Nossos Artistas

Romances & Memórias
 
Annibal - João Cândido
Annibal - Nos Bastidores da Torcida
Barroso - Inverno de 2004
Barroso - Inverno de 2005
Boavista - Perigoso Agente Secreto
Brandão - A Mala Marrom
Gilberto Pereira - Nasce a Turma Elmo
Monteiro - Memórias do Último Governador Militar de Fernando de Noronha
Roberto de Oliveira - Quem Matou Nicanor?


JOÃO CÂNDIDO

Conto saudosista do Annibal


    João Cândido, da mesma forma que seu homônimo responsável pela Revolta da Chibata, era um marujo como tantos outros. Além do nome e da profissão em comum, esse João, que bem conheci, também levou suas chibatadas, mas nem por isso entrou para a História. Quando muito, será recordado por uns poucos que lerem esta narrativa e que com ele também conviveram. O chicote que o atingiu não deixou marcas na pele; era um chicote como que virtual, brandido pela vida e pelas circunstâncias, por mãos severas, talvez por demais severas. As marcas em João Cândido, só Deus sabe o quanto e onde ficaram gravadas.
    O João de que falo teve sorte no início de sua carreira. Saído da escola de aprendizes, embarcou como grumete em um navio relativamente novo, eficiente, e - isso é importante - um navio muito feliz. Essa felicidade existia, logicamente, em função do permanente estado de espírito então existente no seio de sua tripulação. Trabalhavam em um ambiente onde a disciplina e a camaradagem transitavam facilmente pelos conveses, habitavam as cobertas e conviviam mesmo nos porões. Era assim como uma espécie de grande família, só que unida pelo acaso, se é que o acaso acontece. Podia existir até mesmo uma ou outra ovelha negra, como, aliás, costuma acontecer em qualquer boa família, mas nada que impedisse viver as rotinas e fainas do dia-a-dia com a alma em festa. Na verdade, tudo isto não implica em dizer que aquele navio era uma exceção. Creio mesmo que, graças a Deus, as exceções sempre ficaram com os exemplos ao contrário. Talvez fôssemos apenas um pouquinho mais descontraídos e perseguíssemos com maior empenho o lema de "alegria no porto e eficiência no mar".
    Lembro-me perfeitamente da figura de Cândido (esse era seu nome de guerra) chegando entre outros quatro ou cinco grumetes da mesma turma, quando de sua apresentação a bordo. Vejo-o subindo a prancha, jeito assustado, naturalmente perplexo ante a rápida evolução dos fatos que o traziam em curto espaço de tempo do interior da Bahia para o Cais Norte do Arsenal, onde as linhas de navios a contrabordo balouçavam em um misto de labirinto e pista de obstáculos. Um metro e sessenta centímetros de altura aproximadamente, corpo magro, mulato de cabelos crespos, rosto redondo marcado pelas bexigas e cortado por um sorriso largo, onde sobressaiam dentes grandes e amarelados. Um sorriso que seria, até onde me lembro, uma de suas marcas registradas. O caxangá novo de tamanho exagerado, a cobrir-lhe a cabeça até as orelhas, e o saco de viagem jogado sobre as costas, completavam a figura, a mais antiga que dele restou em minha memória, retratando-o naquele dia em que o recebi na tolda.
    Se havia alguma natural insegurança daquele marujo ao iniciar sua carreira naval, vinha ela acompanhada de uma intensa curiosidade sobre tudo que dissesse respeito ao navio, e satisfazer aquela curiosidade tornou-se para ele um motivo de contínua atividade. Quis a sorte que ele fosse designado para a minha divisão onde, rapidamente, passou a sentir-se à vontade, como se ali tivesse vivido toda sua vida. Em primeiro lugar, por sua imensa facilidade em fazer amigos; em segundo, porque, sendo a divisão de reparos, esta lhe dava ampla oportunidade para o desenvolvimento de seus dotes naturais na lida com todo aquele extenso leque de atividades técnicas. Designado inicialmente para o grupo da aguada, logo se familiarizou com os tantos tanques, redes, válvulas e bombas existentes, bem como com as manobras envolvidas. E de tanto se embarafustar pelos porões, ainda que por pura curiosidade, tornou-se, da mesma forma, íntimo dos demais sistemas e redes. Transcorrido pouco mais de um ano, já então promovido a marinheiro de segunda classe, revelava-se também um excelente artífice, manejando com desenvoltura o torno mecânico, a solda elétrica e o maçarico. Tornou-se, assim, uma espécie de curinga, encaixando-se nas fainas especiais ou em quaisquer outras de rotina, conforme lhe fosse determinado, ou mesmo como voluntário, pelo simples prazer de participar. Dos mais antigos e experientes ia então absorvendo conhecimentos que as mãos hábeis e a inteligência viva transformavam em trabalho útil e de qualidade.
    Não seria necessário dizer que João Cândido conquistou merecidamente um lugar de cochado do encarregado da divisão, do chefe de máquinas e, ao final das contas, de praticamente todos os mais antigos a bordo. E só não havia unanimidade entre as praças porque havia naturalmente alguns casos de inveja, via de regra, gerada pela menor competência do invejoso. Na verdade, para ser justo, não posso afirmar que Cândido fosse um marujo padrão em todos os sentidos. Da mesma forma que a maioria de seus companheiros, também tinha aquele dia em que, por esse ou aquele motivo, aparecia na parada com a barba por fazer, ou na formatura de licenciados com o uniforme um tanto amarfanhado, nada porém que não ficasse resolvido com uma pequena reprimenda, acompanhada de um prazo razoável para as devidas correções. Lembro-me em especial de uma ocasião que encontrei-o na formatura de licenciados em atitude um tanto estranha. Os colegas próximos mal podiam conter o riso, enquanto ele, como que se escondendo na terceira fileira, mais sério do que lhe era próprio, tinha no rosto aquela expressão suspeita de quem tenta ocultar alguma coisa. Não foi necessário muito esforço para que se descobrisse o problema: os sapatos de João Cândido estavam em estado verdadeiramente lastimável; e quando lhe foi ordenado que saísse de formatura, deixaram carimbadas no convés duas manchas pretas e viscosas de óleo. Entre os risos então incontidos, seguiu-se a explicação dos fatos: o marujo, convocado repentinamente para uma faina de limpeza no porão, esquecera de trocar os sapatos. Naquele dia, Cândido não baixou terra na primeira licença, mas não deixou de fazê-lo na segunda, após o intendente, de quem também era cochado, conseguir-lhe no paiol de fardamento um par de sapatos novos.
    Também entre a guarnição aquele marujo era muito estimado. De outra feita, um reconhecido "vida-torta" aprontou das suas e pôs nele a culpa. Não me recordo agora quais foram exatamente os fatos, mas era coisa séria, assunto de serviço. Cândido resolveu fazer seu acerto de contas ali mesmo, cobertas abaixo, com apoio unânime de todos os presentes, deixando o adversário com algumas equimoses. Ao tomar conhecimento do ocorrido pelo relato informal de um cabo-velho que se divertira com o fato, vi-me na contingência de tomar as providências legais pertinentes. Recebi porém tal volume de intervenções em favor de João Cândido que resolvi aguardar que a "vítima" se manifestasse primeiro; e como não o fez, para felicidade de todos, deixei o assunto ser esquecido. Cumpre considerar, nesta oportunidade, que tal tipo de "justiça" cobertas abaixo era naturalmente uma exceção. Contudo, em situações especiais, se contrariava o aspecto legal, deixava, em compensação, o moral da guarnição mais elevado...
    E a vida a bordo prosseguia em sua rotina, inclusive com as inevitáveis mudanças de pessoal. Também desembarquei, tempos depois, bem me lembro, em um tórrido dia de dezembro, entre o Natal e o Ano Novo. Cursos e novas comissões se sucederam, até que, ao ser designado para uma delas, julguei da conveniência de levar comigo João Cândido para prestar sua colaboração. Do antigo marujo, eu nada sabia agora. Imaginei-o já especializado, talvez promovido a sargento. Na verdade, eu necessitava de alguém com aquelas características de "curinga", certamente já bem mais experiente e pronto a assumir umas tantas fainas que eu teria para lhe confiar. Saber o paradeiro de Cândido não foi, porém, tarefa das mais fáceis. Para minha surpresa, vim a descobrir que o marujo havia sido desligado do serviço ativo, por motivos disciplinares, cerca de dois anos após a minha saída do navio.
    A continuação desta estória, a partir deste ponto, já não conta com o meu testemunho pessoal. Obtive-a em partes não muito precisas, de uns poucos que puderam recordá-las. Muitos dos detalhes que me foram então narrados deixo agora de lado, por não dizerem respeito diretamente a João Cândido. Considero porém conveniente citar alguns fatos que permitam ao leitor visualizar o ambiente em que se passaram.
    As mudanças de pessoal ocorridas a bordo haviam incluído uma passagem de comando e, a partir daí, alterou-se radicalmente o antigo espírito então reinante no navio. O rigor disciplinar foi levado a extremos, gerando medo e insegurança. Os extremados, os radicais, inimigos naturais do bom senso, sempre trouxeram mais problemas que soluções. E assim, a rotina diária veio a perder o encanto, fecharam-se os sorrisos, as fainas se tornaram pesadas, o navio entristeceu. Perderam-se as alegrias no porto, desvaneceu-se a eficiência no mar. Contam que enquanto alguns procuravam motivos para ausentarem-se de bordo "a serviço", como recurso para alívio das pressões reinantes, outros optavam por desaparecer pelas entranhas do navio. Aparecer era sempre um fator de risco... Mas talvez o fato mais significativo então ocorrido tenha sido, segundo consta, um certo brinde levantado em "comemoração" ao grave mal súbito de que fora repentinamente acometido o responsável por tantos dissabores...
    A esta altura, porém, João Cândido já tivera seu destino traçado. Em meio a tantas pressões, resolvera ele se apaixonar. Creio que sua eleita morava lá pelos lados da Baixada Fluminense, onde residia um amigo mais chegado que o recebia para os fins-de-semana. E se a vida a bordo já não oferecia a paz necessária, em compensação, o repouso nos braços da amada, por certo, em muito superava suas expectativas de felicidade. Na verdade, não creio que seu dia-a-dia a bordo tenha sofrido grandes alterações. O trabalho sempre lhe fora motivo de prazer, e bastariam alguns cuidados a mais para sobreviver incólume à tempestade ali reinante; e teria sobrevivido, como outros bem o souberam fazer, não fosse a angústia que se seguiu à paixão. Não sei por quanto tempo durara aquela felicidade do marujo em terra, mas o fato é que acabou sendo traído e abandonado pela namorada, perdendo-se profundamente nessa nova tormenta.
    Não quero considerar aqui se João Cândido foi um forte ou um fraco. Naufragou, é verdade, em dupla tempestade, açoitado pelo vento repentino da desilusão afetiva, em momento em que estava longe de um porto seguro. Não encontrou mãos que lhe lançassem um salva-vidas, até porque, todas as mãos a bordo deveriam estar mais preocupadas em remar pela própria sobrevivência. E o marujo, abandonado à própria sorte, seguiu à deriva, incidindo no velho engano de procurar no fundo do copo a balsa salvadora que jamais o manteria à superfície. Procuro imaginá-lo naquela sua derradeira audiência disciplinar, perfilado com a mão direita colada à coxa, o caxangá apoiado sobre a mão esquerda espalmada, os olhos baixos, humildes, como num pedido não pronunciado de desculpas, o coração magoado. Mas não é fácil vê-lo assim; a cena é incompatível com minhas memórias.
    Por onde andará agora João Cândido? Sua saga deve ter naturalmente continuado por aí, longe de nossa vista. Espero que, em sua deriva, possa ele ter chegado a alguma praia abrigada e lá, ao menos, encontrado um novo amor, de mãos tão hábeis quanto as suas, capazes de pensar-lhe as feridas que restaram. Seria um bom epílogo para sua história, até agora tão desprovida de heróis ou vencedores; e uma história só de perdedores sempre dá o que pensar. Ao menos, para que, alhures, não venha a ser reescrita.


 Nos Bastidores da Torcida

Anníbal (amorfo assumido) conta como marcou um golaço


    Mas, ter a Miss Brasil apenas como madrinha da nossa torcida lá no Maracananzinho não bastava. Era necessário mostrá-la a todos, colocá-la em evidência e, assim, tripudiar sobre a torcida adversária. Para isso, nada melhor que uma entrada apoteótica, com o estádio às escuras e os refletores dando destaque à nossa Miss, em toda sua elegância e beleza. Fácil de imaginar, mas difícil de executar. Obter uma autorização oficial para isso estava totalmente fora de cogitação, restando-nos apenas apelar para uma operação surpresa, naturalmente clandestina.

    A tarefa ficou sob a responsabilidade do Grêmio de Rádio, que congregava um grupo de aspirantes mais chegados às aventuras pela área tecnológica. A primeira providência consistiu em visitar as instalações do estádio para estudo da área, suas possibilidades e limitações. Logo verificamos ser imprescindível a colaboração dos funcionários locais, particularmente os eletricistas que operavam os dois canhões de luz a arco-voltaico e o encarregado da estação de força. Nada, porém, que uma boa conversa e uma pequena gorjeta não resolvesse...

