. Seus olhos azuis mostravam tranqüilidade e, se bem observado, parecia feliz.
    Toca a campainha da porta da casa. Em poucos instantes uma jovem senhora, bonita, aparência de 35/ 40 anos, abre a porta. Seus olhos, também azuis, mostravam alegria e seus lábios se abriram num sorriso.
    - Carlos, que bom que você chegou ! Venha, entre!
    Uma menina de 5 ou 6 anos aproxima-se do senhor Carlos Schmidt e dá-lhe um beijo e um abraço exclamando: Papai, papai !
    O tenente Castellar demonstrava surpresa ainda maior, mas começara a entender. O senhor Carlos Schmidt apresenta-lhe a senhora e a filha, a quem acarinhava ternamente. Solicita-lhe ajuda para trazerem do carro os pratos de churrasco. Numa mesa, simples, mas bem posta, acompanhados de um bom vinho, sentam-se e degustam o almoço.
    Hora mais tarde, terminada a refeição, vovô Schmidt carinhosamente se despede da senhora e da menina.
    No trajeto de volta o tenente Castellar, mantendo discrição, nada comenta nem pergunta. Vovô Schmidt com a voz embargada e os olhos úmidos diz ao tenente Castellar, não como uma explicação ou justificativa mas, com pura emoção:
    - Um homem precisa disto para viver.


    - Bom dia almirante, a sua agenda hoje está bastante carregada. 
    O almirante Castellar, ainda com o olhar perdido sobre a Guanabara, volta-se em direção à voz que o cumprimentara. Era a sua assistente, a comandante Marta. Por um momento contempla e observa a sua assistente. Loura, com os cabelos presos, em coque, à moda militar feminina, olhos verdes, a pele suavemente tostada pelo sol, corpo bem moldado, num uniforme branco impecável. Uma bela mulher ! Não pode se furtar a um pensamento íntimo e lembrar das palavras do vovô Schmidt: “Um homem precisa disto para viver”.
    - Bom dia comandante Marta, vamos ao trabalho.

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CASA DA FELICIDADE

                                                                            Carlos Castelar

    Joãozinho, aos 23 anos de idade, era o que se poderia chamar de um bom rapaz. Terminara o curso científico no Colégio Metropolitano do Meyer, fizera um curso profissionalizante de Rádio Técnico e TV, profissão em alta no início dos anos 60, com o início da popularização da televisão. Passou em concurso para funcionário público e trabalhava na Prefeitura. Morava com a mãe e uma irmã no Engenho de Dentro e sempre fora calmo e ponderado. Sua única paixão, o futebol de salão. Era o goleiro principal do Esporte Clube Mackenzie.

    O jogo entre o Mackenzie e o River estava disputadíssimo, embora o resultado de 2 X 0, ainda no primeiro tempo, favorecesse o Mackenzie. Em um bem coordenado ataque o River assinala o seu primeiro gol. Bola indefensável para Joãozinho. Depois da natural manifestação das torcidas seguiu-se um silêncio, se assim se pode dizer que haja num jogo de futebol de salão, e Joãozinho pôde ouvir, nitidamente, uma voz que vinha da torcida, atrás de sua baliza. “Joãozinho é frangueiro, Joãozinho é frangueiro!” Embora acostumado aos apupos dos torcedores não pôde deixar de olhar, devido à proximidade, para quem assim se manifestava. Seus olhos verdes encontraram-se com os de uma bela moça, com o uniforme do Colégio Metropolitano que, ao perceber que conseguira a sua atenção, deixou-lhe um sorriso e um leve piscar de olhos.

    Segundo tempo do jogo. A partida continuava acirrada entre as equipes. Faltavam 5 minutos para terminar quando numa falha da defesa do Mackenzie o adversário assinala seu segundo tento empatando o jogo. “Joãozinho é frangueiro, Joãozinho é frangueiro!" Lá estava, mais uma vez, a bonita estudante, com um sorriso malicioso, a perturbar a concentração de Joãozinho.

    Terminado o jogo, instintivamente, Joãozinho procura a jovem que o havia apupado. Estava ela próxima ao alambrado que limitava a quadra como a esperar uma aproximação. Joãozinho observou-a com atenção. Era uma bela morena. Dirigiu-se a ela, cumprimentou-a e timidamente perguntou-lhe se poderiam conversar. Marcaram o encontro na sala de estar do Clube. Joãozinho foi para o vestiário se trocar. O coração parecia bater mais forte e acelerado do que quando no auge de um jogo.
O encontro entre Joãozinho e Soninha, este era o seu nome, aconteceu. Soninha, de início, pediu desculpas pela brincadeira, acrescentando que acompanhava os jogos do Mackenzie, já o conhecia e o achava um bom goleiro. Ficou sabendo que ela tinha 18 anos, cursava o 3º ano colegial, morava no Meyer com sua mãe e não conhecera o seu pai falecido quando tinha um ano de idade. Contou-lhe tudo sobre a sua vida como se fossem de há muito íntimos. À medida que a conversa se desenvolvia, Joãozinho sentia-se cada vez mais cativado e de acordo com o avanço da conversação ia lhe confidenciando como vivia, o que fazia, quais os seus sonhos, seus ideais e aspirações. Ao fim de quase 2 horas conheciam-se como namorados de longo tempo. Joãozinho acompanhou-a a sua casa, uma rua próxima ao Clube. Marcou um novo encontro e se despediram, cada qual com um olhar mais apaixonado que o outro.

    Joãozinho, ao chegar em casa, encontrou a mãe e a irmã assistindo televisão na sala. Foi logo falando com entusiasmo.
    - Mamãe, mana, não sabem o que me aconteceu! Conheci uma garota maravilhosa, muito linda e educada. Gostei muito dela.
    Em seguida narrou as circunstâncias de como ocorrera o encontro. Deu boa noite e foi dormir. O dia seguinte era de trabalho.
    A mãe e a irmã se entreolharam admiradas. Joãozinho, habitualmente, só fazia comentários sobre os jogos que participava. Concluíram que algo de novo acontecia na vida de Joãozinho.

    Soninha, por sua vez, em sua casa, procurou logo a mãe e com toda a vivacidade da juventude contou o encontro com Joãozinho e a forte impressão que ele lhe causara. A mãe escutou com atenção e carinhosamente a abraçou. Pensou consigo mesma: “minha filha está despertando para o amor“. Mãe e filha eram muito unidas, se amavam e se entendiam como amigas íntimas. Laura, Lalinha na intimidade, perdera o marido antes de completar dois anos de casamento e ficara com o encargo de ser a mãe e o pai de Soninha. Por felicidade, seu marido, filho único, herdara dos pais casas e apartamentos e assim Lalinha pôde se manter e criar a filha com todo conforto.

    O namoro de Joãozinho e Soninha ia acontecendo. Encontros quase diários, o primeiro cinema, o primeiro beijo. O amor brotando em seus corações apaixonados.

    Regressando à casa, após seu trabalho na Prefeitura, Joãozinho tomou o bonde no Meyer que seguia pela rua Dias da Cruz em direção ao Engenho de Dentro. Nas proximidades do cinema Imperator avistou Soninha acompanhada por uma amiga. Observou que a amiga de sua namorada, ao longe, parecia também muito bonita. Saltou do bonde na primeira parada e foi ao encontro delas. Cumprimenta Soninha carinhosamente e saúda educadamente a acompanhante. Não deixando de notar seus olhos verdes e seu belo rosto. Um breve silêncio e Soninha apresenta a amiga.
    -  Joãozinho, esta é minha mãe.
    -  Muito prazer em conhecê-la. Vocês parecem mais irmãs que mãe e filha.
    Laura era uma viúva relativamente jovem, 38 anos, bonita e atraente, cabelos louros naturais e um par de olhos verdes de chamar a atenção de qualquer pessoa. Apesar da forte impressão que causava mantivera-se afastada de qualquer relacionamento amoroso, não por falta de pretendentes, mas por opção. Resolvera que se dedicaria integralmente a criação de sua filha.
    A partir deste dia Joãozinho passou a ser assíduo na residência da namorada e fazia questão que Lalinha os acompanhasse a todos os lugares que iam. Aos jogos de futebol de salão, passeios, festinhas, restaurantes, até ao cinema. Dividia-se em mesuras para agradar mãe e filha.

    Em casa, suas conversas com a mãe e a irmã, ao final de algum tempo, recaiam sobre as qualidades e a beleza da futura sogra. Mãe e filha se olhavam e quando a sós comentavam preocupadas o interesse de Joãozinho pela sogra.
    - Acho que isto não vai dar certo, dizia a mãe para a filha.
    Lalinha não deixara de perceber as atenções, ainda que respeitosas, de Joãozinho para com ela. Observara que Soninha, embora nada comentasse, por vezes, lhe parecia constrangida com o excesso de cuidados do namorado. Sua razão e maturidade lhe diziam que era tempo de se por em guarda. No fundo do seu íntimo sabia não ser indiferente ao namorado da filha. Filha a quem amava mais que tudo na vida. Jamais seria causa de sua infelicidade.

