Romances
& Memórias
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Cândido
Annibal - Nos Bastidores da Torcida
Barroso - Inverno de 2004
Barroso - Inverno de 2005
Boavista - Perigoso
Agente Secreto
Brandão - A
Mala Marrom
Gilberto Pereira - Nasce
a Turma Elmo
Monteiro - Memórias do Último
Governador Militar de Fernando de Noronha
Roberto de Oliveira - Quem Matou Nicanor?
Conto saudosista do Annibal
João Cândido, da mesma forma que seu
homônimo responsável pela Revolta da Chibata, era um marujo
como tantos outros. Além do nome e da profissão em comum,
esse João, que bem conheci, também levou suas chibatadas,
mas nem por isso entrou para a História. Quando muito, será
recordado por uns poucos que lerem esta narrativa e que com ele também
conviveram. O chicote que o atingiu não deixou marcas na pele; era
um chicote como que virtual, brandido pela vida e pelas circunstâncias,
por mãos severas, talvez por demais severas. As marcas em João
Cândido, só Deus sabe o quanto e onde ficaram gravadas.
O João de que falo teve sorte no início
de sua carreira. Saído da escola de aprendizes, embarcou como grumete
em um navio relativamente novo, eficiente, e - isso é importante
- um navio muito feliz. Essa felicidade existia, logicamente, em função
do permanente estado de espírito então existente no seio
de sua tripulação. Trabalhavam em um ambiente onde a disciplina
e a camaradagem transitavam facilmente pelos conveses, habitavam as cobertas
e conviviam mesmo nos porões. Era assim como uma espécie
de grande família, só que unida pelo acaso, se é que
o acaso acontece. Podia existir até mesmo uma ou outra ovelha negra,
como, aliás, costuma acontecer em qualquer boa família, mas
nada que impedisse viver as rotinas e fainas do dia-a-dia com a alma em
festa. Na verdade, tudo isto não implica em dizer que aquele navio
era uma exceção. Creio mesmo que, graças a Deus, as
exceções sempre ficaram com os exemplos ao contrário.
Talvez fôssemos apenas um pouquinho mais descontraídos e perseguíssemos
com maior empenho o lema de "alegria no porto e eficiência no mar".
Lembro-me perfeitamente da figura de Cândido
(esse era seu nome de guerra) chegando entre outros quatro ou cinco grumetes
da mesma turma, quando de sua apresentação a bordo. Vejo-o
subindo a prancha, jeito assustado, naturalmente perplexo ante a rápida
evolução dos fatos que o traziam em curto espaço de
tempo do interior da Bahia para o Cais Norte do Arsenal, onde as linhas
de navios a contrabordo balouçavam em um misto de labirinto e pista
de obstáculos. Um metro e sessenta centímetros de altura
aproximadamente, corpo magro, mulato de cabelos crespos, rosto redondo
marcado pelas bexigas e cortado por um sorriso largo, onde sobressaiam
dentes grandes e amarelados. Um sorriso que seria, até onde me lembro,
uma de suas marcas registradas. O caxangá novo de tamanho exagerado,
a cobrir-lhe a cabeça até as orelhas, e o saco de viagem
jogado sobre as costas, completavam a figura, a mais antiga que dele restou
em minha memória, retratando-o naquele dia em que o recebi na tolda.
Se havia alguma natural insegurança daquele
marujo ao iniciar sua carreira naval, vinha ela acompanhada de uma intensa
curiosidade sobre tudo que dissesse respeito ao navio, e satisfazer aquela
curiosidade tornou-se para ele um motivo de contínua atividade.
Quis a sorte que ele fosse designado para a minha divisão onde,
rapidamente, passou a sentir-se à vontade, como se ali tivesse vivido
toda sua vida. Em primeiro lugar, por sua imensa facilidade em fazer amigos;
em segundo, porque, sendo a divisão de reparos, esta lhe dava ampla
oportunidade para o desenvolvimento de seus dotes naturais na lida com
todo aquele extenso leque de atividades técnicas. Designado inicialmente
para o grupo da aguada, logo se familiarizou com os tantos tanques, redes,
válvulas e bombas existentes, bem como com as manobras envolvidas.
E de tanto se embarafustar pelos porões, ainda que por pura curiosidade,
tornou-se, da mesma forma, íntimo dos demais sistemas e redes. Transcorrido
pouco mais de um ano, já então promovido a marinheiro de
segunda classe, revelava-se também um excelente artífice,
manejando com desenvoltura o torno mecânico, a solda elétrica
e o maçarico. Tornou-se, assim, uma espécie de curinga, encaixando-se
nas fainas especiais ou em quaisquer outras de rotina, conforme lhe fosse
determinado, ou mesmo como voluntário, pelo simples prazer de participar.
Dos mais antigos e experientes ia então absorvendo conhecimentos
que as mãos hábeis e a inteligência viva transformavam
em trabalho útil e de qualidade.
Não seria necessário dizer que João
Cândido conquistou merecidamente um lugar de cochado do encarregado
da divisão, do chefe de máquinas e, ao final das contas,
de praticamente todos os mais antigos a bordo. E só não havia
unanimidade entre as praças porque havia naturalmente alguns casos
de inveja, via de regra, gerada pela menor competência do invejoso.