    Nosso planejamento previa uma rede de comunicações interiores interligando os canhões de luz, a casa de força no subsolo e o local por onde a Miss deveria chegar à arquibancada. A tecnologia da época deixava-nos, como única opção, estabelecer um circuito de telefones auto-excitados, com os quais já havíamos adquirido intimidade nas viagens de instrução. Mas a EN não dispunha desses telefones, e foi necessário que um oficial do Corpo de Aspirantes os obtivesse particularmente por empréstimo com um colega seu do Cruzador Barroso. Fui buscá-los a bordo e recebi-os das mãos do então Capitão-Tenente Bernard David Blower, acompanhados de uma série de recomendações quanto aos cuidados que deveríamos ter com o equipamento. Ele não poderia adivinhar que, ao chegar à Escola, a primeira providência seria cortar fora os punhos dos cabos, para permitir mais fácilmente a conexão dos aparelhos à nossa rede...  Evidentemente, os punhos foram devidamente ressoldados antes da devolução.

    Na hora do evento, tudo correu exatamente como planejado. À chegada da Miss Brasil e sua escolta de aspirantes foi dado o sinal e, no subsolo do estádio, botei a baixo os disjuntores do circuito de iluminação, enquanto os canhões de luz davam destaque ao seu alvo. Seriam apenas alguns segundos, que se tornaram um pouco mais longos do que o planejado porque eu havia saído do meu posto no subsolo para ver o efeito da nossa aventura. Voltei correndo, atendendo aos gritos do eletricista de plantão que já estava sendo chamado pelo telefone para explicar a ocorrência.

    Na verdade, não lembro agora que ganhou o jogo mas, na guerra das torcidas, a vitória sem dúvida foi nossa. Houve alguns protestos por parte dos organizadores dos jogos, mas não chegaram a nós.


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INVERNO DE 2004

Barroso narra uma visita sentimental à suas origens


    Tendo mudado de Passa-Quatro, pequena cidade do sul de Minas Gerais, situada na Serra da Mantiqueira, no início da década dos anos 50 do século passado, voltei, quando ainda jovem, várias vezes ao meu rincão natal. Todavia, ao transferir-me para o Rio de Janeiro, em 1957, depois de ter morado durante 4 anos em Taubaté, no Estado de São Paulo, poucas vezes a visitei.
    Lembro-me que nessas oportunidades, servia-me do transporte ferroviário, muito comum naquela época e que tinha um encanto especial. O circuito Rio, São Paulo, sul de Minas até São Lourenço, era coberto pelas linhas de trem. As estações da estrada de ferro viviam o seu apogeu de movimento e o povo nelas regurgitava, quando o trem ali parava.
    Quando chegava a Passa Quatro, tomava uma charrete no pátio da estação e ia para a fazenda do meu avô Arthur, a “Fazendinha”. Nela, junto com meus primos, principalmente o “Tutuca”, meu amigo mais chegado, passava umas férias muito boas. Seus pais, tios Tonico e Ritinha, meu avô, “Babá” - minha tia avó - e toda a família me tratavam muito bem. Bebia leite de vaca tirado na hora, brincava nos pastos, no pomar, no grande pátio da casa grande, jogava futebol e à noite, após o jantar, invariavelmente, ia a pé até a cidade. Lá, encontrava-me com outros conhecidos e algumas vezes ia ao cinema local. O Cine Regnier, bela casa de espetáculos, foi construída pelo francês de mesmo nome, que encantando-se com a cidade nela permanecera, construindo não só o cinema, como também um hotel, próximo da Estação da Estrada de Ferro.
Essas reminiscências me vêm a mente, porque neste inverno de 2004 resolvi retornar a Passa Quatro, como fiz na mesma época no ano passado, e pretendo repetir cada ano daqui para frente, depois de mais de uma década sem lá ir, e rever mais pormenorizadamente, as paisagens de minha infância e com elas tia Conceição a irmã mais moça de minha mãe Iracema, a última que permanece viva, de todos os seus irmãos e irmãs. Ela representa para mim o elo final de uma história familiar que engloba muitos acontecimentos e relacionamentos e que está chegando ao seu final, pois minha tia “Ceição”, como é, carinhosamente, chamada por todos, tem hoje já 84 anos de idade.
    Como Marcel Proust, parece que estou também numa fase de “em busca do tempo perdido”, fase essa em que aproximando-me já dos 70 anos vislumbro no horizonte nebuloso, porém não distante, a etapa final dos meus dias.
    Assim, numa quinta feira de julho, dia 8, junto com minha prima Gláucia Miriam, filha dos tios Joaquim e Guilhermina, parti de carro, do Rio de Janeiro, as 12:00 horas, rumo ao sul de Minas. O roteiro incluía Itajubá, Passa Quatro e também Cruzeiro/SP.
    Em Itajubá iríamos visitar nossa prima, a freira Irmã Maria Alice, filha dos tios Dr. Castro e Elisa, de nome Niza, antes de entrar para o Convento. Lá chegamos as 18:00 horas, depois de percorrer 438 km de estrada, com uma parada em Rezende, onde almoçamos.
    Dessa minha prima, tinha uma recordação muito terna, pois guardo comigo até os dias de hoje, uns santinhos com dedicatórias carinhosas suas, datados de 1937, 1944 e 1947, quando ela era ainda muito jovem (levei comigo essas lembranças e as mostrei para ela) . Recentemente, ela havia tido um derrame, e a visita era motivada por esse fato e também pelo afeto que lhe dedico, embora, conscientemente, essa seria a segunda vez que a veria em toda a minha vida.
    Fomos, eu e Gláucia muito bem recebidos pelas freiras e com elas jantamos naquela noite. Ali revimos até algumas delas dos tempos de Passa Quatro, quando controlavam o Colégio Nossa Senhora Aparecida, onde minhas irmãs estudaram, uma delas, a Irmã Emiliana , ainda do tempo que freqüentei esse educandário (com 5/6 anos de idade). Conversamos bastante com Niza, numa sala reservada, rememorando figuras e fatos da família. Ela se encontrava em processo de recuperação, mas me pareceu muito bem, mantendo perfeitamente sob controle seus processos mecânicos e mentais. Ela agradeceu muito nossa visita, compreendendo que tínhamos feito um certo esforço para isso, embora eu e Gláucia tenhamos realizado essa viagem, voluntariamente e pela satisfação de revê-la. Às 20:00 horas nos despedimos, abraçando-nos e nos retiramos do Convento, dirigindo-nos então para Passa Quatro, onde chegamos as 23:00 horas.
    Enfim estava em Passa Quatro, minha terra natal!
    Ninguém foge às suas raízes. Parece que algo nos prende ao nosso chão primeiro.
    A noite estava fria e, aceitando o gentil convite de Gláucia, pernoitei em sua casa. Essa casa me traz recordações. Tio Joaquim ia ao cinema diariamente e aos domingos freqüentava a igreja do Colégio Nossa Senhora Aparecida, que ficava na avenida Cel. Ribeiro Pereira, local mais próximo de sua residência. Tia Guilhermina era muito doce e a casa onde eles moravam era algo encantado para mim. Lembro-me de uma vez, um domingo, com muita vontade de ir ao cinema, mas sem um tostão no bolso, enchi uma cesta de verdura, apanhada na horta de minha casa e fui “presentear” tia Guilhermina. Ela, muito bondosa e perspicaz, agradeceu a “gentileza” e deu-me em troca algumas moedas que aceitei prontamente e que me propiciaram a ida tão sonhada ao cinema naquele dia...
    Dormi muito bem e no dia seguinte, após o café da manhã, enquanto Gláucia providenciava algumas tarefas caseiras, resolvi sair, a pé, pela cidade e rever alguns sítios.
    Dirigi-me, primeiramente, à avenida Cel. Ribeiro Pereira, em cujo número 1 havia morado há mais de meio século e pisei a calçada, ainda cimentada, da Santa Casa e do Colégio Nossa Senhora Aparecida, de onde caminhei em direção à rua do Vinagre. Em frente ao colégio, parei para olhar uma das portas de entrada, onde do lado de fora, sentado numa espécie de banco de pedra, eu ficava horas esperando que a freira responsável assinasse o livro que meu pai, Oswaldo, inspetor escolar federal, me encarregava de entregar, periodicamente para tal procedimento. Quem me atendia sempre e apanhava o livro era uma senhora chamada D. Elisa. Seus cabelos eram grisalhos e enrolados em tranças grossas pela parte superior e posterior da cabeça. Era muito educada, silenciosa, mas me deixava sempre do lado de fora da tal porta...
    Pela rua do Vinagre caminhei, observando as casas. A mais bonita, junto ao muro do colégio, pertencia aos Borges, uma família de portugueses ricos que trabalhavam com fumo, na época áurea desse produto, na primeira metade do século vinte. Nas demais, recordei a casa do José Orlando, casado com uma antiga empregada negra da fazenda do meu avô e cujo filho, o Oswaldão, esteve na guerrilha do Araguaia, onde morreu nas mãos do pessoal do Exército. Em minhas andanças pelo Pará, por desígnios de Deus, estive na década de 80 em Xambioá/GO e São Geraldo do Araguaia/PA, justamente onde tal fato aconteceu. O Oswaldão tinha sido meu amigo de infância, quando brincávamos juntos de cavalinho de pau e jogávamos futebol. Recordei também as casas do Francisco e do Gotardo, filhos de tia Inácia, que fora casada, em segundas núpcias, com meu bisavô Joaquim Tibúrcio Pinto., pai da minha avó Leonor.
    Retornando à avenida, nela caminhei, observando as casas e seguindo em direção ao seu final, até o rio. Passei pela casa do Pedro Primo, pai de Edinho e Carlos (este, já falecido, ainda muito moço), amigos de infância. Relembrei que esse era o caminho que fazia, diariamente, quando me dirigia ao Ginásio São Miguel, dos padres betharamistas, onde fiz todo o ginasial. Andando pela calçada, ia pensando que para mim, nesse momento, ele era, de certa forma, o verdadeiro Caminho de Santiago, famoso percurso europeu, percorrido pelos peregrinos, há mais de 1.000 anos, vindos do norte, do sul e do leste para alcançar Santiago de Compostela na Espanha, onde refletem sua existência e repensam suas vidas.
    Ao me aproximar do rio, lembrei-me, em especial de uma casa, uma bela casinha, com varanda em arco um tanto assimétrico, na qual, nos idos de 1951/52 foram lá morar dois jovens recém casados. A casa era pintada de rosa e o casal parecia muito feliz. Essa imagem me ficou gravada e foi com grande satisfação que a identifiquei, naturalmente, pela sua varanda de arco assimétrico...
    Já próximo ao final da rua e do rio, resolvi atravessar a ponte da Estrada de Ferro que conduz até o Ginásio São Miguel e pisando a estrada de chão, junto aos trilhos da ferrovia, fui me aproximando da escola. Cada passo me remetia ao passado, quando vestido de uniforme cáqui, de bicicleta ou a pé, freqüentava as aulas do curso ginasial.
    Esse não era o caminho original do meu trajeto diário, pois antigamente o caminho era mais afastado dos trilhos e a ponte era de madeira, para passagem de pedestres e veículos e que foi arrastada pelas águas, durante uma das enchentes que aconteceram em Passa Quatro. De qualquer forma, o caminho atual é muito semelhante ao de outras eras, onde eu transitava.
    Ao chegar às portas do colégio, dirigi-me ao campo de futebol, onde jogava as minhas partidas, geralmente aos sábados/domingos com meus colegas, dos quais, muito especialmente, me lembro do Joércio Grecca. Jogávamos ambos na defesa, pois éramos os dois “backs” do time.
    Olhei demoradamente o campo e estranhando a posição das traves, observei que o antigo campo não era esse que eu estava olhando, mas sim, o de traves mais velhas, transversal ao objeto de minha primeira olhada. Andei pelo campo, pisei sua grama, agora com pernas sessentonas, muito diferentes daquelas da minha adolescência do final do anos 40 e início dos anos 50...
    Fiquei em frente ao colégio e apreciei suas linhas arquitetônicas. Nada havia mudado, apenas agora, a sua frente, ao invés de bicicletas, existiam muitos carros.
    Abrindo a porta principal, entrei. Na ante sala olhei os quadros na parede, onde pude observar meu pai, inspetor escolar Oswaldo Barroso, datado de 1942, logo à direita. Girando a maçaneta da segunda porta que dá acesso ao corredor interno do prédio, vi vários quadros, de ambos os lados das paredes, com as fotografias de cada turma que se diplomou no ginásio do educandário, em anos sucessivos. O quadro dos formandos de 1952, o da minha turma, se encontra na parte superior da parede, logo à direita dessa última porta. Só consegui ler dois nomes, Célio Salles Brito e José Maria Dias, embora tenha podido ver, além do meu retrato, os dos demais colegas.
    Adentrando mais o colégio, observei as diversas salas da direção, onde ficavam os padres, e me dirigi até as salas de aula, onde há mais de 50 anos atrás eu havia estudado. Senti emoção ao olhar o pátio, agora gramado, as diversas salas de aulas onde tinha estudado História, com Padre Raul Meda, Geografia, com Padre Evaldo, Matemática, com Padre Francisco, Francês, com Padre Lino, Desenho e Música com Padre Angelelli e tantos outros. Reencontrei-me na pele daqueles jovens que estavam agora na mesma trilha que eu havia feito tantas décadas atrás...
    Saí, como entrei, e vagarosamente tomei o caminho de volta para a casa de Gláucia.
    O seminário dos padres, ao lado, estava agora desativado, aliás já  estava há muitos anos, e o mato tomava conta de sua entrada. Regressei pelo mesmo caminho, vendo o abandono dos trllhos e dormentes, agora cheios de mato. Logo à frente vi um senhor cortando esse mato, para dar aos seus cavalos.
    A chuva começou a cair fininha e a medida que o tempo passava ela engrossou. As gotas caindo no chão de terra se evaporavam e o cheiro da terra entrou forte nas minhas narinas. O tempo voltou para mim. Os ecos do passado, com lembranças de minha mãe, do meu pai de minhas irmãs, dos meus parentes avivaram-se fortemente na minha mente. Foi uma experiência algo dolorosa, mas ao mesmo tempo boa, necessária. Afinal o que eu estava esperando ao empreender tal viagem ao meu passado?
    A chuva enfim caiu forte e mesmo assim não aumentei os meus passos. Quis senti-la no meu corpo e fui caminhando, caminhando... Ao chegar na ladeira próxima a casa do Pedro Primo, subi em direção à Feira, bairro de Santa Terezinha e retornei então pela rua de cima, rumo à casa da prima Glaucia. Ali, no número 138, existe uma casa – o sonho de minha adolescência – com belos jardins e escadarias. Ela sempre me impressionou muito e talvez algum dia eu consiga visitá-la por dentro e matar a curiosidade do meu imaginário...
    Chegando à casa da prima resolvemos almoçar no restaurante da Pousada Morro Verde, nas Tronqueiras, próximo da antiga fazenda do Dr. Castro, hoje pertencente a sua filha e minha prima, Maria Ângela.
    Após o almoço, decidimos visitar a Fazendinha, hoje pertencente ao meu primo Geraldo, filho do tio Tonico, que no entanto lá não mora, residindo em Cruzeiro, onde é dentista. O caminho para lá, na margem direita do rio Passa Quatro, antigamente ladeado de árvores, encontra-se hoje todo construído de casas, o que tirou muito do seu encanto. É o progresso...
    Na entrada da fazenda, há bastante tempo com sua superfície original muito diminuída, há uma porteira que dá acesso a uma área interna que por sua vez dá acesso ao portão da casa grande, a porteira do curral e a um conjunto edificado, constante de uma garagem para carros, uma capela em homenagem a Babá e uma casa do administrador Sr. Luiz. Fomos recebidos por ele, que nos liberou a capela e as dependências da casa grande, assim que nos identificamos como primos do Geraldo, proprietário atual da fazenda.
    O conjunto da casa grande está muito bem conservado, o jardim, as escadarias, a varanda, o pomar, a horta. Sob um telheiro, com uma grande mesa no centro, foram construídas uma churrasqueira, um forno e um fogão nas proximidades da casa. O pátio interno da casa está limpo e também em ótimo estado de conservação.
    O carinho e o cuidado do primo Geraldo se concentram mais ainda no interior da casa, toda pintada e reformada, inclusive o anexo com as dependências do vovô Arthur. Ela está toda mobiliada e a longa mesa no centro do salão principal parece manter perene toda a memória da família Tibúrcio. Tudo naquela casa evoca seus moradores originais, meu avô, D. Conceição, meus tios, primos e agregados...
    No quarto do vovô, eu e Gláucia fizemos uma comovida oração por toda a família e na sala de visitas, onde estão os quadros de vários de nossos antepassados pedimos também por suas almas. De pé na varanda, olhando para o campo a frente, lembrei-me de quantas vezes ali estivera, nesse mesmo lugar, mirando o horizonte, com meu avô Arthur. Recordando vários episódios da família, entramos na capela, de muito bom gosto por sinal, construída em homenagem a Babá e também lá fizemos nossas preces.
    Satisfeitos com nossas andanças e reminiscências, dirigimo-nos então, para a casa da tia Ceição que já lá nos esperava.
Sentados em torno da mesa, bebemos café, comemos bolo, biscoitos e conversamos muito sobre toda a família. Lembramos dos nossos pais, de fatos passados, vimos muitas fotografias antigas, rimos e em outras ocasiões ficamos circunspectos com notícias não tão boas. Tia Ceição estava, no momento, meio indisposta para a ingestão de alimentos e por isso mais uma vez não pode ir a um restaurante conosco, prometendo contudo, que da próxima vez que voltássemos ela faria tudo para nos acompanhar. Ela me lembra muito minha mãe Iracema, por sua alegria em receber e por ficar agitada o tempo todo, querendo oferecer, isso mais aquilo, etc., sempre querendo nos agradar ao máximo e demonstrando sua alegria em nos receber. Lá conheci seu neto Bruno, já com 18 anos e tive noticias de Hebe, filha de Paparuna, uma grega cujo verdadeiro nome é Zaphiriças Papadoupos. Ela foi casada com o Dr. Afonso, um diplomata brasileiro, que na 2a Guerra Mundial a trouxe para Passa Quatro. Hebe, já sessentona, depois que a mãe morreu veio morar em sua cidade natal, próxima de tia Ceição, deixando Los Angeles/USA onde residia com seus dois filhos.
    Saímos da casa da tia já em torno das 21:00 horas e fomos então encontrar a Dayse, amiga de Gláucia e também de minha irmã, já falecida, Magaly. Ela, alegando ter feito um tratamento de canal dentário naquela tarde, recusou-se polidamente a jantar conosco e assim ficamos conversando no portão de sua casa, até que a chuva fria nos empurrou de volta a casa da prima. Isso por volta das 23: 00 horas. A noite estava muito fria e foi a de mais baixa temperatura que passei em Passa Quatro nessa minha viagem. Já na cama, cobri-me com dois cobertores e usei meias... Lembrei-me então de que quando morava na cidade, durante o inverno ao ir para a escola, meus lábios e mãos se abriam em rachaduras.
    Acordei mais tarde no sábado e depois de algumas providências, saímos e fomos fazer nossa derradeira visita. Quis rever uma amiga de infância, Marina, viúva de um conhecido meu, o Ataíde Terra. Ela é dona de uma loja, no mesmo prédio onde seu pai tinha a Casa Azul (seu nome era Lepanto Peregrini e ele foi testemunha da minha certidão de nascimento) e é mãe de uma jovem que é a cara do Ataíde, seu pai. Conversamos, eu e Gláucia com ela durante uns 20 minutos e nos despedimos depois, satisfeita minha curiosidade.
    As 10:55 horas partimos para Cruzeiro e fomos direto para a casa do primo Francisco. Lá ele me mostrou a coleção de quadros da família, as camas que foram do vovô e D. Conceição e alguns retratos.Tudo isso fica situado no seu “refúgio”, uma edícula ao fundo do seu quintal.
    Saindo dali, levando também Maria das Graças, a esposa de Francisco, apanhamos o primo Geraldo em seu consultório e fomos todos almoçar. Durante o almoço tivemos a oportunidade de falar dos dias antigos, dos dias atuais, dos nossos parentes, dos assuntos do momento, enfim de toda a família. Foi muito bom, pois o Geraldo sempre me mereceu o maior respeito, por sua figura humana e por sua operosidade.
    A última etapa de visitas ocorreu na casa da tia Jeny, esposa do tio Jupy, irmão de minha mãe e minha madrinha. Lá nos esperava, a prima Maria Letícia e estava também o Bruno, filho da prima Maria Beatriz. Chegaram depois a prima Maria Beatriz, a Gabriela , filha de João Bosco, neta de Maria Letícia, o filho dessa última Domingos Sávio e o neto Tobias. A conversa foi muito boa, tia Jeny estava muito contente com a visita, muitos acontecimentos foram rememorados, Magaly, continuava muito querida por todos e a reunião durou até as 17:30 horas, quando levantamos acampamento para voltarmos ao Rio de Janeiro, prometendo voltar no ano que vem.
    Embora, durante nossa estada em Cruzeiro chovesse muito, ao tomarmos a Rodovia Presidente Dutra para regressar ao Rio de Janeiro, a chuva parou e apesar de ter anoitecido, a viagem transcorreu sem atropelos e não resultou nenhum perigo para nós. Ao todo, percorremos 764 km da saída de Niterói até o término da viagem e o Palio Fire 1.0, consumiu uma média de 16km por litro de gasolina.
    Como diz o poeta Cazuza em sua música, o tempo não para, espero nos próximos anos fazer, novamente, caminhos semelhantes, procurando, ao visitar os sítios de minha infância/adolescência, reencontrar-me mais uma vez com os verdes dias da aurora da minha vida...