    Nas semanas seguintes deixou de acompanhar os namorados em seus passeios. Quando Joãozinho comparecia a sua casa mal o cumprimentava e alegando indisposição retirava-se para seu quarto. Discretamente afastava-se dos dois jovens.
    Tal situação não passou desapercebida por Joãozinho. Quanto mais sentia o distanciamento de Lalinha mais seus sentimentos afloravam. Continuava a amar a namorada, tendo por ela a mesma afeição, mas a presença de Lalinha revigorava os seus sentidos. O conflito de sentimentos o atormentava. Soninha, por sua vez, mais apaixonada que nunca, sabia que algo não ia bem. As visitas a sua casa diminuíram, encontros só aos sábados. Os beijos trocados eram menos calorosos.
    Joãozinho, diariamente, no horário em que sabia estar Soninha no colégio, telefonava para Lalinha implorando que não o evitasse, que por uma última vez pudessem se encontrar a sós. Lalinha, dividida, escutava e nada respondia. O amor filial clamava mais alto. Ele insistia e ameaçava terminar o namoro.

    O afastamento de Joãozinho era flagrante. Soninha chorava e se amargurava com a ausência do namorado. Seu coração dizia-lhe que ele ainda a amava e não compreendia ou não queria compreender o seu distanciamento. Estava chegando ao desespero que só o amor provoca. Procurou o consolo da mãe.
    - Mamãe, a atitude de Joãozinho é incompreensível. Estou completamente apaixonada e quase tenho a certeza que ele também me ama. Não estou mais suportando esta situação.
    E com os olhos marejados de lágrimas, plenos de emotividade, mas determinados, expõem a mãe sua intenção.
    - Mãe, se eu não me casar com Joãozinho eu me mato, me suicido. Lalinha estremece. Sentiu que a filha era capaz de tal loucura.
    - Não se preocupe, minha querida, tenha um pouco mais de paciência que tudo dará certo.

    No dia seguinte telefona para a repartição de Joãozinho. A surpresa foi enorme. Lalinha, gentilmente, evita os arroubos de Joãozinho e vai direta ao assunto.
    - João, se eu me encontrar com você, você casa com minha filha?
    Joãozinho, por um momento aturdido com a proposta, silencia. A pergunta é repetida.
    - Caso, juro que me caso!
    O encontro aconteceria num apartamento em Copacabana. Telefona para Lalinha e marca o dia e a hora. Com o beneplácito de seu chefe falta pela primeira vez ao serviço. Antes da hora marcada esperava por Lalinha com ansiedade, receoso que ela não viesse.
    A campainha toca. João abre a porta e Lalinha entra. Trocam algumas palavras e Joãozinho começa a beija-la. Lalinha, a princípio retraída vai aos poucos se entregando, deixando-se levar pela paixão. A inibição inicial cede lugar ao desejo reprimido por quase 20 anos. João e Laura se amam não mais platonicamente. Seus corpos se unem com sofreguidão até a exaustão. Ao se despedirem Lalinha questiona Joãozinho.
    - Vai cumprir sua palavra e casar com minha filha? A amante tornara-se novamente a mãe zelosa.
    - Vou cumprir minha palavra, responde Joãozinho.

    Joãozinho volta a encontrar-se com Soninha. Desculpa-se por sua ausência nas últimas semanas. Alega problemas de excesso de trabalho, tanto na Prefeitura como em sua oficina de consertos de televisão. O amor fala mais forte e ela aceita as desculpas do namorado.
    Joãozinho e Soninha ficam noivos e marcam o casamento para o início do ano, após a formatura no Colégio Metropolitano.
Iniciam–se os preparativos do casamento. Lalinha cede um de seus apartamentos no Grajaú para moradia do casal, dá todo apoio à filha de todas as maneiras. Soninha volta a ser alegre, transparece felicidade.
    O esperado dia do himeneu acontece. A igreja repleta. Os familiares, as amigas do Metropolitano, os colegas de trabalho, do futebol de salão e vizinhos mais próximos lá estavam. Soninha, explodindo de contentamento, linda no vestido de noiva, Joãozinho, alegre, alinhadíssimo em sua fatiota azul marinho. Lalinha, a mãe gratificada por ver a filha feliz, no rigor da moda, elegantemente trajada. Os noivos recebem a benção sacerdotal, em seguida os cumprimentos dos convidados.
    Joãozinho recebera de presente, de seus amigos e colegas, uma semana de estada no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, para usufruir a lua de mel. O chefe coloca seu carro à disposição dos noivos. O jovem casal despede-se dos familiares. Mãe e filha se abraçam e choram. Soninha agradece a mãe a sua felicidade. Joãozinho abraça a sogra e discretamente sussurra.
    -  Sou um homem de palavra.
    Os olhos de Lalinha, por um momento, demonstram apreensão e sensação de perda.

    A lua de mel transcorre com recato. Joãozinho porta-se com delicadeza. A primeira noite acontece sem traumas. Joãozinho cumprira o seu dever de marido. Por vezes, entretanto, seus pensamentos vagavam a esmo, sua movimentação tornava-se mecânica, os beijos menos ardentes. Seus olhos nem sempre espelhavam o regozijo que dizia estar sentindo. As juras de amor, só palavras. Por mais que disfarçasse esses momentos não deixaram de ser pressentidos por Soninha. Ela toda ansiedade, curiosidade, amor e paixão naquele aguardado momento. Os dias seguintes não foram diferentes.
A partir do terceiro dia, todas as tardes, enquanto Joãozinho descansava no apartamento, Soninha telefonava para a mãe e tinham longas conversas. Lágrimas ocorriam pela face sisuda entremeada por sorrisos de alegria. No sexto dia, Joãozinho, ao acordar da sesta e não encontrando a esposa no quarto desce ao saguão do hotel para procurá-la e a vê falando ao telefone. Aproxima-se e ouve o que ela dizia:
    - ... mamãe estamos de acordo? A senhora aceita de verdade o combinado?... não se preocupe não haverá ressentimentos. Nós nos amamos muito e não vai ser difícil. Um beijo, até amanhã, à tarde. Voltando-se da cabina telefônica bate os olhos no marido. Beija-o com carinho. Ele pergunta-lhe o que significavam as palavras que ouvira.
- Nada de mais... é uma surpresa que eu e mamãe vamos lhe fazer quando voltarmos, responde com um sorriso matreiro e encantador. Pega o braço de Joãozinho e o conduz ao deque do lago para um passeio de pedalinho.

    A curiosidade de Joãozinho era visível. Desde aquela tarde, à noite, até fazendo amor questionava que surpresa seria? Soninha logo percebe a ansiedade despertada em Joãozinho pelo anúncio da surpresa e intimamente se diverte com a situação que provocara. Galhofava e sorria sempre que ele indagava. Mil carinhos e beicinhos, mas nada revelava. Surpresa é surpresa respondia. A relação de cordialidade e afeto entre os dois decorrente da enigmática surpresa trouxe à memória de Soninha as primeiras semanas de namoro. Ela se sentiu emocionada e feliz, quase chorou, mas não deu a perceber.
Estavam chegando. Haviam passado pelo Engenho Novo. Entraram na rua em que iam morar. Joãozinho parou o auto na porta da residência. Uma casa como tantas no Grajaú. Um pequeno jardim, uma escada de quatro degraus dando acesso ao alpendre que se estendia pela largura da casa debruçada para a rua.
    - Agora não tem mais desculpas. Qual é a surpresa? Indaga Joãozinho.
    - Olhe para a varanda, responde Soninha.
    Ele volve o olhar e vê a sogra acenando para o casal. Continuou sem entender.
    - A surpresa é mamãe. Ela vai morar conosco.
A fisionomia de Joãozinho vai do espanto a alegria, seus olhos brilham. Pega a mão da esposa e sobe os degraus até chegar a varanda. Abraça Soninha e Lalinha, beija-as no rosto com todo carinho e é por elas beijado. Abraçados adentram a casa.
    No alto da porta de entrada um dístico anunciava “Casa da Felicidade”.
 