José Maria Tibúrcio Barroso
Niterói, julho de 2004


INVERNO DE 2005

Barroso narra uma visita sentimental à suas origens

“Na arte só tem importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes”  (Eça de Queirós)

    Obedecendo minhas razões interiores, de visitar, a cada ano, desde 2003, os caminhos de minha infância, revendo minhas últimas tias ainda vivas, escolhi neste ano, o inicio de agosto, em plena estação invernal, para por em prática essa verdadeira “Á la recherche du temps perdu”.
    Como não tenho qualquer pretensão de fazer arte literária, vou simplesmente narrar a viagem que empreendi nesse inverno de 2005, perenizando-a para o futuro, com as minhas observações e impressões.
    Nesse ano, meu roteiro, partindo de Niterói, seria o seguinte: Passa Quatro, via Itamonte, Cruzeiro , Itajubá e Varginha. Retornando depois por Passa Quatro, Cruzeiro e Niterói. Meus companheiros de viagem seriam meus primos Francisco e Gláucia, os quais apanhei em Cruzeiro e Passa Quatro respectivamente.
    Assim, tomei a estrada no dia luminoso de cinco de agosto, as 10:40 horas,com o meu Palio 1.0 Fire e segui pela Presidente Dutra, passando por Itamonte, em direção a Passa Quatro.
    Todavia, ao passar por Itanhandu, senti-me atraído a fazer uma visita àquela cidade onde, em 1949, com apenas onze anos ficara internado no Colégio Sul Mineiro por um semestre escolar, até pegar uma pneumonia brava e voltar para a minha casa. A pneumonia que havia me prostrado, quase no fim do primeiro semestre, tinha sido originada pela prática da ginástica, que era feita, invariavelmente, pela manhã, num horário fabril. Levantávamos as 06:00 horas e já as 06:30, com um frio terrível das montanhas, pois estávamos em pleno inverno, éramos levados a correr, subindo e descendo morro e depois para concluir, tínhamos que mergulhar numa piscina, da qual saía vapor de tão fria que era a temperatura da água. Não deu outra, pequei uma pneumonia dupla e tive que ir para casa para me curar. Regressando ao Sul Mineiro, completei o restante das aulas do semestre e não voltei mais ao colégio, ficando mesmo em Passa Quatro no Colégio São Miguel.
    Assim, algo me puxava para rever essa cidade e as paisagem daqueles tempos de outrora.
    Dessa forma, entrei no burgo e seguindo as mãos das ruas, passei pela praça da Igreja Matriz e procurei encontrar o endereço onde ficava o colégio em pauta. Passei duas vezes por onde, vagamente, me lembrava de sua posição, mas no local só encontrei duas construções vizinhas, ambas de escolas, uma estadual e outra municipal. Curioso, perguntei a transeuntes onde estava o antigo Sul Mineiro, mas nada souberam informar, pois só tinham conhecimento das escolas que se podiam ver agora naquele local. Tornei a passar em frente às escolas, observei bem e cheguei à conclusão que o Sul Mineiro não existia mais e em seu lugar estavam agora aqueles dois estabelecimentos de ensino. Sinceramente, fiquei decepcionado. Parece que nenhum ser humano gosta de ver derrubados os cenários do seu passado. É como se houvessem passado uma borracha na paisagem e com isso um pedaço de sua história.
    Dei-me por vencido e engolindo em seco a minha frustração, dirigi-me então à praça da Matriz, onde estacionei o carro. Olhei em redor, havia alguns jovens sentados nos bancos e a praça não parecia muito bem cuidada. Olhei para um dos lados e ainda lá existia um estabelecimento comercial que naquela ocasião pertencia ao pai de um colega do colégio. Todavia, por não lembrar mais o nome desse colega, não entrei na loja. Simplesmente, a observei. Olhando a Igreja Matriz ela me pareceu imponente e como acontecia há tantos anos atrás, aos domingos, fui até lá fazer minhas orações, dedicando-as aos contemporâneos daquela época.
    Ao sair da igreja, lembrei de um fato que tinha me acontecido em seus arredores e que ficou para sempre gravado em minha mente.  Em um domingo, daquele ano, aproveitando a licença que os alunos, trajando seu uniforme escolar, tinham em ficar em liberdade pela cidade, após a missa, até terem de regressar ao colégio, sentei-me num bar que se situava no lado da praça, oposto ao da igreja. Não tinha um mísero tostão no bolso e me deixava ficar na cadeira, vendo o tempo passar e olhando com olhos ansiosos e gulosos os sorvetes que as pessoas vinham comprar no local. Minha garganta estava seca e cada cliente que saia do balcão com um copo de sorvete na mão, aguçava mais meu desejo de também poder ter um para mim. Era um verdadeiro flagelo o que eu sofria... Pois bem, de repente, para um carro, com placa do Rio ou São Paulo, não me lembro, e dele salta um homem, dos seus 40/45 anos e dirigindo-se ao balcão pede vários copos de sorvete, para sua mulher e filhos, que tinham permanecido no veículo. Enquanto esperava para ser atendido, este homem olhou para mim e deve ter observado o meu desejo infantil de tomar um sorvete. Falou então – oi garoto quer um sorvete também? – imediatamente eu disse – sim – e ele prontamente - escolha então aquele você mais gosta - Meu Deus, era o que eu mais queria na vida naquele momento! Os anos se passaram, mais de meio século, e eu jamais esqueci daquela cena e da bondade daquele homem. Vida que passa, e sempre me vem a mente esse acontecimento...
    Atraído também por essa lembrança fui até o tal bar, mas ele tinha se modificado. Em primeiro lugar, não incluía mais uma sorveteria e depois, se tornara bem menor, pois tinha sido dividido em dois estabelecimentos. Mais uma decepção...
Andei então pela rua principal do centro, em frente a Igreja Matriz. Ela tinha se transformado em rua de pedestre e me pareceu nos dias atuais bem estreita. Também ela tinha se modificado bastante, seu comércio me parecia, agora, semelhante ao da rua da Alfândega do Rio de Janeiro. Caminhei pelo seu traçado até a outra rua, frente à estrada de ferro. Nesse ponto parei e observei atentamente a paisagem. Essa sim, me deixou melancólico, pois a ferrovia fôra desativada, a estação está degradada e o mato crescia entre os trilhos.
    Saindo de Itanhandu, fiquei pensando na roda do tempo... Naquela época, fim da década de 40 e inicio da de 50, essa cidade era muito florescente, enquanto minha terra natal era mais modesta. Diferente dos dias de hoje, quando Passa Quatro apresenta um processo consistente de desenvolvimento turístico e se apresenta mais bonita e arrumada que sua vizinha rival.
Tomando então a rodovia do Caminho das Águas, rapidamente alcancei meu torrão natal e me dirigi à casa de Gláucia, minha prima. Encontrei-a muito bem disposta, receptiva e pronta para no dia seguinte seguirmos a viagem programada.
    A tarde estava radiosa, a temperatura baixa, mas agradável e enquanto Glaucia procedia os preparativos para o jantar, resolvi dar uma volta, seguindo para a rua do Vinagre, como planejara anteriormente, para fazer uma visita à família dos descendentes de José Orlando da Costa. Este senhor, já falecido, tinha sido casado com Rita, uma antiga doméstica na fazenda de meu avô Arthur. O casal produzia e vendia doces para fora, tivera muitos filhos, que eu conhecera, mas dos quais me lembro somente de alguns, como o Albertino, lutador de boxe, o Américo, o Jorge, a Ester e a Leopoldina. O Américo, inclusive, estudou na Rússia, era Engenheiro de Minas e chegou a ocupar o cargo de Ministro de Minas e Energia, em Moçambique. Muito jovem ainda, eu era muito franzino e minha mãe pedira então ao Albertino para me exercitar, o que ele fazia com grande paciência, três vezes por semana. Todas as vezes que ia em sua casa, José Orlando sempre me oferecia um de seus doces, o que eu aceitava com muito gosto.
    Todavia, o que eu gostaria de lembrar aqui é o meu conhecimento do Oswaldo, seu filho mais moço. Chegamos a brincar várias vezes de cavalo de pau, em que montados num cabo de vassoura, galopávamos como se estivéssemos sobre um cavalo verdadeiro. Lembro-me perfeitamente dele. Para sua idade, 6/7 anos, já era alto e um tanto corpulento. Muito tranqüilo e simpático. Pois bem, a roda do tempo girou, mudei-me de Passa Quatro e anos mais tarde, muitos anos mesmo, vim a saber que o Oswaldão, o famoso chefe guerrilheiro do Araguaia, dos “anos de chumbo”, era o Oswaldo, amigo de minha infância... Formara-se em engenharia, na Tcheco-Eslováquia e regressara ao nosso país, onde nas décadas de 60/70, já como membro do PCB, lutara com grande coragem contra a ditadura imposta pelo Regime Militar, imposto ao país em 1964. Fôra morto pelo Exército em Xambioá, cidade goiana às margens do Araguaia, em 1974.
    Muito bem, por volta de 1986, eu havia comprado umas terras no sul do Pará, em São Félix do Xingu e periodicamente ia até a região. Numa dessas idas, devia me encontrar com um fazendeiro, em sua serraria, em São Geraldo do Araguaia e para chegar até lá segui por Goiás, alcançando então Xambioá, que ficava na margem direita do rio Araguaia, em frente a São Geraldo, que ficava na margem esquerda. Lá escutei pela voz desse homem, a narrativa de alguns acontecimentos sobre a guerrilha e o combate que o Exército lhes tinha dado na ocasião. São as coincidências do destino...Não sei bem onde, mas em algum lugar daquelas paragens, talvez muito próximo do local onde eu estava, enterrado num canto da selva, devia estar o Oswaldo, meu amigo de infância. Assim, depois de tantos anos, nós estávamos perto um do outro novamente...
    Igualmente, tínhamos, anteriormente, nos aproximado através do arco cósmico da vida, porque eu também tinha sofrido com o Regime Militar, pois jovem ainda, tivera minha patente de Oficial da Marinha, cassada em 1964, onde ingressara para cursar a Escola Naval, na Ilha de Villegaignon, por concurso público nacional.
    Hoje em dia, uma rua de Passa-Quatro leva o nome desse líder guerrilheiro e em junho de 2000, o prefeito da cidade concluiu um ginásio poliesportivo e o batizou com o nome de Oswaldo. Ele também foi homenageado, no Estado em que derramou seu sangue, recebendo o título post-mortem de cidadão paraense, dado pela Assembléia Legislativa, em 2001.
Entrando na rua do Vinagre, fui olhando as casas para tentar reconhecer aquela do José Orlando. Em frente da que me pareceu mais semelhante parei e observei. Parecia-me que era ela mesma, pois além do portão de entrada, via-se uma varanda lateral, igual o registrado pela memória de minha infância. Como estava aberto fui entrando e, parando em frente a uma janela, a da cozinha, olhei para dentro. Lá estavam duas mulheres. Uma sentada e a outra, de pé, próxima ao fogão de lenha. A primeira era Leopoldina, de todos os irmãos, a que restara viva daquela família tão grande. A outra mulher, vim a saber, se chamava Elisa e era viúva do João, do qual não me lembrava, filho também do José Orlando. Apresentei-me a elas e começamos então a conversar. Logo em seguida chegou Maria Rita, filha de Elisa e entrou na conversa. Rememorei então para elas o meu conhecimento sobre a sua família e as minhas brincadeiras com o Oswaldo, também como, sua morte prematura e a minha passagem por Xambioá. Foi uma visita muito afetiva e convidei a todas para jantarmos juntos, o que declinaram educadamente, pois Leopoldina não podia comparecer (estava algo caduca) e assim as demais deviam fazer-lhe companhia.
    Um fato interessante foi narrado por Maria Rita, acontecido por ocasião da chegada de Oswaldo na Tcheco-Eslováquia. Como ele era um jovem de cor negra, muito alto – 1,98m – com muito boa aparência, fazia o maior sucesso na rua, principalmente com as mulheres, pois a presença de alguém dessa raça lá era muito rara e, então, as pessoas paravam na rua para apreciar sua figura marcante de gigante de ébano...
    Saí dessa casa satisfeito por ter feito tal visita, mas também nostálgico pelo quase total desaparecimento daquela família tão boa, da qual agora só restava Leopoldina, uma representante do seu tronco original, mesmo assim já um tanto desligada da realidade e do mundo que a cerca.
    Fui então para a casa de tia Ceição, lá encontrando também a prima Maria Lea. A tia tinha levado um tombo e fraturado umas costelas e, assim, estava com certa dificuldade para respirar e se locomover, mas que no entanto recebeu-me, como sempre, com muito carinho, café, bolo, biscoito e ficamos conversando por cerca de três horas. Convidei-a para jantarmos juntos no meu regresso de Varginha, mas ela preferiu que déssemos um passeio pela cidade, indo, inclusive, até a Fazendinha. Concordei com seu desejo e como falássemos do Ary seu vizinho e cunhado, manifestei o desejo de visitá-lo também, no que minha tia me acompanhou. Apesar dos seus 90 anos ele estava muito bem, mesmo morando sozinho, por escolha sua, apenas sendo atendido diariamente por suas filhas Ana Maria e Joaninha, minhas amigas de infância. Quando estávamos em sua casa elas chegaram e foi uma festa, pois não nos víamos há mais de meio século. Ambas estão viúvas e juntos nos lembramos de sua mãe Margarida, uma doce mulher que morreu muito jovem a quem eu gostava por demais, pois me emprestava seus livros de história e me dava muito atenção.
    Retornando à casa de Gláucia, jantamos e a após o jantar saí para dar uma volta na cidade, caminhando pelos caminhos da minha juventude. Estava frio e a prima preferiu não me acompanhar, aconselhando-me a me agasalhar. Coloquei então o paletó e segui pela rua principal, primeiro pela Ângelo d’Alessandro, depois pela Ten. Viotti, em direção ao Hotel das Hortências.
    Seriam mais ou menos 20:30 horas e a rua permanecia quase deserta, apenas alguns pequenos bares estavam abertos. Tão diferente da minha juventude em que a rua principal ficava bem movimentada, com bastante gente passeando. Era a época do cinema e também, não existia televisão. O frio começou a gelar minhas mãos e como estava de calça jeans, protegi-as nos bolsos externos do paletó. Estava realmente gelado. Apertei os passos, pois desejava dar um passeio completo pelo centro da cidade. Passei pelo local do antigo Correio, do antigo Cinema Régnier, da antiga Casa Cancela, da escadaria da Igreja Matriz, do antigo Bar do Nem Lopes, do antigo Bar da Dona Mariana, da Farmácia do Serafim, da residência do Lepanto Pelegrini, da antiga Casa Azul, da casa da Chiquinha Dantas, uma loirinha que fizera apertar meu coração dos 13 aos 14 anos, pela praça, antigamente arborizada com árvores frondosas, pela antiga enorme casa que pertencera ao meu avô Arthur, das antigas casas do tio Alberto, tio Tonico e cheguei até a ponte sobre o rio Passa Quatro, atravessando a qual eu alcançaria o Hotel das Hortências.
Parei por aí. O andar mais apressado tinha aumentado minha temperatura interna e contrabalançara o frio exterior. Já mais confortável, comecei a voltar, mas agora circundei a praça de antigas árvores frondosas e passei em frente a antiga casa do tio Jupy. Observei-a atentamente, pois ela sempre me parecera imponente e misteriosa. Abrigara em outros tempos minhas sete primas, todas de nome Maria. Maria Letícia, a primeira, Maria Estela, a segunda... Após o nascimento da última Maria, meu tio desistira de ter um varão na família...
    Continuando o volteio da praça, olhei o local, como se estivesse vendo, o antigo Patronato, em frente a linha do trem, que abrigava meninos órfãos, ou deixados por seus parentes, vindos do Rio de Janeiro e São Paulo. Lá, eles recebiam educação escolar e havia uma fazenda conveniada na qual alguns deles, que assim o quisessem, aprendiam e praticavam agricultura.     Não existe mais tal educandário, pois foi demolido e em seu lugar foram erguidos o Fórum, a Cadeia Municipal e a Estação Rodoviária da Cidade.
    Tudo pelo social ! Dizem sempre os governantes que assumem. Todavia, o chamado progresso tem as vezes uma conotação de retrocesso...
    O estilo gótico da casa construída na antiga chácara da madrinha Aurélia, em frente à capela lá existente, dá um toque fantasmagórico na paisagem noturna daquele local, pelo qual passo a passos largos em direção a rua da Estação do Trem.
    No caminho, vejo a antiga Casa Bonani, agora com dois andares e me lembro da jovem viúva Angelina, sua proprietária, que gostava muito de música, tocava magnificamente acordeon e que nas estações de férias levava sempre convidados do Hotel Régnier para continuar as serestas em sua casa. Em muitas dessas ocasiões eu estava presente, pois era amigo do seu filho Fernando.
    Em frente ao antigo laticínio, olhei para a sacada da janela do andar superior do prédio e recordei-me da história que corria pela cidade, nos tempos idos. Havia um senhor moreno, sempre muito arrumado, de paletó, gravata e chapéu, que era visto ao cair das noites em frente do tal prédio. Na mesma hora, na sacada, aparecia uma figura feminina, mulher do gerente do laticínio. Corria de boca em boca pela cidade que os dois mantinham um romance secreto. Eu mesmo os vi muitas vezes em suas posições de praxe. Não sei a veracidade do fato, pois não me ligava muito ao assunto pela minha pouca idade, mas o povo falava e falava...
    Cheguei à Praça da Estação. Esta última estava fechada e a praça completamente deserta. Muitas vezes eu tinha tomado o trem da Rede Mineira de Viação desse local, ou para ir para Itanhandu ou para ir para Cruzeiro, de onde embarcava na Central do Brasil, em direção à São Paulo ou Rio de Janeiro. Agora, um pequeno trecho dessa ferrovia tinha virado atração turística, para passeios, nos fins de semana, de visitantes de Passa Quatro. Outro progresso que significou retrocesso, pois sabe-se que o transporte ferroviário é muito mais barato que o rodoviário. Nisso nós copiamos mal o "american way of life", que apesar de suas extensas rodovias, possui também extensa rede ferroviária, o que não acontece com o nosso país...
Aproximei-me do antigo Hotel Régnier, estabelecimento que, situando-se na Praça da Estação, recebia os turistas que visitavam a cidade nas férias e ficavam para aproveitar os falados milagres da água mineral tori-magnesiana existente na Fonte. Lá também ocorriam bailes nos fins de semana e era assim um dos pontos altos de Passa Quatro. Lembro-me, especialmente de um baile, animado por um só acordeon, em que a música mais tocada era o baião Kalu, que tinha sido lançado recentemente pela cantora Marlene, uma estrela da Rádio Nacional, a rádio mais ouvida e famosa naquela época. Eu sempre tivera muita vontade de me hospedar naquele hotel. Até já havia sonhado com isso, várias vezes. Olhei pela porta aberta. Não havia ninguém na portaria e nem no restaurante ao lado. Este, era o antigo salão de recepção, onde havia os tais bailes. Por mais que me esforçasse para encontrar alguém, não o consegui. Parecia uma imagem dos filmes de Felini... Cheguei então próximo da escada que conduz ao segundo andar e perscrutei o ambiente, observando o corredor com os quartos. Depois de alguns minutos resolvi deixar o hotel e minhas lembranças. Já vira o suficiente e experimentara as vibrações do passado... Quem sabe um dia eu me hospedarei aí?
    Deixando a Praça da Estação, segui em frente em direção a casa do Dr. Castro, agora de outro proprietário que a reformou e pintou, sem alterar porém seu estilo arquitetônico. Passei em frente à antiga loja do Chichilo e lembrei-me desse italiano que chegando em Passa Quatro ali se instalou com um estabelecimento em que se encontrava de tudo. Era uma das melhores casas comerciais da cidade, durante muito tempo. Subi então uma rua transversal, a General Barcelos, para alcançar o logradouro da casa da Gláucia e então vi-me diante do local da antiga casa do José Arimatéia, meu amigo de infância. A casa não mais existia e em seu lugar fora erguida a Pousada Eco da Montanha. Curioso, entrei e encontrando uma pessoa na portaria dirigi-me à ela. Seu nome era Roberto, proprietário da pousada, irmão do José Arimatéia. Apresentei-me e conversamos por um quarto de hora sobre Passa Quatro, o movimento turístico da cidade, fatos do passado de que tinhamos participado eu e seu irmão. Irformou-me que o mano morava há muitos anos em São José dos Campos. Deixei-lhe meu endereço para que, quando tivesse contato, informasse o José Arimatéia e me despedi.
    Regressando à casa de Gláucia, fui para cama e me cobri bastante, pois por um grande lapso de minha parte tinha esquecido de incluir o pijama na minha mala de viagem...
    Pela manhã, enquanto esperava o café, fui até a varanda e observei a natureza. Estava radiosa. O céu estava completamente azul, sem uma única nuvem branca. Havia matizes de cores no horizonte. Primeiro as montanhas mais próximas, muito verdes. Depois a serra ao longe, verde-azulada. Finalmente, o azul puríssimo do céu de Passa Quatro... O ar puro, a mente leve, o coração sereno.Tudo contribuía para um bem estar sem fim e predizia uma bela viagem pela frente.
Saímos então pela manhã em direção a Cruzeiro, onde apanharíamos o primo Francisco. A distância é curta, cerca de 30 km e logo chegamos à cidade paulista.
    Com Francisco já conosco, estivemos na casa de tia Jeny e a encontramos muito bem mentalmente, demonstrando grande vivacidade e conversando animadamente. No entanto, ela está cada vez mais repousando na cama ou sobre uma cadeira, pois sua movimentação está cada vez mais difícil. Ela manifestou sua alegria em nos receber e permanecemos em sua casa por um período de mais ou menos uma hora.
    Despedindo-nos dela, rumamos para Itajubá, via Piquete. Almoçamos em Itajubá e logo depois nos dirigimos ao Convento da Providência de GAP.
    Relembrando a visita que eu, Glaucia e Francisco lhes fizemos, ficamos todos muito felizes em encontrar muito bem as primas Niza e Maria José, esta última tão alegre, afetiva e amiga. A reunião em família, é sempre enternecedora e os assuntos vão surgindo, com o passado se misturando com o presente, os entes queridos e os acontecimentos sendo relembrados alegremente.
    O lugar onde vivem respira paz e serenidade e as freiras, suas companheiras, são também maravilhosas. Tive especial  alegria em rever a irmã Emiliana, remanescente do Colégio Nossa Senhora Aparecida, de Passa Quatro, que passa para os que a cercam, uma atmosfera de amizade e de fraternidade.
    A maneira como fomos recebidos nos encantou, foi-nos servido um saboroso lanche e assim, no próximo ano voltaremos todos para novamente termos o privilégio de, nesse ambiente mágico que é  Convento da Providência, estar novamente com as primas e com essas queridas freiras que as cercam. 
    Já era em torno das 16:00 horas quando nos despedimos, e com a Irmã Emiliana nos orientando até a saída da cidade em direção à Varginha, seguimos em frente rumo àquela cidade.
    Chegamos a Varginha já à noite e fomos imediatamente procurar um hotel para nos hospedar, pois não queríamos incomodar tia Marianinha e primas. Estabelecemos-nos num hotel no centro da cidade e saímos mais tarde para jantar e dar uma volta pelos arredores.
    Gláucia nunca tido estado na cidade e Francisco tinha lá morado, por um período, quando tio Astolfo era ainda vivo. Ele tinha feito grande amizade com as primas e, mais tarde, mesmo já morando em outra lugar, fôra convidado pela prima Glícia para ser seu padrinho de casamento. Todavia, fazia já bastante tempo que estava afastado de Varginha. Para Gláucia, essa visita representava a surpresa, o desconhecido. Para Francisco era rever suas queridas primas e tia Marianinha. Para mim, que já estivera na cidade há uns quinze anos atrás, era visitar a tia Marianinha e conhecer as primas ainda desconhecidas, obedecendo minhas razões interiores.
    Ficou acertado que descansaríamos naquela noite e no dia seguinte, um domingo, iríamos então, encontrar com a tia e primas após a missa, que também compareceríamos.
    A capela onde foi celebrada a missa, era pequena, mas muito simpática e estava completamente cheia, tendo sido colocados alguns bancos fora dela para os excedentes se acomodarem.
    Ao término da celebração nos encontramos fora da capela, com tia Marianinha, Gracie e Paulo, seu marido. Após os cumprimentos e apresentações fomos convidados a ir para a casa da tia, onde nos esperava uma mesa com café e bolo, seguindo a tradição mineira de bem receber. Um pouco mais tarde apareceu Glycia, ansiosa em rever o Francisco e conhecer a Gláucia e a mim.
    A casa do tio Astolfo fica bem no centro de Varginha e é ampla e confortável. Fiquei sentado perto do Paulo, muito simpático por sinal, que faz com Gracie um casal harmonioso, e fomos conversando sobre assuntos vários, falando-me, inclusive, de seu pendor para obras e arquitetura. Ele é ortodentista em atividade e possui uma fazenda nos arredores da cidade. Disse-me ter 72 anos, mas tem cara de muito mais jovem. Eu penso que ele faz parte desse grupo privilegiado de seres humanos que não envelhecem nunca, permanecendo com aparência de garoto até o final de sua existência, até pelo seu espírito leve e sorriso acolhedor.
    Tia Marianinha está muito bem e continua muito elegante, com seus 90 anos bem vividos, locomovendo-se ainda com certa desenvoltura. Sente-se que ela teve uma vida muito feliz com tio Astolfo e que juntos formaram também um casal unido, respeitado e que tinha uma vida social intensa, pois o tio, além de Juiz de Direito na cidade, fôra também, presidente do Clube local. Ela, fala pouco e ouve muito, mas sente-se que ela está ligada em tudo.
    Das primas, Gracie, Gláucia e Glicia, só as duas primeiras eu conhecia. Todas muito simpáticas, educadas e com uma conversa de alto nível. Glicia é alta, com presença forte e embora não seja Julia Roberts, é uma linda mulher, como sua mãe e irmãs, tendo uma aparência agradável e muito carismática, impressionando pela sua postura séria e demonstra ter uma personalidade afirmativa. Tem o porte de uma juíza. Não é por acaso, que é a administradora da fazenda de sua mãe.
    Na seqüência do café da manhã, fomos convidados por Paulo e Gracie para almoçarmos em sua fazenda e para lá nos dirigimos todos, exceto Gláucia que ficou de aparecer mais tarde, o que efetivamente aconteceu, e de Glicia, que tinha outro compromisso com o marido e ficou na cidade.
    Na fazenda, tendo o café e o gado de leite como carros fortes – produziu 500 sacas de excelente qualidade nesta safra, como informou o Paulo – nos aconchegamos na casa principal e lá entre goles de cachaça, cerveja, vinho e uma deliciosa comida caseira, exercemos plenamente a convivência familiar, junto com toda a descendência do anfitrião, 6 filhas, genros e netos. Um família grande e bonita.
    Paulo e Gracie nos fizeram prometer que na próxima vez que voltarmos a Varginha, seremos seus hóspedes. Hotel, nem pensar, disse-nos eles.
    Tudo bem, e apesar de eu querer sair desse ambiente tão afetivo e agradável, no máximo às 16:00 horas, já que sendo o motorista, preferia não dirigir a noite, não foi possível, porque éramos todos instados a ficar mais um pouco, com as conversas se estendendo, se estendendo e se estendendo, de uma maneira tão amistosa que essa hora foi ultrapassada, sem que eu pudesse fazer nada.
    Foi uma despedida muito afetiva, tia Marianinha manifestou sua satisfação em nos receber, bem como o Paulo e primas e saímos de lá muito felizes por tê-la reencontrado e todos os demais parentes.
    Assim, em torno de 17:00 horas tomamos o caminho de Passa Quatro, passando por Três Corações, Cambuquira, Pouso alto e Itanhandu.
    Chegamos à noite em Passa Quatro e após jantarmos em uma pizzaria, próxima da casa da Gláucia, nos recolhemos.
    A casa onde está instalada a pizzaria fez-me lembrar dos seus antigos moradores da década de 50, D. Maria Augusta e Sr. Bedaque. Ela é tia da Gláucia e irmã da tia Guilhermina. A pizzaria, na verdade, fica no primeiro andar da casa, que está num nível inferior ao da rua. Assim, quem passa pelo local, pensa que esse andar é um porão. Essa foi justamente a minha opinião de mal observador, quando, nessa década, fui procurar o seu morador, um ferreiro que fazia de quando em vez algum trabalho para meu pai. Ele tinha uma aparência soturna, vivia com uma roupa que parecia que não mudava nunca e usava rapé. Tinha sua oficina em outro endereço, mas como era final de semana, fui procura-lo no local onde morava, que era, na verdade o primeiro andar da casa onde Dna. Maria Augusta ocupava o segundo andar.
    A pizzaria é muito bem instalada, serve com esmero e isso me fez refletir sobre o momento turístico atual de Passa Quatro. A cidade parece que se reciclou. Os hotéis, pousadas, bares e restaurantes se prepararam e hoje em dia oferecem um serviço excelente aos clientes. Há gente de fora, sem dúvida, mas há também muita gente da própria cidade, que está nesse negócio. Além disso, as belezas naturais do município completam suas instalações urbanas, para atender os visitantes.
No dia seguinte, após o café e antes de passar na casa da tia Ceição, dei um passeio até a Feira (bairro de Santa Terezinha), onde procurei a antiga casa-chácara de meus tios já falecidos, Ovídio e Chiquitinha. A casa, embora estruturalmente, fosse a mesma, todas as suas janelas e portas tinham sido trocadas para modelos mais modernos, o que não me agradou. A área da antiga chácara, onde meu tio tinha criação de gado de leite, estava quase toda ocupada por casas, pois o terreno tinha sido loteado. A casa em frente, uma antiga construção que pertenceu ao Murilinho Cancela – ele era muito católico e comungava todos os domingos - não existia mais e em seu lugar, havia outra residência, nem de perto imponente como a que lhe precedeu. Uma enorme árvore que existia na rua principal da Feira, mais ou menos na frente da casa dos meus tios, já não existia mais também. Essa árvore, acredito, desapareceu quando o traçado da rua foi retificado e ela teve de ser sacrificada. Uma pena, pois ela teria, talvez, por sua altura e pelo diâmetro do seu tronco, mais de 200 anos.
    Voltei pela rua Capitão F. Motta onde, na altura do número 138, parei e fiquei observando a casa à minha frente. Essa casa sempre me impressionou e, assim, todas as vezes que vou a Passa Quatro faço questão de revê-la. Infelizmente, só posso fazer isso pela sua parte externa, com sua escadaria e jardins, pois jamais conhecendo seus moradores, não posso visitar seu interior.
    Regressando à casa de Gláucia, eu e Francisco nos despedimos dela, agradecendo também sua hospitalidade tão amiga e carinhosa, e nos dirigimos à casa de tia Ceição para conversarmos mais um pouco e depois partir para Cruzeiro, onde o primo ficaria.
    Desculpei-me com minha tia por não ter chegado a tempo de poder fazer o passeio que tínhamos programado, uma vez que ela preferia sempre realizá-lo na parte da tarde e não pela manhã, como eu sugerira, e meu tempo permitia. Ficamos combinados então de fazer o tal passeio no próximo ano, quando mais uma vez pretendo voltar a Passa Quatro para visitá-la.
    Despedindo-nos dela, depois de mais uma rodada de café, bolo e biscoito, que ela gentilmente fez questão de oferecer, tomamos a estrada em direção a Cruzeiro e, lá chegando, deixei o primo Francisco em sua casa, agradecendo-lhe a companhia.
    Assim, depois de rodar 1.039 km regressei a Niterói, no dia oito de agosto, onde cheguei às 15:30 horas, num circuito que me proporcionou muitas emoções, muitas alegrias e nenhum cansaço.