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TOM: “Le mot”

                            Ronaldo Netto dos Reys - do livro (“O Murmúrio das Pleiades”)


    Lendo Henry Michaux em “Estou a escrever-te de um país distante” sentei e tentei transportar-me, viajar...
    Assim estou a escrever-te do fim do mundo...Onde vivemos todos com o nó na garganta.
    É um país distante.Longíquo...Só temos aqui, um sol por mês e por pouco tempo:
    Tempo inexorável: Só quando se lhe dá o SOL, aparece, vem cheio de donaire...
    Depois tem-se um mundo de coisas a fazer, enquanto há claridade, e de tal forma que sobra pouco tempo para se reparar em nós.
    Lembrei-me da busca do tom. Não posso deixar-te nunca mais com dúvidas com falta de confiança.
    Há muito tempo, andamos a debater-nos com o mar, assim como o tom. E, ambos, sabemos que são palavras...
    Não passam de palavras...Não passam de medos...
    Já reparaste que é muito raro no mar com seu tom azul, suave, que ele nos pareça contente.
    E que tom é o contrário da francesa “mot”. Palavras...Apenas palavras...
    Eu deveria tentar explicar agora o caso das ondas. Incrivelmente mais complicadas que o mar...E são amigas dele e do vento! Mas apesar de medo e palavra, ele existe, juro-te que existe, estamos constantemente a vê-lo. Chega de muito longe a meter-se conosco e assustar-nos. Quando vieres hás de vê-lo, também tu, e ficar muito espantada. “Olha só“! dirás porque ele assombra. Havemos de vê-lo juntos! Julgo que deixaremos de ter medo. 
    Ou achas que isso nunca vai acontecer.
    Sabes, aqui no fim do mundo existe também o vento! Tens de sabê-lo! Pois ele é o amigo das ondas! A vida mais poderia prosseguir sem vento! Ou não tem tudo sempre, sempre que tremer. Nada vemos, do que importa tão pouco ver-se. Nada e no entanto trememos.
    Gostaria de falar-te uma vez mais do mar. Mas permanece a barreira. Os rios avançam, ele é que não. 
    É assim o mar. Por mais agitado que esteja, para a frente de um pouco de areia.
    É muito indeciso. Por certo queria avançar, mas a verdade é que não o faz.
    Mais tarde, um dia, talvez ele avance e chegue até aqui no fim do mundo!

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HETERODOXO ENLACE

Conto de Ney Dantas

    Avô lente, avó crente, pai prepotente, mãe atraente, irmãs salientes, irmãos inconvenientes. Amphilóquio Genipabus Rosa Couto, temporão ultimogênito de uma quinzena. Imprevisto e maldiçoado acidente de intercurso sexual matutino.
    Desde vindo à luz, repelido por molesto, repudiado por pachorra, olvidado por necessidade, evitado por irrativo, escondido por precoce feiura infantil. Incito jota, indolente e dependente para seguir os entes da família.
    Cresceu insulso, claudicante, conseqüência de rígida educação, resultado de religiosa formação. Vexado por caráter.
    Além de padecer de atriquia, dolicocéfalo, adunco, longilíneo, tez hialina, miopia a exigir grossos óculos, nariz de cavalete a sugerir nasóculos. Peidorreiro. Misto de ascoso e burlesco.
    Mancebo fraldiqueiro nas aparências, salta-pocinhas no andar, sorrelfo no agir, tartamelo e viciado em aféreses, síncopes e apócopes no falar.
    De seus primeiros trocados, frutos da atividade de estafeta, passando pelos parcos caraminguás de sepultureiro, até as atuais modestas rendas de notório rábula, um perdulário ... lá .
    Filó para os amigos mais antigos, gozadores de boa memória, desde o "fi-lo porque quilo"; Geni para os insinuadores de maledicências; Dr. Rosa Couto para os Juizes, Magistrados, Amanuenses, Baixareis, Despachantes, atravessadores de processos em Tribunais, caminhantes dos corredores do Fórum, freqüentadores de Varas; apenas Rosa para os colegas mais chegados.
    Com esses adjetivos e valores, nada lhe fora gratuito até a maioridade. Ósculos, alisares, sarros, bronhas, bolinadas, bimbadas, nada. Mister recorrer às dadivosas dos lupanares, às deusas dos castelos. Tudo que lhe entrava na banca, escorria entre elas ... lá.
    Foi onde lhe descobriram o verbo e o ignoto predicado. Um assombro que lhe valeu a preferência de Madame Georgette, divina mestra de suas primícias. Nas Varas ninguém suspeitava da sua incomensurável estrovenga, mas lá, logo fez fama, deixou lendas; coadjuvada por proeminente nariz e por ágil e eficiente língua. Ai meu Deus ...
    Linguinha, sua mais popular e secreta alcunha, ninguém sabia ao certo de onde vir. Se propagada por detrás dos balcões por aqueles que o sabiam padecer da tartamudez; se disseminada desde os leitos por todas que já haviam experimentado de sua prática lingüística; se fruto dos disse-que-disse das curiosas, invejosas, cobiçosas e ansiosas de um cunilíngua; se conseqüência dos ouvintes de sessões judiciais, assistentes de audiências, testemunhas de sua verve e lábia. De onde vir? Na verdade, ninguém conhecia a verdadeira origem do codinome. Ouviam alhos, multiplicavam bugalhos.
    No quotidiano das Varas, Fóruns e Tribunais, um advogado embromeiro, majestade das mumunhas, rei das artimanhas, príncipe das tretas profissionais diurnas. No freqüentar dos castelos, um Hércules, um Atlas, um Ai Jesus, soberbo de filáucias e fricotes noturnos.
    Girgolina, née Cambuquira, casta por educação, pudica por enganação, inocente por não praticante, sonhadora por desejo, poliandra por anseio, virgem por não introdução, insucessos, desvios e sustos. Ai meu pai!
    Dona de fartos úberes, provocativo colo, nédios braços, largo buzanfã, rechonchudas coxas, atritosas bimbas, finas canelas, pés sensuais, unhas bem tratadas. Uma exuberância. Quiáltera jamanta, eivada de esconderijos, soberba área de manobra, apertado fundeadouro. Possuidora de ruiva carapinha, gaforina, a requerer almofaças, por isso, amante de biocos. Com toda essa estampa, um tênue buço até que lhe emprestava melhor acabamento !
    Vestia-se pecilocromaticamente; justos, colantes, exíguos, chamativos, sugestivos. Ai se eu pudesse ...
    Atividades no lar (dos pais): freqüentar a sacada para assistir os passantes; xetar aos transeuntes; ler, culta em Capricho; assídua de radiola e TV, especialmente os programas de auditório; devoradora de bom-bocados. Nenhuma outra digna de lembrança.
    Adorava bundear, ver gente, movimentos, lojas, vitrinas. Pisar firme, passos largos, olhar penetrante, conspícua postura, cheia de atitudes e de coragem. Mocetona. De grácil, o falar e o biquane sorrir.
    Um dia, ela saiu à rua. Ele vinha do Forum. Heureca! Amor de primeira, "per accidens", inequívoco equívoco. Avidez de sexo dela, escassez de "cum quibus" dele. Que comunhão!
    Rápido enlace. Como lar, o quarto de solteira. O leito, agora largo, freqüentada arena de borralho, assíduos encontros de pomba e crica, tantos os pulos, os uivos, os movimentos, os urros, os ais. Horas infindas em ambiente bochornal a temperar os inexpiáveis êxtases, a esgotar o sorrelfo mestre, a inebriar a ingênua principiante ...
    Inconsistente alicerce, efêmera construção. Não agüentavam fazer mais . Não podiam chegar mais longe .
    Nela, insaciável orexia, tesão mesmo, que a levou a metromania. Nele, inexplicável sezão por enfado que veio, por repulsa que se seguiu, por amolecimento conseqüente, e por inadimplência terminal.
    De nihilo nihit fit . Dixi .

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SONHO MARINHEIRO 

Conto de Ney Dantas

    Mar, marinha, marinharia, marinheiro.
    Maruja; heu, tu cá, tu lá, ela, nós; nós, vozes, eles de lanugem, liberto, libido, luneta, lambisgóia, lida, lândrias.
    Azáfama, basbaque, cinquena, donzel escorreito, franduno, gerifalte heliófilo, incubo, juvenais, leguleio, macanjo, nume obcordiforme, pornéia quiaba, récipe salpicado, trebelho, usufrutuada vulva wagneriana, xibiu, zona.
    De chalupas batutas, de faluas bundudas, a "dreadnoughts" vetustos ; de arcaicas dromundas a naus hodiernas .
    Longe delas os beldroegas, os remelgados, os homúnculos caiangos artófagos, os alfarricoques arupanados, os moçoilos com pigalgia, os durázios hiantes com almorreimas, os lampinhos pulcros chegados a púmices, os manjalecos infandos, os benjamins bisonhos, os timoneiros carentes de supedâneos, os carecentes de pés invejosos de latípedes ; todos bisbórrias e gojobas.
    Bem-vindos os inclinados a patescarias; os membrudos, os assíduos de alcoices, respeitadores de pécoras súcubas; os sorventes de pilóias e amantes de girgolinas, livres de liquéssias e de gonalgias, tantas as escadas; os nautas íntimos de deques, os experientes de manobras, os conhecedores de embarrigamentos, almocreves de praticantes formidolosos; os gorgotas nupérrimos com manoplas prontas para empunhar malaguetas e ágeis para desencapelar proízes; robustos para esgarçar trogalhos; com coragem para soltar bichas .
    Longe de nós os beleguins, os alcagüetes, os cega-regas, os onze-letras, os pérfidos, os trânsfugas, os chifrudos chinfrins. E dos autófagos, dos labregos, dos salta-pocinhas, dos réprobos, dos girolas e dos jirotes, nem falar. Arre. Deuteróganos, quem sabe.
    O guapo Capitão, nada de mariola, propenso à pimélose, apreciador de mus e de gagau, avesso a nefas, prógono de pústula marinhagem. Irrepreensível com peúgas à vista nos botins, farda de manzuque, mangas como escovéns para latimanos, bichas douradas, talabarte, chanfalho à cinta, amarelos buídos com potéia, pelerine com rebuço, pois acanhado. Cara dotriacontagonal, canície, suíças, ventas largas, latilabro, dentudo, bigodudo. Comissuras escondidas. Aspecto drolático; mas de veneta e com vício de epizeuxe. Rica loquela, rica loquela, rica loquela .
    Sua nau, seu prana, seu ente. Cáspite. Do lais ao cadaste. Tudo. Amantilhos, boçardas, calcês, dalas, enxárcias, ferros, grinaldas, hastilhas, isoladores, jazentes, longarinas, molinetes, ninhos, ovéns, paineiros, quilha, reclamos, sicordas, tetas, unhas, vergas, xadrezes, zincos.
    Fainas, todas. Arribar, beijar, capear, desbolinar, encapelar, fundear, gurnir, habitar, juntar, largar, manobrar, navegar, orçar, palombar, quebrar, rocegar, solecar, tesar, unhar, vogar. Céus!    
    Lídimo lidador das cousas do mar. Tudo entuchava. Nada lhe entupigaitava. No vagar, atividades lúdicas, estrudando a cada sazão sem ser lúdrico. Bisnau, aprumado em seu escabelho, apreciava o pataréu, sonhava quando navegava, safando-se de arrifes aqui e ali ; freqüentando lupanares de cima a baixo, de cabo a rabo, da testa ao dedão . Almeirim, Belém, Cabedelo, Derrubadinha, Estância, Fortaleza, Guaratiba, Humaitá, Ilhéus, Jari, Laguna, Manaus, Natal, Óbidos, Parati, Quixaba, Recife, São Sebastião, Tutoia, Ubatuba, Vitória, Xapuri, Zimbros!
    Um pático, principalmente em novilúnio, quando lhe subiam a fidúcia e a estúrdia. Estrovenga em riste qual gurupés, cata dadivosas em cada pedaço, cheio de fomitura. Nímio priapismo. Mundano. Escrevinhador de heróides a ninfetas.
    Voltívolo, adorava bundear, "pimbar no sereno". Causava-lhe sensação, a maior tesão, um bolodório de prelibação para escabichar a dadeira entre blandícias e bisbilhos, entregar-se a um lambe-lambe ou, quem sabe, deitar em êxedras para folegar. Um halófilo nessa hora. Haragano nas licenças, caçoista contumaz, sempre na razia, aríete forte, rijo e resistente, bolinava sempre que preciso, desembuçado, cheio de nequícia. Ai, ai...
    Marinheiro profissional, melhor não existia, a corcovear em vagalhões, a mergulhar em cavados, a desprezar eolos, lestadas, mistrais e outros mais. Em faina, sempre parlamentado, suas coisas soavam como bisagras desengraxadas. Sua flâmula, um gonfalão em frangalhos. Pimpava. Blasonava.
    Hoje, panos rizados, sem risos, com "gato de armazém" na entreperna, entre um hausto ecfrático e outro, a chupar drupas ou a mordiscar nucelas, um napeiro, um patacho. Gozo tremecém. Alegrias agora, epígonos de epígonos entre as pernas, nuelos netos, esbirros domésticos, pentelhos frenéticos, fedelhos esgarabulhões, pirralhos pisqueiros pedintes de dolés, uma zorra. Odores, urinações sôbolos pernas desprecavidas; urências, cueiros, fiofós a mostra, omos em flocos, varais ; um infindo lufa-lufa, digno de gratulações.
    Quarenta e cinco anos! Epuxa, epuxa, epuxa! Chegamos! Elmo, Elmo, Elmo. Não é gagueira, nem esclerose, mas epizeuze de novo. Bis, bis, bis. Quero mais, muito mais, outra vida marinheira! Quem sabe, mais estórias.
    De nada, nada se faz. Tenho dito.


IMPUDENTE MASCATE

Ney Dantas


    Formosura é uma pacata cidade do interior mineiro com pouco mais de 5.000 habitantes. Todos simples descendentes de pouco ambiciosos proprietários de sítios de onde extraiam recursos para a própria manutenção. Criavam e plantavam para viver e sobreviver. Lojas simples para o comércio dos produtos de primeira necessidade, de saúde e de vaidades. A Casa Formosura era uma delas.

    Famílias numerosas conseqüências da inexistência da televisão, do deitar cedo, do excesso de carinhos no leito, da preguiça e do comodismo na adoção de medidas preventivas para aumento de prole. Além disso, a religião. Frei Bento era cruel em seus sermões dominicais. Os filhos seguiam pais e avôs.

    Cidadezinha de casa cujas portas e janelas se abrem para as calçadas permitindo aos transeuntes noturnos, quando os há, ouvirem murmúrios, gemidos, ais, não me toques e hoje não. Comunidade em que todos se conhecem e sabem das ascendências de cada um de seus vizinhos, amigos ou não. Em que fingem não saber ou não ver certos estranhos excessos de intimidades entre moradores.

    Honorato de Melo Fradique, formosuro de nascimento, administra com extrema e zelosa dedicação a única lojeca de costura, tecidos, aviamentos e brogúncias afins que herdou de seu pai que por sua vez a recebeu de seus avós. Portanto loja antiga e tradicional merecedora de todo o respeito e confiança locais. Mestre vestimenteiro, copiador de alizabas, aljubas, altirnas, cardigãs e cogulas, inclusive bortalás e garavins; desenhista de corpetes, costumes, duas-peças e raglãs; criador de jalecos, saias, suris e surtuns; confeccionador de sutambaques, tabardos, véstias, vasquinhas e outras fatiotas com incursões em esquipações, estemas e trajes menores. Ousado pioneirismo regional para a época.

    Fruto de gerações de especialistas em tecidos, panos, rendas, cadarços, linhas, agulhas, botões e outros utensílios afins, azes na tesoura, hábeis no convencer as freguesas e financiadores, eficientes no plantar modas e opiniões, peritos no induzir as duvidosas e insatisfeitas, exímios no corte e no talhe de trajes, invejados no saber desvestir e vestir as comadres com belíssimos retalhos dos mostruários recém trazidos da capital de onde copiavam a moda de figurinistas comentados nos jornais do Estado. Dedos leves, penetrantes e insinuantes nas provas.

    Honorinho, primogênito de Honorato e previsível sucessor de seu pai, desde menino na volta da Escola Pública, abandonava seu badameco alhures por preferir admirar o pai a fazer seus deveres de casa. Inveja o pai no trato com as clientes. Ambos admiravam-se com as belezas delas. Nem todas ... Cresceu, conheceu e aprendeu tudo sobre tecidos. De excelente tato e perscrutante olhar, revelou-se na região como o melhor conhecedor de alpacas, baetas, bêmberes, bobinetes, brins, brístois, brocados, cambraias, cetins, duraques, escumilhas, feltros, filós, gazes, gorgorões, guipures, liteiras, lonitas, ludros, lustrilhos, madapolões, morins, musselinas, nanzuques, organdis, organzas, popelinas, rendas e rendões, sedas, suedines, tafetás, vintenos, viscoses, voiles, xantungues, zefires, zuartes e até vidrilhos! Excelente costureiro. Excedeu as qualidades do pai, todas, ao ser agraciado pelo Divino por outras mais. Jovem bem dotado, estatura avantajada, corpo atlético, educado e aparentemente respeitoso, boa fala, conversador solto, encantador natural, vendedor nato cuja lábia era capaz de vender areia no Saara, gelo seco na Sibéria e óleo de bronzear na Mauritânia. Que lábia! Precoce e contumaz alicantineiro.

    Logo aprendeu, assimilou e aperfeiçoou as manhas e artimanhas do pai. Quando o substituía e oportunidade aparecia, excedia-se durante provas ao bolinar visitantes desejosas, esfregar-se com jovens sapecas e ambiciosas, ou tirar um sarro de senhoras provocantes entre um e muitos suspiros, uns mais baixos quase sussurros, outros exasperados quase urros. Faltavam-lhes coragem para excessos por trás dos biombos e balcões ou sobre as peças enroladas de tecidos que abundavam no ambiente. Quem sabe um dia em que a ousadia aumentasse e uma resistência terminasse ...

    Cedo não mais se satisfez com as visões e imaginações locais. Sonhava com viagens às cidades vizinhas ou mais longas. Ousadias maiores. Ações mais radicais. Sem poder ingressar na Marinha tornou-se um alabama, um mascate. Avesso a zungas preferia pernoitar em seu largo DKW vinho de mala avantajada, com aconchegante decoração interna, equipado com radio, mantas e espaldadeiras. Regozijava-se quando alguma inadvertida e insinuante cliente em condição disponível e favorável oferecia-lhe hospedagem. Um nirvana. Fugas cada vez maiores. Alargou horizontes e aumentou distâncias. Mas sem nunca abandonar a Casa Formosura embora odiasse os lheguelhés locais.