Niterói, agosto de 2005
José Maria Tibúrcio Barroso


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Perigoso Agente Secreto

Um caso lembrado pelo Boavista

    Sábado, sete e meia da manhã, é uma péssima hora para o telefone tocar. Fora de sede, é um perigo. Florianópolis, no começo dos anos setenta tinha uma comunidade da Marinha pequena e  todos estávamos sempre a fácil acesso de uma convocação extra do chefe. Não deu outra. Cancelei o pic-nic com a família e fui para o Distrito acompanhar o controle de um agente potencialmente perigoso. Vinha sendo monitorado, em operação belissimamente integrada entre a Polícia Militar e a inteligência da Marinha, através de uma viagem de ônibus do interior do Estado de Santa Catarina para a Capital, Florianópolis.
     O pessoal de controle me explicou a situação. Na quinta-feira à noite apresentou-se em um quartel da PM na fronteira um cidadão com uma carteira falsa de Oficial da Marinha, pedindo pernoite. Disse que servia em um navio de guerra e que, no porto do Rio Grande, havia conseguido uma licença para localizar e pesquisar, no interior de Santa Catarina, os vestígios de sua família imigrante. Um agente nosso, infiltrado no ônibus, seguindo o suspeito, foi substituído em Lages por uma informante do Sistema, e o relatório do acompanhamento seria recebido no Distrito Naval a qualquer instante.
     Enquanto tomava o cafezinho da chegada, ouvia as conjecturas do Chefe do Estado Maior quanto às possibilidades de desdobramento desse episódio, de vez que o subversivo era completamente novo para o Sistema. Sua identificação havia sido positiva, pois, ao pernoitar no quartel da PM, levava apenas uma mala contendo livros nitidamente subversivos, pouco dinheiro, e nenhum equipamento pessoal além de uma pistola 7.65 engatilhada. Se tivéssemos sorte, com a prisão certa do elemento talvez se descobrisse uma rede, ou, até mesmo, o fio de acesso ao novelo de uma nova operação. Era uma perspectiva excitante para a ocasião histórica do país.
     Algumas horas depois, já nos preâmbulos do quarto café, dessa vez junto com o Almirante, zelosamente abdicando do lazer de sábado, vimos entrar o Oficial de Informações, de papel na mão, excitado, dizendo:
    - Recebemos o relatório da manhã. O suspeito está sendo seguido no ônibus, e deve chegar em 40 minutos na Rodoviária de Florianópolis. O esquema para prendê-lo já está pronto. Aliás, ele, no pernoite, deu nome falso de Douglas Brotto.
    Minha gargalhada foi absolutamente inconveniente. A espontaneidade de meu novo humor mais do que surpreendeu, quase ofendeu a atmosfera de séria ansiedade que já se estendia por 36 horas de tensão.
    - Explique-se Tenente, disse o Almirante, já desconfiando de algo insólito.
    - É o homem, disse eu. Conheço-o bem, e, com certeza o episódio combina com sua personalidade. E contei o que sabia.
    O desmonte da operação foi feito com habilidade e discreção suficiente para não melindrar os parceiros externos, e eu, evidentemente, fui responsabilizado pela forma de receber e encaminhar a figura ao Distrito, sob condições, agora, de meia suspeita. Chegou o Brotto, inocente, puro e sujo, com a roupa de três dias de poeirenta viagem. Final feliz, tudo bem, mas da andaina de roupa que lhe emprestei, há 25 anos, até hoje não me devolveu a cueca.

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A Mala Marrom

            Primeiras páginas do livro de memórias do Brandão

    Eram seis e trinta da manhã do dia quinze de março de 1995.
    Eu e uma grande mala de fibra marrom aguardávamos na estação férrea de Engenho de Dentro, o início da primeira, dentre as tão sonhadas viagens que me haviam motivado ingressar na Marinha.
    O João Paulo da rua Manoel Miranda, cedia seu lugar ao Brandão. O "Doze", do Colégio Militar, acabara de ser promovido a 55.0136.1...
    Notrem especial que nos levaria a Mangaratiba, começou o relacionamento com os novos companheiros:
    - "Tem farmácia aí, ô calouro?"
    Ignorar a gíria naval custou-me um esparadrapo sobre o buço ralo de meus quinze anos, arrancado de uma só vez. As lágrimas ameaçaram, porem evaporaram-se no fogo sagrado, que ardia dentro de mim, antes que qualquer veterano notasse.
    Conduzidos por traineiras de pesca sujas, mal cheirosas e instáveis a ponto de apontar candidatos ao "clube dos sempre mareados", desembarcamos na Enseada Baptista das Neves, recebendo as boas vindas do pessoal encarregado da adaptação:
    "Todos em forma, testa por três, malas a boreste! Sentido! Cobrir!"
    Ainda trôpegos, sob a influência das marolas que enfrentaramos nas últimas duas horas, famintos e desajeitados, perfilamo-nos com o propósito de externar vontade e determina'vão.
    A fachada imponente do Colégio Naval erguia-se por trás do alto mastro da bandeira e nos vigiava, com seus múltiplos olhos azuisem forma de janelas, contrastando com o branco das paredes. No centro do prédio, o acesso ao pátio interno, como uma enorme boca aberta em forma de túnel, nos aguardava, disposta a consumir boa fatia de nossa juventude, em troca da tenacidade imprescindível aos homens do mar.
    Nas horas que se seguiram, continuamos a enriquecer nosso vocabulário, decifrando quase que intuitivamente, termos novos lançados aos borbotões:
    - "Caxangá não é chapéu, é cobertura!"
    - Vê se dá volta ao papo, seu Farol!"
    - "Vai reformar a jacuba?"
    - "Tá na onça com essa mala, marujo?"
    - "Calouro que tem juízo dorme antes do último acorde do Silêncio, levanta antes da Alvorada e não se atrasa para a Matutina."
    E por aí foi, enquanto recebíamos as peças dos uniformes internos, éramos apresentados à rotina diária, visitávamos as instalações do Colégio Naval, compartilhávamos as refeições e nos recolhíamos extenuados ao alojamento, no fim do dia.

(Do livro "A Mala Marrom", edição da Imprensa Naval, 1987)

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Nasce a Turma Elmo

        Crônica saudosista do Gilberto, seguida de glossário

        Para obter o significado das expressões sublinhadas, apenas coloque o mouse sobre o ícone respectivo, sem clicar
 

INTRODUÇÃO

    A Turma Elmo nasceu em 1955 e recebeu essa denominação por ser a quinta turma a ingressar no Colégio Naval - ELMO era a quinta letra do alfabeto naval usado à época, que começava com AFIR, BALA, CRUZ, DEDO e ELMO.
Num acesso de saudosismo e de nostalgia de quem está beirando os sessenta, o presente trabalh#ero, cujo conteúdo foi inteiramente retirado da memória, pretende constituir-se numa homenagem aos 40 anos da Turma.
    Embarquemos, pois, no Trem da Saudade que parte da gare D. Pedro II às 12 00 horas, viajemos até Mangaratiba, e de lá, numa lancha da Companhia Sul Fluminense de Navegação, própria para o transporte de gado, vamos navegar cerca de duas horas, até avistarmos, meio mareados, a Ilha Francisca, depois de passarmos pelo monumento ao Aquidabã.
    Estamos, finalmente, no Colégio Naval, e amanhã o nosso dia vai começar.

RECORDANDO

    São 0600 horas da manhã, fuso PERAfuso horário, hoje denominado PAPA, e um toque estridente de campainha, seguido de uma irritante corneta, tira-nos do sono e do beliche quente.
    Estamos em Angra dos Reis, o tempo está chuvoso, o crepúsculo matutino mal começou e alguém, ainda no torpor do sono, apressa-se a correr à varanda dos alojamentos e gritar:
    - Chefe-de-Dia, haverá ginástica?
    Passados alguns minutos, vem a informação pelo fonoclamaSistema de alto falantes, através do qual eram transmitidos as ordens e os toques de rotina:
    Corpo de Alunos, haverá ginástica.
    No alojamento 1 do primeiro ano, ouvem-se impropérios e palavras pouco elogiosas a respeito das genitoras do Chefe-de-Dia e do Oficial-de-Serviço.
    Entretanto, a decisão está tomada e o jeito é vestir o uniforme de ginástica : calções brancos, camisetas azuis, sapatilhasSapatos pretos com sola de borracha, próprios para ginástica, componentes do uniforme de esportes dos Alunos do Colégio Naval e dos Aspirantes da Escola Naval pretas e, por cima, o uniforme CN. Alguns demonstram sua pouca afinidade com essa atividade e vestem o uniforme CN por cima do pijama.
    Agora a campainha e a corneta convidam-nos para a Parada Matutina. O Comandante-Aluno berra: “Batalhão, sentido! Atrasados à ordem”. Segue-se uma verificação de presença e um café puro, mais precisamente um chafé. Novamente, formatura, agora no campo de esportes, para uma revigorante calisteniaGinástica feita pela manhã. Eventualmente, ela poderá resultar até numa basitePelo que se ouvia dizer, era um inflamação na base do pulmão causada pelo frio e pela humidade, mas isto é apenas um detalhe.
    É chegada a hora da faxina: banho frio (nem todos são chegados, mesmo após o esporte), barba, arrumar beliches, engraxar sapatos, limpar amarelos etc.. Ah, não esquecer do uniforme de parada, aquele com melhor apresentação, para bem impressionar os oficiais.
    Alguns menos afortunados são convidados pelos veteranos para fazer a mesma faxina no alojamento deles (veteranos). Será problema do calouro, se o tempo for insuficiente para fazer as duas faxinas e, como consequência, ele for torradoO aluno que recebia uma papeleta, em virtude de falta disciplinar e, posteriormente, em audiência do COMCA (Comandante do Corpo de Alunos), isso lhe custar um fim de semana sem ir a Angra, sem Quaresma JúniorRua de Angra onde se situava o baixo meretrício, mais conhecida como ZBM, sem cabaréLocal afastado do centro da cidade de Angra dos Reis, de baixo meretrício, porém  um pouco mais requintado que o da Rua Quaresma Júnior, cujo acesso era proibido aos alunos, pelo Comando do Colégio, sem dançar com a Sovaco de CobraApelido atribuído a determinada senhorita da cidade, cujo odor axilar era insuportável no Clube Comercial e sem o bife com fritas do Teófilo, sem matiné no Cine Araribóia em companhia da PuanaApelido atribuído a uma senhorita (?), resultante da combinação da última sílaba de seu nome (ANA), com outro termo infelizmente impublicável e, ainda, a perda de um dia de licenciamento para o Rio, no fim do mês.