    Nunca, contudo, engana-se a todos por todo o tempo. Não tardou tornar-se conhecido em toda a região; a princípio, por janota, depois namorador desavergonhado, bolinador insaciável, enganador de noivados, e por fim por trepador inigualável, desmanchador de casamentos, produtor de cornos. Saltador de janelas e muros. Alvo de trabucos, arcabuzes, bacamartes, carabinas e winchesters, colts e garruchas, até de estilingues e bodoques. Perseguido e fugitivo bem sucedido. Corpo fechado, fechadíssimo!

    E o bom filho à casa tornou. Sua fama chegara antes. Inconformado, Honorinho tornou-se um xingaraviz, atropelou os negócios do pai e talvez isso tenha precipitado a morte do progenitor ... e a posse da Casa Formosura.

    Casa Formosura! Isso não é nome de casa de confecções, de venda de tecidos e de aviamentos. Melhor nome não poderia existir para uma casa de ilimitado contubérnio, de aconchegos íntimos, encontros furtivos, alisares provocantes, ósculos dissolutos, dedilhares licenciosos, cópulas inebriantes. Enfim, um bordel, um lupanar, um castelo! Algo ainda inexistente na cidade. Insatisfeitos, desejosos, ambiciosos, viciosos, escamoteados apreciadores da libidinagem, era o que mais Honorinho sabia existir e conhecia na região. E de ambos os sexos. Clientes não faltariam.

    Jamais viu-se tamanho leva-leva na loja. Afastaram-se biombos e balcões foram transformados em confortáveis sofás. Rearrumaram-se as prateleiras. Recobertas com placas de eucatex. Ampliou-se o ambiente e criaram-se novos cômodos. Todos ornados com vistosos e pesados lustres, decorados com lucívelos com propícia luz mortiça e longas cortinas com os panos da ex-loja. Não poderia ser esquecido um bar. Dinheiro não faltou, fruto das planejadas economias, prósperas vendas, prolongadas viagens, longos e laboriosos pernoites e de produtos de outros ganhos ...

    Honorinho abandonou as viagens. Pouco saía da casa onde trabalhava e habitava. Deixou de fugir. Nunca mais foi alvo. Não casou, mas também nunca dormiu só.

Paquetá, 29 de abril de 2005
 


A GUERRA DE PALAVRAS

                                                                                                                     Ney Dantas

    Houve tempo, há muito tempo, em que reinos disputavam saber.

    Suas maiores contendas ocorriam durante os desafios nos tradicionais jogos de “palavras cruzadas” em que competiam seus maiores lingüistas. Preparavam-se por anos! Renhida peleja que já motivara guerra ... de palavras insultuosas! As armas eram os súditos, os projeteis os vocábulos. Sempre usavam um mediador imparcial, o considerado de maior saber no continente, aliás, autor de um volumoso alfarrábio com a mais variada coleção de fonemas isolados ou agrupados, especialmente as dições mais estranhas. Honélio Bulac, de Golanda, ferreiro e exímio entretecedor, era seu nome. Conhecido e conceituadíssimo!

    Hermes era rei de Calipígia que fazia fronteira seca com Esbórnia cujo trono era ocupado por Hermeneuta. Reinos colados um ao outro, rivais há séculos por questões da mesma língua, que lhes servia tanto para carinhos e afagos como para ataques e acintes, ferina de um lado, ágil de outro, dúbia em ambos os reinos. Quantas vezes! Hermafrodite incasta filha de Hermes e Afrodite tinha por irmãos Galalau e Galiléia, mas somente ela nascera com aquela dupla personalidade, com aquela anomalia que tanto preocupava e envergonhava seus pais, que só eles sabiam e que tanto escondiam: de dia ela era a bela princesa de sapatinhas, de noite dava vazão à sua ânsia de calçar botinas e coturnos, de verter águas na posição ereta e de deitar-se sobre alguém... As aparências diurnas da jovem princesa enganavam calipigianos e esbornianos.

    Já Lambidão, herdeiro de Hermeneuta, almejava reunir os reinos em um sodalício sob as bênçãos dos deuses Calêndula e Beladona, embora zombasse dos vizinhos que não lhe entendiam o vernáculo. Almejava que seu pai logo perecesse de mais uma de suas crises de anacefaleose, ora agravada pela sua rejeição à anacirtose . Não enganava seus vassalos que o sabiam abusado devasso useiro e vezeiro de suas aptidões físicas: quartudo e provido de uma estrovenga que mais parecia uma baluda. Sonhavam os esbornianos que o príncipe encontrasse sua amada, casasse, acalmasse e honrasse o trono onde repousasse suas avantajadas nádegas que lhe estrangulavam o fiofó.

    Como por encanto, a oportunidade surgiu durante os jogos de palavras cruzadas daquele ano, disputado a cada quindênio com seletivas de lustro a lustro. Os jogos reuniam as cortes e súditos em arquibancadas de andiroba-suruba, abundante em ambos os reinos, cuidadosamente construídas com 100 palmos de extensão e 20 de altura, com escassos diazomas, dispostas frente a frente, afastadas não mais do que dois metros uma da outra, com os competidores ao alcance de uma cuspidela! Vencia a competição o reino que primeiro alcançasse 50 palavras que o opositor não soubesse o significado. Não valiam consultas aos dicionários e alfarrábios. Exceção a Honélio de Golanda, o vizinho, neutro, imparcial e acreditado juiz.

    Os sábios decrépitos sentavam-se aos centros aos afagos das linguareiras, espalhando-se os lingüistas menos idosos para as beiradas entremeados de literataços, literatiços, literateiros e até leguleios. Nomes famosos competiam . De um lado, sentavam-se Beleléu, perito em unidades de medida; Gametângio, especialista em células; Calcispôngia, pesquisador de animais porosos, Apapocuva orgulhava-se de tudo saber sobre os primitivos habitantes dos reinos; Almo Xarife, um bem sucedido empresário, não escondia seu saber sobre negócios e abastecimento, Xao Xota, profundo conhecedor de fueiros. Do outro, sobressaiam-se Mago Patrasana, receitante de dietas; Mestre Balbo notável competidor, admirado por sua coragem a despeito de quiquiqui; Lya Tibussa, notável sexóloga; Tartaranha, colecionador de equipamentos de pesca; Urumbeva, sagaz por suas esperteza e memória; Professor Almocreve, um sábio dos transportes; além de outros tantos, cada qual com sua especialidade de família vocabular.

    Naquele ano, Hermes e Hermeneuta permitiram que seus filhos competissem. Afinal já tinham alcançado a idade e o conhecer. Aos seus lados sentaram-se Lambidão e Hermafrodite, frente a frente, olhos nos olhos pela primeira vez, sem, contudo dizerem uma só palavra. Curiosidade entre seres logo afogada por intensa e irresistível atração à primeira vista. Solução para os reis cheios de segredos. Esperança para a paz entre seus reinos.

    A peleja desse ano foi marcada pela agressividade e por intensas interferências de Honélio, de Golanda. Os de Calipígia atiraram anarcitose, bucéfalo, cogotudo, deuterógamo, espicilégio, favônio, graveolência, heróide, insulso, jalofo, levípede, majabé, napeiro, obcodiforme, perponte, queba, repa, sambango, trolha, ultor, verrúcula, xibiu, vaginela. Os de Esbórnia reagiram com alexia, bimba, cunilíngua, doesto, elafiano, fraldiqueiro, glossalgia, himeneu, imissão, javevó, lândria, manicaca, noitibó, orintibó, pé-de-rabo, quibas, rabiote, sibilatório, tabaca, ulnário, vasca, xeta, vilanaz.

    Semanas já durava a peleja. E os olhares entre Lambidão e Hermafrodite tornaram-se cada vez mais intensos, permanentes, inseparáveis, chamativos, apelativos, significativos, irresistíveis. Comiam-se com os olhos, não despercebidos pelos respectivos pais.

    Dali aos imediatos entendimentos matrimoniais foi um átomo. Cônsules foram chamados e tratados foram alinhavados. Conversações e assinaturas de acordos ocorreram do dia para a noite e para o dia sem que nada se suspeitasse de um lado ou de outro da fronteira enquanto a disputa continuava, renhidíssima.

    Difícil mais esconder a irresistível atração! Tão logo percebida a trama pelos súditos de ambos os reinos, passaram a sobressair-se, em ambos os lados, os sexólogos e discípulos de Camasutra e Camadivã. E mais palavras, cada vez mais pesadas.

    As núpcias foram inevitáveis e inadiáveis tais as ejaculações precoces dos nubentes.

    Passadas as pomposas festas, tornaram-se ruidosas as seguidas cópulas, no castelo de Intermédio, em Golanda, justo sobre a linha de fronteira. Durante o dia ouviam-se os urros da princesinha esgarçada difícil de ser submetida, à noite os uivos delirantes do enganador e almejante à unificação dos tronos. Sucessivos, espalhafatosos e litigantes enlaces em leito esplêndido, que logo se transformou em arena, entre Lambidão, o intempestivo incubo e insaciável súcubo, e Hermafrodita, a voluntariosa ‘entendida’.
   
    Um inacabável leva-e-traz entre os reinos foi inevitável apesar de todos os esforços das polícias. Um horror. Vergonhas alardeadas e agravadas por tricas e futricas entre vassalos, súditos e todos mais! De ambos os reinos! Caia o moral, despencava a decência, esfavelava-se o respeito, crescia o desrespeito, proliferavam troças, pilhérias, zombarias, mofas, escárnios, chacotas, deboches ... uma vergonha que atravessando fronteiras originou agressividade ainda maior na peleja das palavras cruzadas que insistiam em não apresentar vencedor. Que disputa! Algo jamais visto!

    Não vingou a almejada paz entre os reinos.

    A vergonhosa e insustentável união do casal deu lugar à precoce separação e a irrecuperáveis rasgamentos dos tratados e acordos. Mas ao invés do acirramento da contenda, ao contrário, ela foi se esvaziando ao se tornar um lúdico jogo em hilariante algaravia, uma guerra de irresistíveis risos entre súditos de ambos os lados que livres de tanto rigorismo e afogados pela língua, excediam-se cada vez mais, de mais risos, a ponto de morreram todos de tanto rir, rolando pelas arquibancadas, os de cima sobre os de baixo! Até hoje!

    Honélio, o único sobrevivente, declarou empate nos jogos desse ano, pela primeira vez na história. E nunca mais esses jogos foram comentados na História Universsal e os dicionários caíram em profundo desuso. Até hoje!

    Com o desastre ocorrido nessa última guerra de palavras entre os reinos de Calipígia e de Esbórnia, que ficou conhecida como a Surubada, e a decadência dos reinos vizinhos, Tartamelo, Imperador de Bazofia, conhecido purista de seu vernáculo, reconhecido pantólogo e autor da cartilha de termos discriminatórios, ousou sonhar em dominar todo o vale.

    Aos novos vassalos que não lhe conheciam a energia e lhe duvidavam a oratória, caracterizada por invejável facúndia, não hesitou em demonstrar, em sucessivos atos públicos, seu conhecimento da língua mãe e a exigir de seus súditos um rigorosíssimo regime de escorreito emprego das palavras. O que nos impérios falidos foi um esporte competitivo, em Bazofia tornara-se lei! Pena que emanasse ela de um conhecido lingüinha padecente de incurável anáfora. Por isso, quando em apuros safava-se com pantomimices. Um exagero! Uma freqüente e pública pândega, um abscôndito deboche.

    Em sua primeira visita a Calipígia e Esbórnia na tentativa de angariar a simpatia dos sobreviventes, dirigiu-se aqueles povos que fez acomodar nas recuperadas arquibancadas em andiroba-suruba, com um cansativo discurso que raiava a gaiatice que começou assim:

    “Mememeus obebedientes súditos, meeeeus obebedientes vavassalos, mememeus obebebdientes conconterrâneos quequeridos. Sossosu ririgogoso cucumpridor dadas leleis, em mmeu papais e aaalhures. Cricriei a cacartilhalha queque ...”

    Com esse burlesco e inopinado intróito de improviso seguido de entupigaitado discurso, em que justificava a proibição do emprego de palavras vergonhosas, xulas, ofensivas e insinuantes diuturnamente entre cidadãos, não só nas arenas, mas até nas camas, esperava Tartamelo conquistar os parcos ouvintes representantes daqueles povos. Ledo e imediato engano. Tentou explicar-lhes ser injustificável chamarem-se de veado, boiola, beata, comunista, milico, pinico e quantas outras palavras de uso tão comum. Afirmou-lhes que não hesitaria em colocar nas esquinas, vielas e ruas seus policiais secretos. Afinal isso era um direito humano!

    Qual direito humano, pergutaram-se todos? Ser referido com termos discriminatórios ou por a polícia nas ruas. Pelo sim pelo não vaiaram-no muito, cada vez mais, todos sem exceção, culminando por chamá-lo de biiiiichaaaa, baitolaaaaa, cooorrno, entendidooooo e severino, severiiiiino, aliás o mais recente dos adjetivos de sua cartilha.

    Tartamelo chegou à ira em seu interrompido discurso levando calipigianos e esborneanos ao riso e sua guarda à vergonha! E mais riam aqueles já sofridos povos com dores nos rins de tanto rir. Risotas de início abafadas logo deram lugar às gargalhadas às escancaras, sem o menor decoro, pudor ou receio. Ato contínuo, antes mesmo de chegar a expor suas intenções finais, voaram-lhe sobre o mirrado corpo lécitos, tomates e pepinos ainda servíveis como esculento, ingredientes de não esvaziados urinóis, raladuras as mais diversas encontradas nas cozinhas e carpintarias, ramalhetes secos e prontos para o lixo, rotos embornais, enferrujadas missagras, violas sem cordas, cacos de púmice, pedaços de inúteis instrumentos de música, furadas e chulepentas peúgas, abandonados alguidares, restos de serafina, trabéculas, pesados e desfolhados alfarrábios, breviários e as mais recentes cartilhas. Tudo durou um curto recambó, o suficiente para fazer correr o imprudente Imperador.

    Sem o saber e pretender, Tartamelo provocara nova onda de irresistíveis risadas, agora também entre os de seu próprio reino. Riram a mais e mais até caírem, desta vez ... de vergonha.

    Na praça, em espontâneo fuzuê e contagiante falastria, pulava-se altas e vivas línguas de fogo de flamejantes fogaréus alimentados por dicionários, breviários, alfarrábios e pelas novíssimas cartilhas.

                                                                                        (Rio, maio de 2005)


SAUDOSO DE PAQUETÁ

Ney Dantas


    Astrolábio, sim este era seu nome, escolhido pelo pai sob influência do avô, ilustre oficial general de nossa Marinha Imperial. Desde muito cedo, pais e familiares e os amigos mais chegados chamavam-no pela óbvia alcunha de Binho. Nascido e criado na Ilha. Conhecia-a, como ninguém, todos seus cantos, recantos e encantos. Passo a passo, palmo a palmo.

    Aristão, Adelaide Alambari, Bruno, Bom Jesus, Capim Melado, Covanca, Catimbau, Comprida, Dois Irmãos, Darke, Estaleiros, Feliciana, Frades, Grossa, Gaivotas, hospital, Imbuca, Iracema, Jerônimo, José Bonifácio, Leopoldo, Lacerda, Lameirão, Manoel Luiz, Manoel de Macedo, Moreninha, Nova, Olímpio, Pescador, Preventório, Pinheiro, Polucena, quarteirões inteiros, Ribeira, Regente, Shangri-La, São Roque, Tomás, Tamoios, Uruguai, Vira-canto, Vicente, Vivaldo.

    Curtiu-os até além da adolescência com a complacência dos pais e das parceiras enamoradas, jovens como ele. Umas mais ousadas, outras menos tímidas!

    Dias de desejo, noites de sonhos, de frustradas realizações ... mas nem todas. A caiçara na Iracema, a veranista do Solar d’el Rey, a poeirenta da caieira, a curiosa na Covanca, a desenxabida do entulho da Imbuca, a cheirosa da Praia da Guarda, a fugidia da festa de São Roque, a banhista do Balneário, a encabulada neta do Comendador, a desejosa na pedra dos Amores, a satisfeita da príncipe Regente, a agasalhadora dos Coqueiros, a saborosa cozinheira daquele restaurante, a maminhuda da Colônia da Mesbla, a bunduda do Lameirão, a chupadora do Cine Theatro Sport. E quem mesmo na caixa d’água?

    Aconchegos e apalpadelas, beijos, cócegas e cochichos, desejos e dedilhadas, ereções, fingimentos e fornicações, gromas e gozos, heurecas, inácias e intuições, jatos, látegos, massagens, não-me-deixes, orgasmos, pausas, querido quero mais, ressacas e reptos, salivações, tesões, umectações, uivos, vai-e-vens, xacocos.

    Insatisfeito, mas por própria opção, partiu cheio de lembranças para concurso à Marinha Mercante na metrópole. Inúbil, mas precocemente filógino, por convicção, por ... e por satisfação. Levou a lembrança da mulher que amava feita de pedaços.

    Aprovado e cursado tornou-se oficial de náutica, brilhante! Percorreu o litoral brasileiro e conheceu lugares, principalmente à noite. Bem sucedido e com interstício mais que suficiente , tornou-se comandante. E ousou pelos mares das Américas, da Europa e do Oriente Médio. Quanta mais experiência reuniu?
Mas de sua ilha encantada jamais esqueceu.

    Será que ainda falam de Anacleto, Benedita, Costallat, Duclos, Eliziária, Feliciana, Guimarães Guedes, Hozi, Inácio – o sesmeiro, Juvenal, Lacerda, Manoel de Macedo, Nabuco, Olympio, o Príncipe, Quincas - o mestre, Thomaz, Uruguai - o Barão, Vicente, Xuxu, Zé-da-Costa e Werneck?