    Deve-se, ainda, considerar um felizardo se não levar uns cruza-remosTrote aplicado aos calouros, que consistia em obrigá-los a entrelaçar os dedos esticados, os quais eram, então, apertados pelas extremidades, ou alguns testômetrosOutro tipo de trote em que o veterano colocava as pontas dos dedos na testa do calouro e determinava que este fizesse força com a cabeça para a frente. O veterano deixava que a cabeça escapasse da ponta dos dedos, indo a mesma, em seu movimento para a frente, chocar-se com a palma da mão do veterano, pinguinsOutro tipo de trote em que o calouro era obrigado a flexionar parcialmente as pernas, enquanto mantinha os braços dobrados em ângulo reto nos cotovelos e os dedos indicadores de ambas as mãos, apontando para cima. Quando cansava, o calouro tinha permissão para trocar de dedos, torres de PisaTrote que consistia em colocar o calouro com o corpo inclinado para a frente, escorando-se numa parede com a testa, e se não for obrigado a aprender algum nome complicado de veterano, através de patinhas de leãoManeira pela qual o nome do veterano era soletrado, enquanto o calouro recebia, para cada letra, uma pancada no peito, dada com as pontas dos dedos unidas.
    Concluída a faxinaAsseio pessoal: banho, escovar dentes, fazer a barba e preparo do uniforme, é hora do rancho. Estamos muito satisfeitos, pois hoje tem mingau de sagú e ovoplast, um ovo estrelado que mais parece feito de plástico e que vem nadando em óleo. Em compensação, o pão terá que ser comido puro, pois na hora da divisão da manteiga, os veteranos deram o tofa-seTermo publicável e pronunciável e que substituia outro com grafia semelhante e cujo significado era de que algo ruim acontecera.
    “Atenção rancho! Rancho à vontade” brada o Chefe de Dia. É chegada a hora da Parada. Mais uma vez, campainha, corneta e o comando: “Batalhão, sentido! Atrasados à ordem”. Seguem-se transmissão de ordens, revista e certamente algumas papeletas Parte de ocorrência por falta disciplinar(brancasO mesmo que PAPELETA, é claro, pois as azuisComunicação de ocorrência digna de elogio raramente são concedidas).
    A campainha soou. É hora do início das aulas. No anfiteatro, um professor com voz tonitroante agride a mesa com os nós dos dedos enquanto grita: “menino!”. Em outra sala, o JabotíApelido de um dos professores tenta fazer graça sem a mínima graça. Para não desprestigiá-lo e aproveitando a chance para uma boa zorra, rimo-nos a valer, jogando livros e outros objetos para o alto ou jogando-nos ao chão. Um terceiro, ao lhe ser indagado se é “envolventeNome de determinada curva em Geometria Descritiva ou evolvente”, responde: “vou perguntar ao Airton”.
    Terminam as aulas do período da manhã e novamente é hora do rancho. Um colega calouro é convidado pelos veteranos a comer nas máquinas ( embaixo da mesa). É humilhante, mas não deixa de ser engraçado (com os outros).
    Um dos pratos é empada, e os veteranos, após se servirem, decidem-se por uma regata. Ela consiste em obrigar cada calouro a enfiar uma empada inteira na boca, empada essa bem maior que as normais, e tentar assoviar. O primeiro que conseguir tem direito a comer uma nova empada. Quanto ao último, só Deus sabe qual será seu castigo.
    “Atenção, rancho! Rancho à vontade”. Os vários veteranos que se encontram junto à porta lateral, agachados atrás das mesas, saem em desabalada carreira para piruarTentar ou candidatar-se a fazer algo a sinuca. Salão de recreio para calouro,nem pensar. Pelo contrário, é bom ficar longe da porta para não ser obrigado a safarResolver, solucionar, retirar, surrupiar a bola sete, quando o veterano estiver prestes a matá-la.
    No pátio interno, vários calouros fazem ordem unida com palitos de fósforos como se fossem fuzís. Outros se atiram ao chão, quando são metralhadosTrote em que os veteranos, ao passar por um grupo de calouros, fingiam estar dando uma rajada de metralhadora, o que obrigava a todos os calouros a se atirarem ao chão por veteranos.
    No Salão de Leitura, cujo acesso aos calouros é permitido a partir de determinada época do ano, a radiovitrola “hi-fi” toca um 78 rotações com Sammy Davis Jr. interpretando “Because of You”. Aumenta a saudade de alguém que está a seis horas de viagem de ônibus pela Serra d’Água, Lídice, Itaverá, Passa Três e Barra Mansa. Afinal de contas, ainda não temos a Rio-Santos.
    Mais um tempo de aula, no qual o sono é quase insuportável. Mas temos de resistir heroicamente.
    Começa o sexto tempo, destinado a atividades práticas e esportivas.
    Um grupo terá aula de voleibol com determinado monitor que a inicia assim: “meu nome se chama-se ..."; "existem dois tipos de quadras de volei: as grandes e as pequenas. Esta, por exemplo, é média”.
    Meu grupo terá defesa pessoal com o Kid MalvadezaApelido carinhosamente atribuído ao professor de defesa pessoal, mas uma forte diarréia deixou-me debilitado. Vou à revista médica e o doutor, após ouvir minhas lamentações, acha que estou me escamandoTentar livrar-se de algo, por meio de mentira, fingimento ou simulação. Mesmo assim, concede-me uma dispensa, e como medicação, receita uma injeção de aplicação intravenosa, para ser aplicada no músculo. A dor é horrível.
    O enfermeiro de serviço é rubro-negro doente e o Flamengo perdeu o último jogo, o que lhe deixou com extremo mal humor .
    Por isso, ele decide se vingar em mim: introduz primeiro a agulha, e, depois, encaixa a seringa. Terminada a aplicação, ele vai cuidar de outros afazeres e esquece a seringa espetada no meu braço.
    Quando resolve retirá-la, o faz por etapas: primeiro a seringa, e, depois, a agulha.
    Ao passar pela quadra de basquete, próxima da cantina, avisto um furgão estacionado junto ao muro que dá para o mar. Segundo o boato que está correndo, trata-se de algum alfaiate que veio fazer a prova do jaquetão e do branco externoO uniforme branco usado em bailes e festas.
    Estamos todos ansiosos para ter, uniformizados, a primeira licença ao Rio: jaquetão e pelerineCapa azul de lã, forrada internamente de cetim, que os alunos eram obrigados a transportar dobrada sobre o braço esquerdo dobrada e estendida sobre o braço.
    Qual será o alfaiate? Casa Pátria? Casa Moraes Alves? Ou será o Antônio Talarida? A decepção toma conta de mim ao saber que meu jaquetãoUniforme azul marinho com botões dourados, usado para licenciamento ao Rio de Janeiro e em outras ocasiões especiais vai demorar um pouco mais. O alfaiate não é o meu.
    Segue-se, então, um período de atividades livres, vindo a seguir o jantar. O cardápio inclui a sopa LavoisierSopa feita com algo que sobrou de outra refeição, geralmente feijão, e cujo nome foi atribuído graças ao famoso Princípio de Lavoisier: "na natureza nada se perde, nada se cria; tudo se transforma", feita com o feijão que sobrou do almoço.
    Durante o jantar, os veteranos aproveitam para nos obrigar a saborear um ponche: mistura de sopa, salada, arroz, azeite, jacubaRefresco e tudo o mais que houver na mesa.
    “Atenção rancho! Rancho à vontade”. Vamos para a ponte de escaleres. Alguns se isolam pensativos e solitários, com saudades da família ou de alguém muito querido. Outros se envolvem num bom papo , tudo isso, é claro, se os veteranos permitirem.
    Voltando ao pátio interno, encontramos trepados em cada poste de iluminação, um ou mais calouros com a missão de soprar as lâmpadas até que elas se apaguem. Mais uma vez, são ordens dos veteranos.
    Agora são 1900 horas e o estudo obrigatório vai começar. Todos às salas de aula, encornômetrosPala verde que se colocava na testa, muito usada por redatores de jornais, a qual, segundo se acreditava, evitava prejuízos à visão durante o estudo noturno na testa, vamo-nos preparar para a prova de álgebra de quinta feira. Estamos certos de que mesmo bem preparados, erraremos várias questões e na hora da revisão de prova vamos ouvir do professor: “tem log ? Tem colog?Abreviaturas de logarítimo e cologarítimo Então não pode”.
    Alguns veteranos aproveitam para fazer suas encomendas de lápis de propaganda e de flâmulas (está na moda colecionar esse material) para serem trazidos quando do licenciamento ao Rio.
    Outros passam suas rifas do relógio da torre do Colégio, da mulher do Comandante e de outros objetos menos valiosos.
    Mas se hoje é dia de cinema, não há estudo obrigatório e a rotina é outra.
    Às 2000 horas, vamos para o ginásio e enquanto aguardamos o início da sessão, ouvimos aquele disco selo MGM, no qual David Rose interpreta de um lado, “An American in Paris”, e do outro, “Tenderly”.
    É possivel que no decorrer do filme, algum aluno escape sorrateiramente do ginásio, para um encontro com uma doméstica atrás do muro das lamentaçõesMuro com as inscrições "Mens Sana in Corpore Sano", localizado junto à quadra de tênis, atrás do qual eram aplicados trotes violentos.
    Chega, finalmente, a hora da ceia. Hoje não haverá mate brochanteBebida feita com erva mate, a qual, segundo se acreditava, reduzia o libido dos alunos. Em seu lugar, será servido um suculento toddy.
    A escolha foi feita pelo Oficial de Serviço, quando lhe comunicaram: “Tenente, o leite estragou”, ao que ele prontamente respondeu: “Não pega nada, faz toddy”.
    Isto traz uma vantagem. Quem fizer um viva a MarinhaTrote que consistia em despejar leite gelado e bem açucarado dentro da manga do uniforme mescla, e mandar o calouro levantar o braço e gritar "Viva a Marinha!". O leite escorria até sair pela perna da calça e, no dia seguinte, o uniforme amanhecia com forte odor de leite estragado, no dia seguinte não estará com o mesclaO mesmo que uniforme mescla, que era o uniforme de uso diário, exceto aos sábados, domingos e feriados cheirando a leite estragado.
    Às 2130 horas começa o toque triste de silêncio, melodiosamente tocado por aquele corneteiro, enchendo-nos de melancolia e saudades. Aumenta a ansiedade pela chegada do dia do licenciamento para o Rio.
    Uns poucos superdotados e outros tantos arvoradosAquele que não tem mais chances de aprovação em determinada matéria e, portanto, não se preocupa em estudá-la vão dormir, até que os veteranos, numa caçada noturnaGrupo de veteranos que durante a madrugada iam ao alojamento dos calouros e os obrigavam, dentre outras coisas, ao banho frio, os acordem para um banho frio. A maioria, entretanto, permanece nas salas de aula, encornômetros em posição.
    São 0600 horas da manhã, fuso Pera, e como hoje é dia de entregar roupa para a lavanderia, ouvimos aquele brado já bastante familiar: “olha o ralO mesmo que ROL, quando pronunciado pelo encarregado da lavanderia! Vamos se acordá! Olha o ral!”, parte de alguém com nome de Almirante famoso, mas que com sua simplicidade e sua humildade, tornou-se muito estimado por todos nós.
    Alguém se dirige à varanda dos alojamentos e pergunta: “Chefe de Dia, haverá ginástica?”.
   ArregoooooExpressão que se usava quando algo se tornava insuportável ou intolerável! Vai começar tudo de novo.

CONCLUSÃO

    Os fatos narrados traduzem, mais que recordações de um tempo que se foi e não volta mais, mais que a experiência de jovens que aos 16 anos deixaram o seio da família e foram submetidos a uma disciplina e a um sistema de vida não muito fácil de aceitar e absorver.
    Representam o início de vida profissional de Oficiais de Marinha que ao longo de mais de 30 anos de serviço, dedicaram-se integralmente à sua carreira de vocação. Doze alcançaram o Almirantado, aspiração máxima de todos.
    Representam, ainda, o nascedouro de uma amizade sólida e desinteressada, tão rara de se encontrar, que se completou com o ingresso dos demais colegas diretamente à Escola Naval e que se prolonga até os dias atuais, envolvendo, também, nossos familiares.
    A Turma Elmo, a exemplo de outras turmas, mas talvez de modo especial, configura um exemplo de camaradagem eterna, que começou há 40 anos e que haverá se prolongar pelos tempos, pois nossos filhos e netos estão a perpetuá-la.
    Se Deus me concedesse a graça de voltar no tempo, eu não teria a menor dúvida: retornaria à gare D. Pedro II e embarcaria com a TURMA ELMO no Trem da Saudade.

GLOSSÁRIO

AMARELOS - peças do uniforme feitas de latão e que exigiam limpeza com líquido apropriado;
ARREGO - expressão que se usava quando algo se tornava insuportável ou intolerável;
ARVORADO - aquele que não tem mais chances de aprovação em determinada matéria e, portanto, não se preocupa em estudá-la;
BASITE - pelo que se ouvia dizer, era um inflamação na base do pulmão causada pelo frio e pela humidade;
BRANCO EXTERNO - o uniforme branco usado em bailes e festas;
CABARÉ - local afastado do centro da cidade de Angra dos Reis, de baixo meretrício, porém um pouco mais requintado que o da Rua Quaresma Júnior, cujo acesso era proibido aos alunos, pelo Comando do Colégio;
CAÇADA NOTURNA - grupo de veteranos que durante a madrugada iam ao alojamento dos calouros e os obrigavam, dentre outras coisas, ao banho frio;
CALISTENIA - ginástica feita pela manhã
CRUZA-REMOS - trote aplicado aos calouros, que consistia em obrigá-los a entrelaçar os dedos esticados, os quais eram, então, apertados pelas extremidades;
ENCORNÔMETRO - pala verde que se colocava na testa, muito usada por redatores de jornais, a qual, segundo se acreditava, evitava prejuízos à visão durante o estudo noturno;
ENVOLVENTE (EVOLVENTE) - nome de determinada curva em Geometria Descritiva;
ESCAMAR - tentar livrar-se de algo, por meio de mentira, fingimento ou simulação;
FAXINA - asseio pessoal: banho, escovar dentes, fazer a barba e preparo do uniforme;
FONOCLAMA - sistema de alto falantes, através do qual eram transmitidos as ordens e os toques de rotina;
FUSO PERA - fuso horário, hoje denominado PAPA;
JABOTÍ - apelido de um dos professores;
JACUBA - refresco;
JAQUETÃO - uniforme azul marinho com botões dourados, usado para licenciamento ao Rio de Janeiro e em outras ocasiões especiais;
KID MALVADEZA - apelido carinhosamente atribuído ao professor de defesa pessoal;
LOG, COLOG - abreviaturas de logarítimo e cologarítimo;
MATE BROCHANTE - bebida feita com erva mate, a qual, segundo se acreditava, reduzia o libido dos alunos;
MESCLA - o mesmo que uniforme mescla, que era o uniforme de uso diário, exceto aos sábados, domingos e feriados;
METRALHAR - trote em que os veteranos, ao passar por um grupo de calouros, fingiam estar dando uma rajada de metralhadora, o que obrigava a todos os calouros a se atirarem ao chão;
MURO DAS LAMENTAÇÕES - muro com as inscrições “mens sana in corpore sano”, localizado junto à quadra de tênis, atrás do qual eram aplicados trotes violentos;
PAPELETA - parte de ocorrência por falta disciplinar;
PAPELETA BRANCA - o mesmo que PAPELETA;
PAPELETA AZUL - comunicação de ocorrência digna de elogio;
PATINHA DE LEÃO - maneira pela qual o nome do veterano era soletrado, enquanto o calouro recebia, para cada letra, uma pancada no peito, dada com as pontas dos dedos unidas;
PELERINE - capa azul de lã, forrada internamente de cetim, que os alunos eram obrigados a transportar dobrada sobre o braço esquerdo;
PINGUIM - outro tipo de trote em que o calouro era obrigado a flexionar parcialmente as pernas, enquanto mantinha os braços dobrados em ângulo reto nos cotovelos e os dedos indicadores de ambas as mãos, apontando para cima. Quando cansava, o calouro tinha permissão para trocar de dedos;
PIRUAR - tentar ou candidatar-se a fazer algo;
PUANA - apelido atribuído a uma senhorita (?), resultante da combinação da última sílaba de seu nome (ANA), com outro termo infelizmente impublicável;
QUARESMA JÚNIOR - rua de Angra onde se situava o baixo meretrício, mais conhecida como ZBM;
RAL - o mesmo que ROL, quando pronunciado pelo encarregado da lavanderia;
SAFAR - resolver, solucionar, retirar, surrupiar;
SAPATILHA - sapatos pretos com sola de borracha, próprios para ginástica, componentes do uniforme de esportes dos Alunos do Colégio Naval e dos Aspirantes da Escola Naval;
SOPA LAVOISIER - sopa feita com algo que sobrou de outra refeição, geralmente feijão, e cujo nome foi atribuído graças ao famoso Princípio de Lavoisier: “na natureza nada se perde, nada se cria; tudo se transforma”;
SOVACO DE COBRA - apelido atribuído a determinada senhorita da cidade, cujo odor axilar era insuportável;
TESTÔMETRO - outro tipo de trote em que o veterano colocava as pontas dos dedos na testa do calouro e determinava que este fizesse força com a cabeça para a frente. O veterano deixava que a cabeça escapasse da ponta dos dedos, indo a mesma, em seu movimento para a frente, chocar-se com a palma da mão do veterano;
TOFA-SE - termo publicável e pronunciável e que substituia outro com grafia semelhante e cujo significado era de que algo ruim acontecera;
TORRADO - o aluno que recebia uma papeleta, em virtude de falta disciplinar;
TORRE DE PISA - trote que consistia em colocar o calouro com o corpo inclinado para a frente, escorando-se numa parede com a testa.
VIVA A MARINHA - trote que consistia em despejar leite gelado e bem açucarado dentro da manga do uniforme mescla, e mandar o calouro levantar o braço e gritar “viva a Marinha”. O leite escorria até sair pela perna da calça e, no dia seguinte, o uniforme amanhecia com forte odor de leite estragado.