    Hoje nonagenário, solteirão, mas não só e ainda ativo, nunca foi vencido por um himeneu. Idoso mas não velho, troncho mas não desequilibrado, cãs espessas, olhos vivos e ariscos em face vincada, esquecido do presente mas não caduco, mente ainda fertilíssima, regressou. As recordações abundantes do passado e as saudades maiores trouxeram-no de volta à Ilha. Readquiriu a velha casa de frente para o mar de onde, outrora, tudo e todas admirava com a luneta que herdara do avô, herói da Marinha Imperial.

    Sentou-se na velha cadeira de vime, tomou a luneta com o couro já gasto e descolado e o amarelo azinhavrado e, já quase sem forças, pousou-a no colo. Acariciou a estrovenga, indispensável ferramenta às suas labutas e lutas das conquistas de outrora, sem mais quase o que notar ao tato, e lembrou-se de quase todas elas: Aneliza, Brigite, Carmencita, Dolore, Eneida, Florência, Gertrude, Hortência, Ines, Julia, Karla, Letícia, Margarida, Neide, Olga, Patrícia, Quirina, Rita, Solange, Thays, Ulla, Valquiria, Xuxa, Yone e Zazá. E quem mais?

    E com uma lágrima a correr-lhe pelo canto dos olhos orou: “Oh Senhor, Tu que já me levaste a força, por favor, levai-me o desejo também.”

Paquetá, 29 de abril de 2005


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O CEMITÉRIO MALDITO

Conto Assombroso e Assombrado do Roberto de Oliveira

Existe em S.Luiz, Maranhão, um local muito bonito, denominado Praça Deodoro, onde as pessoas se reúnem para comemorar dias festivos, passear, conversar, namorar... Aos sábados shows artísticos são apresentados por talentos da terra.
   
     No entanto, somente moradores do bairro sabem que antes era um cemitério, conhecido como maldito, por tantos casos assombrosos que lá aconteceram.
   
Esta  última morada, de tão amaldiçoada, não conseguia da Prefeitura, dinheiro para melhorar suas condições de funcionamento. Apenas um funcionário trabalhava  nesse local, onde vivia em tempo integral. Chamava-se Furibundo. Sobrenome desconhecido.
   
Na verdade, classificá-lo como cemitério, era ter muita boa vontade, pois, tratava-se de um terreno baldio, cercado por um muro alto todo esburacado e pichado nos poucos pedaços que ainda resistiam em pé.
   
Não havia qualquer tipo de cuidado com os mortos. Ali  eram enterradas pessoas desconhecidas e não reclamadas, mendigos e animais de todas as espécies. As covas não apresentavam qualquer identificação; apenas pequenos montes de terra denunciavam alguma coisa ali enterrada.
   
Furibundo não tinha conforto algum, devido às ausências de: capela, onde pudessem velar os mortos, banheiro, quarto de dormir, etc. Já diziam que ele não tomava banho há  anos. Sua roupa confirmava essa impressão, pois, nunca tinha sido visto com outra - um macacão sujo, fedorento e todo rasgado. Seu cabelo embaraçava-se com a barba longa e o farto bigode. Raramente era visto sorrindo, porém, quando o fazia, deixava à mostra um único dente, tão amarelo quanto grande. Talvez devido à sua feiúra, as aberrações que lá aconteciam não o afetavam. De dia, poucos se aventuravam a passar próximo ao muro alto que circundava o terreno. Agora, de noite, ninguém ousava fazê-lo e até os mais corajosos mantinham apreciável distância. Entrar, então, jamais alguém o fizera. O local de fato, causava medo e terror devido ao seu aspecto funesto.
   
Os mortos, fossem pessoas ou animais, eram largados em frente ao grande portão de madeira deteriorada pelo tempo.Furibundo os arrastava amarrados a uma corda. Fazia um buraco na terra e os jogava dentro. Diziam que quando o defunto era fresco, ele se alimentava de seus pedaços, os quais prendia em espetos, para  depois assá-los  numa pequena fogueira improvisada no chão, sobre uns tijolos arrancados do muro . No próprio terreno, madeira havia em abundância. Tocos de árvores cortadas forneciam material inesgotável às fogueiras.
   
Mesmo sem haver qualquer tipo de construção dentro do cemitério, quem olhasse pelos buracos do muro ou pelo velho portão de madeira, dificilmente conseguia ver Furibundo, que se refugiava sempre atrás das árvores . Contam que no dia dois de novembro - não se sabe de que ano - “Dia dos Mortos “- fazendo parte  das comemorações sentimentais  desse dia, organizou-se uma procissão com os fiéis da paróquia local. O desfile, por conta de problemas surgidos à última hora, teve início tarde da noite, sendo a rua onde se situava o cemitério maldito local obrigatório de passagem pelo cortejo.
   
Próximo da meia noite, quando os religiosos passavam por esse ponto, ouviu-se um grito desesperado de dentro do cemitério, seguido de gemidos e choros angustiantes. Foi o fim da procissão. O que se viu daí em diante foram cenas que mais se assemelhavam a um balé macabro, recheadas de dramáticas atitudes dignas de um pastelão cinematográfico.
   
Os sectários daquele culto corriam para todos os lados, acontecendo inevitáveis esbarrões. Os sacerdotes que deviam manter  a calma foram os primeiros a entrar em pânico. Imagens de santa, castiçais e velas eram arremessados para o alto, causando ferimentos nos fiéis e causando tropeções estrambólicos. Não sobrou um único valente para contar o que estava acontecendo. Padre Zézinho, conhecido por sua extrema bondade, na sua desembestada carreira gritava para os seus paroquianos- “saiam da frente seus babacas”. Sua fé não impediu que ele se mijasse todo e muito menos que a batina enrolada às pernas o atrapalhasse na fuga vertiginosa.
   
Somente no dia seguinte, à luz do sol, os que não participaram da procissão, voltaram para recolher os objetos destroçados. Pouca coisa pôde ser salva. O prejuízo foi enorme, porém, o pior foi o pavor que todos passaram a sentir. Os moradores das proximidades começaram a debandar, colocando à venda, a preço de banana, suas mansões e apartamentos.
   
Sabedores do acontecido, ninguém se aventurava a adquirir essas  moradias. O quarteirão ficou totalmente deserto, em completo abandono. Nessas horas os boatos se avolumam. Por conta da imaginação de cada um, falava-se até em fim do mundo. Os mais fanáticos apregoavam o apocalipse, com o ressurgimento dos mortos. Outros imaginavam seres de outro planeta concentrados naquele local, prontos para atacar a qualquer momento. Houve até gente que jurava ter visto criaturas enormes e horríveis brotando da terra, abocanhando cadáveres em disputa com outros da mesma espécie. Enfim, cada qual criava o que pensava ser, variando de acordo com o grau de ignorância.
    Naturalmente essa histeria coletiva ultrapassou os limites do bairro, chegando aos ouvidos do Prefeito, que ordenou providências imediatas, no sentido de se esclarecer o mistério e, de forma definitiva, dar fim àquela neurose absurda. Delegados, comissários e detetives, reforçados pela polícia militar foram indicados para resolver o caso. Próximo da meia-noite todos estavam todos estrategicamente distribuídos no ponto onde foi ouvido o grito pela primeira vez.
   
Com precisão matemática, exatamente no badalar do início da madrugada, um grito estridente cortou o silêncio da noite, seguido de gemeria assustadora.
   
O primeiro a sair correndo foi o delegado que se fez acompanhar dos auxiliares, O pavor estava estampado nos rostos e nos cabelos totalmente eriçados. A munição foi toda desperdiçada em tiros para todos os lados. Felizmente ninguém saiu ferido.
   
Outros grupos, com o mesmo objetivo, foram formados e tiveram o mesmo comportamento. O Prefeito, desesperado, não sabia mais o que fazer. Prêmios eram oferecidos mas ninguém aceitava  aquela incumbência. Pouco a pouco a influência maligna foi se estendendo aos outros quarteirões - parecia um panorama de guerra como está acontecendo em Kosovo. Praticamente o bairro todo que envolvia o local sinistro estava deserto.
   
As autoridades, diante do impasse, passaram a encarar o problema  como de âmbito nacional. Os meios de que dispunham eram insuficientes. Urgiam providências que transcendiam os recursos do estado.
   
O pedido de socorro se fez premente e foi encaminhado ao Rio de Janeiro, em particular à Marinha do Brasil. O Almirante Longo foi indicado para estudar e dar uma solução ao imbróglio macabro. Visando projetar o bom nome da Marinha no cenário político nacional e, quem sabe, talvez até internacional, destinou essa difícil missão àqueles em quem mais confiava - colegas da turma Elmo.
   
O êxito da tarefa poderia resultar numa promoção. Sem pestanejar, convidou o Comandante Roberto de Oliveira, conhecido no Corpo de Fuzileiros Navais como ninja, para almoçar na unidade que comandava, o Oitavo Distrito Naval. E, num tom bastante preocupado, alinhavou toda a situação, acrescentando: 
    - Roberto, confio em você. Disponha de todo o pessoal da nossa turma nos termos de intimação obrigatória e de todo o material de que necessitar. Infelizmente o prazo é curto - uma semana. Conto com você, concluiu o Almirante.
   