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MEMÓRIAS DO ÚLTIMO GOVERNADOR MILITAR
 DE FERNANDO DE NORONHA

Depoimento original do Governador Monteiro


NOMEAÇÃO E POSSE DO PRIMEIRO OFICIAL DE MARINHA

    No primeiro semestre de 1986 - após décadas de vinculação administrativa ao Ministério do Exército (ME), e os últimos seis anos ao Ministério da Aeronáutica(MA), quando então eram nomeados para o cargo de Governador Oficiais daquelas Forças - o Território Federal de Fernando de Noronha (TFFN) passava a ser vinculado ao Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), na gestão do Ministro Almirante-de-Esquadra Amaral.
    Ao assumir aquele Ministério, ainda no mesmo ano, o General-de-Exército Campos Paiva resolveu substituir o Coronel-Aviador Sirotheau, que se encontrava no cargo desde 1984, por um Oficial de Marinha, selecionado entre os Oficiais que serviam no EMFA. O propósito do Ministro era, cumprindo decisão presidencial, transferir, em curto prazo, a vinculação administrativa para o Ministério da Justiça e Interior, quando seria nomeado um governador civil.
    Em 24 de novembro, nomeado pelo Presidente da República Governador e Comandante da Guarnição Militar do TFFN, eu chegava à ilha para iniciar a experiência mais penosa e, ao mesmo tempo, mais gratificante de minha vida profissional.
    Na quadra de esportes da escola do arquipélago, na presença de minha mulher Suely, do Ministro da Marinha AE Henrique Sabóia, do Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais AE (FN) Carlos de Albuquerque, do Governador do Rio Grande do Norte e de outras autoridades militares e civis, recebi o cargo de meu antecessor, destacando no meu discurso a intenção de dedicar-me inteiramente aos problemas da ilha e de seus residentes.

RADIOGRAFIA DA ILHA

    O arquipélago de Fernando de Noronha é um conjunto de vinte e uma ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica, destacando-se as ilhas de Fernando de Noronha, Rata, Rasa, Do Meio, Sela Ginete e Lucena. A única ilha povoada é a primeira (capital Nossa Senhora dos Remédios), com uma extensão aproximada de 26km2, e distante 356km de Natal, 545 de Recife e de Dakar 2600km.
    As duas visitas que anteriormente havia realizado à ilha - na primeira como representante do Ministro Amaral, integrando o Destacamento Precursor da Presidência da República, para os preparativos da visita do Presidente Sarney e, na segunda, já virtualmente Governador, integrado na comitiva do Ministro Campos Paiva, para o primeiro contato com o mandatário exonerado, e as Altas Autoridades Militares da Região - aliadas ao conhecimento dos relatórios existentes no EMFA, permitiram-me antever, antes de receber o cargo, a situação precária dos recursos disponíveis e das dificuldades de toda a ordem que iria enfrentar tão logo desembarcasse no Território.
    O meio ambiente bastante comprometido, devido à ocupação sem consciência ecológica e à falta de recursos adequados ocorridas ao longo de muitos anos.
    As trepadeiras "tiririca" e "jitirana" e outras espécies de plantas trazidas do continente se estendiam por várias áreas, causando sérios danos à vegetação primitiva da ilha.
    A avifauna ameaçada pelo teju (lagarto grande do Nordeste), que ali colocado para combater as ratazazanas e catitas (pequenos roedores), preferiu alimentar-se de petiscos mais nobres: ovos e filhoes de aves.
    De pouca diversidade, a fauna marinha sofrera no passado pesca indiscriminada, sendo atualmente proibida a pesca submarina. O santuário do golfinho rotador, localizado numa pequena enseada da ilha, onde também se encontram formações de corais, vinha sofrendo constantes violações por embarcações e mergulhadores; a Praia do Leão, local de desova das tartarugas verdes (espécie em extinção), era frequentada por turistas durante todo o ano.
    Com excessão do prédio desativado onde funcionou, em tempos idos, o Quartel do Exército, e de uma pequena casa petencente à Marinha, atual residência do gerente do Banco Real, todos os bens imóveis da ilha - inclusas as 220 residências dos ilhéus, o Palácio do Governo e algumas instalações administrativas - eram de propriedade do Governo. A maioria apresentava péssimo estado de conservação, necessitando obras de recuperação e/ou manutenção. O único hotel da ilha, ocupando antigos galpões construídos pelos norte-americanos durante a 2a. Guerra Mundial, estava arrendado a uma emprêsa de turismo de Recife.
    As salas de aula da escola, assim como o Clube das Mães haviam sido demolidos, e as obras de ampliação do açude paralizadas, com o retorno ao continente dos técnicos e operários.
    Os equipamentos pesados de engenharia pertencentes à Aeronáutica também haviam sido retirados da ilha, restando tão somente algumas viaturas administrativas e algumas viaturas pesadas, a maioria inoperante, com mais de cinco anos de uso e em péssimo estado de conservação.
    A população, constituída em sua maioria de jovens, estimada em 1200 habitantes, formava uma sociedade atípica, que gozava de privilégios jamais encontrados em nenhum recanto do país - residência, serviços públicos (água, luz e telefone), assistência médica e educacional e transporte aéreo para o continente totalmente gratuitos.Quase todas as famílias dispunham de fogão à gás, geladeira, freezer, rádio, televisão, video-cassete e ventilador. Os adultos, em sua maioria, faziam parte do "quadro de funcionários" na categoria de servidores públicos federais vinculados aos Ministérios Militares, não sendo raro presenciar-se de manhã jovens ilhéus, com seus cabelos parafinados, surfando nas praias, e, à noite, ensinando aos turistas a dança da lambada no bar do hotel.
    Embora cerca de 170 ilhéus se dedicassem a alguma atividade agropecuária, sem nenhuma orientação técnica, em verdade apenas 30 cultivavam áreas significativas, plantando milho, mandioca, feijão, e/ou criando suínos, caprinos, ovinos e galinhas.Conquanto a região circunvizinha não fosse piscosa em termos de atividade econômica, onze pescadores se dedicavam esporadicamente à pesca de rêde em alto-mar.
    O Território não possuia os Poderes Judiciário e Legislativo , nem tampouco uma organização administrativa e um quadro de pessoal próprios aprovados pelo Governo Federal, à excessão dos cargos de Governador e Secretário Executivo. Desse modo, os governadores adotavam uma estrutura organizacional interna que melhor lhes permitissem, com o pessoal militar disponível (nos governos anteriores com 20 Oficiais e 150 Praças) dirigir e coordenar os diversos setores administrativos guarnecidos por 320 servidores civis, via de regra, com pouca ou nenhuma capacitação profissional, fruto do paternalismo exacerbado de governos anteriores.
    Ainda que a passagem de responsabilidade de supervisão administrativa do MA para o EMFA houvesse ocorrido vários meses antes da mudança do governo, ainda na gestão do AE Amaral, a nova guarnição constituída de militares das tres Forças não havia chegado à ilha. A Aeronáutica, esgotado o prazo previsto no cronograma de movimentação, já havia retirado do Território mais da metade do efetivo, inclusive todos os médicos e dentistas do hospital, e os poucos militares que ali permaneciam se encontravam em trânsito, estando a administração praticamente entregue aos civis.
    O Escritório de Representação do Território em Recife, chefiado por um Oficial Intendente, constituia uma verdadeira base de apoio logístico, providenciando a aquisição e remessa de gêneros alimentícios, materiais de construção, combustíveis, gás e artigos de toda a espécie para a ilha.
    O transporte entre o continente e o Território era realizado por aeronaves da FAB e pelo avião a jato da VASP, que aos sábados trazia e levava para Recife uma média de 80 turistas do pacote turístico. A programação mensal de oito viagens de aeronaves de carga C-130 e BUFALO, em vigor há vários anos, fora reduzida drasticamente; a disponibilidade do avião AVRO que quinzenalmente transportava 30 passageiros para Recife e 4 para o Rio de Janeiro também diminuíra mais da metade.
    No tocante ao transporte marítimo, a corveta ou o rebocador da Marinha prestava apoio a cada dois meses, transportando carga geral e principalmente combustíveis e gás engarrafado.A falta de um porto dificultava sobremaneira a faina de desembarque, que se iniciava com o transbordo da carga para uma pequena embarcação de desembarque, e o lançamento de mangueiras e mangotes flutuantes para a descarga dos combustíveis (óleo Diesel e gasolina), a partir de um fundeadouro localizado a mais de cem metros da praia.
    Ainda que a distância para Natal fosse menor, as aeronaves e os navios demandavam a ilha partindo de Recife, pois nesta praça as facilidades administrativas, de comércio e de apoio eram bem mais significativas e diversificadas.

INICIO DO NOVO GOVERNO

    No primeiro dia, a equipe de Governo estava constituída do Governador, do Secretário Executivo, Tenente-Coronel Samary (Oficial voluntário que servia no EMFA e lá chegou comigo), do engenheiro Justo, antigo funcionário que se encontrava banido do Território, do Encarregado do Pessoal Civil, Sr. Wilson, antigo morador da ilha, do Chefe do Escritório de Representação, Major Gadelha, que aguardava a chegada do Capitão-Tenente (IM) Angelo (Oficial que estava servindo no Comando Naval em Brasília e era tesoureiro do ClubeNaval, e de algumas Praças da Aeronáutica selecionadas para reassumirem as chefias de postos-chave: usina termo-elétrica, estação de tratamento de água, garage, hospital, super-mercado, etc.
    Critérios e procedimentos novos foram imediatamente adotados em vários setores da administração, destacando-se entre outros:
        -adoção do uniforme interno de campanha ou correspondente para o Governador e todos os militares durante o expediente, visando melhorar a disciplina e o melhor enquadramento da equipe de Governo quepassava a lidar exclusivamente com assuntos civis, visto que a Guarnição Militar jamais chegou a ser ativada de fato - não havia mais Quartel, nem efetivos de pessoal compatíveis, e nem tampouco armamento, munição e equipamentos; todavia, já no continente, mormente em visitas às autoridades militares, para não ser tratado como simples Oficial Superior, o Governador trajava passeio completo;
        - adoção de medidas de higiene e limpeza permanentes no estábulo e no super-mercado, antes verdadeiras pocilgas;
        - distribuição diária da pequena produção de leite, com prioridade de atendimento para crianças e idosos (a prioridade até então era para os Oficiais, suas famílias e alguns bichinhos de estimação);
        - venda de gêneros alimentícios no super-mercado, mediante senha , que estipulava horário de atendimento e quantidade proporcional ao número de pessoas da família (outrora, todos os militares compareciam ao local tão logo chegavam as mercadorias, adquirindo para estoque a maior parte dos produtos, destinando-se as sobras para a população civil);
        - proibição da exibição de filmes pornô no cinema, prática que vinha sendo incentivada, e com entrada de menores permitida, devido à queda de frequência, com a chegada à ilha da TV via satélite;
        - controle rigoroso de entrada e saída de pessoal na ilha, não se permitindo a permanência do turista por mais de uma semana, nem tampouco a vinda de pessoas para residirem com seus parentes;
        - controle rígido da estadia de veleiros, principalmente estrangeiros, que aportavam à ilha com grande frequência, sendo proibida a aquisição de gêneros alimentícios e bebidas no super-mercado;
        - adoção de rigoroso critério para o embarque e o retorno dos habitantes em aeronaves para Recife, obedecendo à ordem de inscrição na fila de espera, com prioridade para o pessoal em serviço ou necessitando de atendimento médico no continente.
    A fim de minorar a carência de serviços médicos, o Governo usou o ardil de convidar para jantar na residência do Governador turistas médicos e dentistas que prestassem atendimento de emergência à população; um jovem dentista da Marinha trocou a hospedagem gratuita na ilha durante quinze dias por prestação diária de serviços no hospital.
    Para reduzir o tempo de descarga geral no porto, adotou-se uma organização de pessoal similar à do Destacamento de Praia dos Fuzileiros Navais, estabelecendo-se equipes mistas de civis e militares para as fainas de desembarque; nessas ocasiões, o Secretário Executivo comparecia à praia, para apresentar as boas-vindas ao Comandante e convidá-lo para almoçar com o Governador, procedimento idêntico instituído também no aeroporto, por ocasião da chegada dos aviões da FAB. Antes, a desordem na praia e a ausência de um Oficial para receber o Comandante do navio, suscitara a ameaça do Comandante do 3º Distrito Naval de cortar o apoio dos navios da Marinha.
    Contudo, o maior desafio e preocupação eram as obras de maior urgência que deveriam ser iniciadas antes da chegada da estação das chuvas em fevereiro, quando, então, se tornaria impraticável o trânsito de viaturas pesadas nas estradas da ilha:
        - reconstrução de dez salas de aula e uma biblioteca demolidas anteriormente, por razão desconhecida, a fim do ano letivo ser iniciado sem atrazo;
        -retomada das obras de ampliação do açude do Xaréu, principal fonte de abastecimento de água.
    Resolveu o Governo tocar as obras com o pessoal da ilha, convocando os poucos e antigos funcionários que exerciam funções de carpinteiro, mestre-de-obras, pintor e mecânico de viaturas para, sob a direção do engenheiro Justo, iniciarem a reconstrução da escola e a recuperação das viaturas de engenharia .
    Como as obras do açude - uma barragem de 150 metros de extensão que deveria ser alteada em 3 metros e sua parede externa forrada de areia, pedras e grama - exigissem conhecimento té