Roberto, astuto estrategista, não precisou de mais que duas horas para traçar os planos e o “modus faciendi”. Os fatores surpresa, rápida ação, coragem e inteligência delineavam seu planejamento.
   
O próximo passo foi convocar os seguintes colegas: 
        Seabra, Masferrer, Ventura, Poeck e Brotto para preencherem os buracos do muro no cemitério com suas caras; ao mesmo tempo que servissem de observadores, assustariam qualquer coisa  que pudesse enxergá-los;
   
     Netto dos Reys, Carneiro, Ageu e Seidel, prontos para o sacrifício, ficariam sobre uma plataforma e servidos como repasto copioso ao monstro faminto;
   
     Gilberto, Bertola, Chico e Belfort, por serem - digamos tão safos! - para não falar outra coisa, senão será censurado, para causar pena ao perigo desconhecido;
        Antônio Canibal para uma possível disputa carnívora; 
        Gil, como assessor do Roberto; 
        no setor logístico, Treuffar, Tângari, Brasileiro, Basílio e Eiser, que, além de proverem a ação com os meios necessários, teriam a missão de fiscalizar um ao outro para evitar possíveis desvios de material;
        Rosauro, como relações públicas, faria o elo de contato com as autoridades locais. Mestre verborrágico, naturalmente conseguiria ludibriar os circunstantes, caso houvesse insucesso no compromisso ora assumido pela turma; e
   
     Ney, Silva Filho, Geraldo e Quintaes completariam o grupo. A eles ficaria reservada a tarefa de manter curiosos afastados. Com suas conversas chatas, enfadonhas, antipáticas e vazias, dificilmente alguém ousaria permanecer no Teatro considerado de batalha.
   
Com pouco mais de  24 horas, todos ocupavam seus assentos num avião fretado pela Marinha, que aterrissaria no aeroporto do  Maranhão.
   
Contando com todos os apetrechos solicitados, a equipe, de pronto, iniciou os trabalhos. Idealizados por Roberto de Oliveira, destacadamente, o mais inteligente, foram  cravados postes ao redor do cemitério, com possantes holofotes. Ao simples ato do acionamento de um único interruptor, toda a área seria iluminada. Esse trabalho estava afeto ao assessor Gil. Todavia, houve quem duvidasse do seu desempenho. Era comum, nos grupos formados, a pergunta: “Será que ele vai saber ligar o interruptor?”
    O sistema de iluminação fora projetado com perfeição. A distribuição perimetral dos refletores não permitiria que qualquer ponto dentro do terreno amaldiçoado ficasse escuro. Era chegado o momento!
    Masferrer, Seabra, Ventura Poeck e Brotto emolduravam o muro com suas caras horrendas e amarfanhadas. O resto da turma pensou “coitadas das criaturas sinistras”.

   
Rosauro, Ney, Silva Filho, Geraldo e Quintaes tremiam de medo, ao mesmo tempo que discutiam se haveria compensação financeira em caso de êxito.
   
Gilberto, Bertola, Chico e Belfort alimentavam a ilusão de que alguém pudesse sentir a falta deles. Gilberto estava convicto de que, independente do resultado, iria se recolher a um dos buracos do cemitério, devido ao seu precário estado de  saúde.
   
Netto dos Reys, Carneiro, Ageu e Seidel pensavam: ”Não podíamos imaginar que acabaríamos desta maneira tão triste. Pelo menos ficaremos livres das chatas reuniões da turma Elmo”.
   
Antônio da Silva olhava para o Roberto e pensava: “Ah! Se eu fosse como ele!
   
Treuffar, mais afastado, dentro de um carro, com o motor ligado, pronto para pedir ajuda, caso fosse necessário.
   
Tângari, Brasileiro, Basílio e Eiser, cada qual mantinha sobre a cabeça uma panela de água benta para despejar por cima do muro quando se deparassem com O Mal.
   
O mais calmo e sensato era, com certeza o Roberto, pronto para desvendar o mistério que tanto afligia uma cidade inteira.
   
Pontualmente, à meia-noite, ouviu-se o primeiro grito, ao qual se juntaram, em uníssono terror, os gritos dos envolvidos. Ao berro vindo do cemitério se seguiram ritmados gemidos que denotavam grande dor.
   
A um sinal do Roberto, Gil, com muita dificuldade e completamente trêmulo, acionou o dispositivo de iluminação, ao mesmo tempo em que a água benta era despejada em todas as direções.
   
Nesse momento, com toda a área iluminada, os membros da equipe ficaram estarrecidos com o que viram.
   
Realmente era inacreditável. Furibundo, sem calças, junto a um toco de árvore tentava fazer cocô. Com uma hemorróida crônica que mais parecia uma couve-flor e, sofrendo barbaramente de séria prisão de ventre, o simples ato de cagar lhe torturava a ponto de soltar gritos apavorantes. De nada adiantava educar o intestino, tentando cagar sempre à mesma hora- meia-noite.
   
Todos foram agraciados com a comenda de Honra ao Mérito pelo Estado do Maranhão - Longo, promovido a Almirante-de-Esquadra e Comandante da Marinha.
   
Furibundo foi internado numa clínica proctológica especializada e, no lugar do cemitério foi construída uma bela praça.
   
Infelizmente, as reuniões da turma Elmo continuam - não foi dessa vez que ficamos livres de certos colegas “safos”.


Penedo

            By She, cronista exclusiva do Elmo Notícias

   A noite agradável, ainda que escura, convidava para um passeio pelas redondezas. Deixamos o hotel para uma caminhada pela Avenida das Mangabeiras, o eixo principal de Penedo, e não tardou para que eles começassem a aparecer. Em cada cerca, lá estavam aqueles seres fantásticos, duendes, fadas, elfos e gnomos, com seus olhares galhofeiros, risos insinuantes e piscadelas duvidosas, mas de inquestionável simpatia. Parecia que toda a legião se reunira para dar as boas-vindas à equipe precussora da Turma Elmo e demonstrar sua expectativa pela reunião de outubro próximo. Afinal, seria um encontro anunciado há séculos, das mais estranhas criaturas do Universo.
    Encravado na Serra da Mantiqueira, numa altitude de 600 m, entre rios e montanhas que lhe garantem um clima fresco, está Penedo - pedra, na lígua dos índios. Foi aqui que pelos idos de 1929 se estabeleceu um núcleo de imigrantes finlandeses, fugitivos do frio escandinavo em busca de um paraiso tropical onde pudessem levar sua vida de vegetarianos durante todo o ano, ao ar livre e sob o Sol dos trópicos. Trouxeram sua cultura e o costume da sauna, coim efeitos relaxantes e desintoxicantes que, depois, se estendeu por todo o Brasil.
    Penedo é essencialmente para o turismo. Mas, de acordo com suas características, não poderia faltar o produto de seus artesãos, artistas da tapeçaria, como a nacionalmente famosa Eila, da criação de objetos feitos de buchas, de velas perfumadas e coloridas, alem de doces e geléias, mel e o famoso chutney de manga, usado como molho de muitas iguarias.
    A comunidade preserva a cidade de crescer, mantendo a tranquilidade de sua rotina. São apenas três orelhões, uma banca de jornais e uma padaria atendendo à população. Serviços médicos e o comércio em geral ficam nos municípios vizinhos, Resende e Itatiaia.
    Nas proximidades dos points noturnos, a casa do Chocolate, o Bar do Fritz e o Sorvete Finlandês, desfilam BMWs, Mercedes e até mesmo um inusitado Mustang conversível. É o programa que se segue ao jantar, as pizzas e massas do forno de lenha do Costa, na Rua das Velas, ou a picanha do Gordo, servida com música ao vivo, ou a truta, prato mais oferecido na região. Grelhadas, na manteiga, à belle meuniére, cozidas, em patês, em pizzas, imagine uma forma e lá estará a sua truta. Para lanches rápidos, existe a opção dos sanduíches - finlandeses, é claro.
    Para percorrer a cidade e ouvir suas histórias, embarque no Plim-Plim, um trenzinho para seis passageiros que tem no condutor um guia bastante tagarela. Para saber ainda mais, visite o Museu Finlandês da Dona Eva, destinada a preservar a memória dos primeiros imigrantes; no prédio ao lado funciona o Clube Finlândia, onde nas noites de sábados, são exibidas danças típicas, como mazurcas, polcas e o jenkhos. Os mais joves certamente curtirão uma cavalgada num manga-larga marchador, aventurando-se por trilhas que margeiam lagos e brejos.
    Onde quer que se reuna a Turma Elmo, lá estarão a alegria e a camaradagem. Penedo, por suas particularidades, pareceu uma alternativa bastante atraente para um próximo encontro; afinal, duendes, fadas, elfos e gnomos nos esperam há séculos, as mais estranhas criaturas do Universo...

[Publicado no Elmo Notícias - Ano 8, nº 32. agosto de 1997

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