Na verdade, para ser justo, não posso afirmar que Cândido
fosse um marujo padrão em todos os sentidos. Da mesma forma que
a maioria de seus companheiros, também tinha aquele dia em que,
por esse ou aquele motivo, aparecia na parada com a barba por fazer, ou
na formatura de licenciados com o uniforme um tanto amarfanhado, nada porém
que não ficasse resolvido com uma pequena reprimenda, acompanhada
de um prazo razoável para as devidas correções. Lembro-me
em especial de uma ocasião que encontrei-o na formatura de licenciados
em atitude um tanto estranha. Os colegas próximos mal podiam conter
o riso, enquanto ele, como que se escondendo na terceira fileira, mais
sério do que lhe era próprio, tinha no rosto aquela expressão
suspeita de quem tenta ocultar alguma coisa. Não foi necessário
muito esforço para que se descobrisse o problema: os sapatos de
João Cândido estavam em estado verdadeiramente lastimável;
e quando lhe foi ordenado que saísse de formatura, deixaram carimbadas
no convés duas manchas pretas e viscosas de óleo. Entre os
risos então incontidos, seguiu-se a explicação dos
fatos: o marujo, convocado repentinamente para uma faina de limpeza no
porão, esquecera de trocar os sapatos. Naquele dia, Cândido
não baixou terra na primeira licença, mas não deixou
de fazê-lo na segunda, após o intendente, de quem também
era cochado, conseguir-lhe no paiol de fardamento um par de sapatos novos.
Também entre a guarnição aquele
marujo era muito estimado. De outra feita, um reconhecido "vida-torta"
aprontou das suas e pôs nele a culpa. Não me recordo agora
quais foram exatamente os fatos, mas era coisa séria, assunto de
serviço. Cândido resolveu fazer seu acerto de contas ali mesmo,
cobertas abaixo, com apoio unânime de todos os presentes, deixando
o adversário com algumas equimoses. Ao tomar conhecimento do ocorrido
pelo relato informal de um cabo-velho que se divertira com o fato, vi-me
na contingência de tomar as providências legais pertinentes.
Recebi porém tal volume de intervenções em favor de
João Cândido que resolvi aguardar que a "vítima" se
manifestasse primeiro; e como não o fez, para felicidade de todos,
deixei o assunto ser esquecido. Cumpre considerar, nesta oportunidade,
que tal tipo de "justiça" cobertas abaixo era naturalmente uma exceção.
Contudo, em situações especiais, se contrariava o aspecto
legal, deixava, em compensação, o moral da guarnição
mais elevado...
E a vida a bordo prosseguia em sua rotina, inclusive
com as inevitáveis mudanças de pessoal. Também desembarquei,
tempos depois, bem me lembro, em um tórrido dia de dezembro, entre
o Natal e o Ano Novo. Cursos e novas comissões se sucederam, até
que, ao ser designado para uma delas, julguei da conveniência de
levar comigo João Cândido para prestar sua colaboração.
Do antigo marujo, eu nada sabia agora. Imaginei-o já especializado,
talvez promovido a sargento. Na verdade, eu necessitava de alguém
com aquelas características de "curinga", certamente já bem
mais experiente e pronto a assumir umas tantas fainas que eu teria para
lhe confiar. Saber o paradeiro de Cândido não foi, porém,
tarefa das mais fáceis. Para minha surpresa, vim a descobrir que
o marujo havia sido desligado do serviço ativo, por motivos disciplinares,
cerca de dois anos após a minha saída do navio.
A continuação desta estória,
a partir deste ponto, já não conta com o meu testemunho pessoal.
Obtive-a em partes não muito precisas, de uns poucos que puderam
recordá-las. Muitos dos detalhes que me foram então narrados
deixo agora de lado, por não dizerem respeito diretamente a João
Cândido. Considero porém conveniente citar alguns fatos que
permitam ao leitor visualizar o ambiente em que se passaram.
As mudanças de pessoal ocorridas a bordo
haviam incluído uma passagem de comando e, a partir daí,
alterou-se radicalmente o antigo espírito então reinante
no navio. O rigor disciplinar foi levado a extremos, gerando medo e insegurança.
Os extremados, os radicais, inimigos naturais do bom senso, sempre trouxeram
mais problemas que soluções. E assim, a rotina diária
veio a perder o encanto, fecharam-se os sorrisos, as fainas se tornaram
pesadas, o navio entristeceu. Perderam-se as alegrias no porto, desvaneceu-se
a eficiência no mar. Contam que enquanto alguns procuravam motivos
para ausentarem-se de bordo "a serviço", como recurso para alívio
das pressões reinantes, outros optavam por desaparecer pelas entranhas
do navio. Aparecer era sempre um fator de risco... Mas talvez o fato mais
significativo então ocorrido tenha sido, segundo consta, um certo
brinde levantado em "comemoração" ao grave mal súbito
de que fora repentinamente acometido o responsável por tantos dissabores...
A esta altura, porém, João Cândido
já tivera seu destino traçado. Em meio a tantas pressões,
resolvera ele se apaixonar. Creio que sua eleita morava lá pelos
lados da Baixada Fluminense, onde residia um amigo mais chegado que o recebia
para os fins-de-semana. E se a vida a bordo já não oferecia
a paz necessária, em compensação, o repouso nos braços
da amada, por certo, em muito superava suas expectativas de felicidade.
Na verdade, não creio que seu dia-a-dia a bordo tenha sofrido grandes
alterações. O trabalho sempre lhe fora motivo de prazer,
e bastariam alguns cuidados a mais para sobreviver incólume à
tempestade ali reinante; e teria sobrevivido, como outros bem o souberam
fazer, não fosse a angústia que se seguiu à paixão.
Não sei por quanto tempo durara aquela felicidade do marujo em terra,
mas o fato é que acabou sendo traído e abandonado pela namorada,
perdendo-se profundamente nessa nova tormenta.
Não quero considerar aqui se João
Cândido foi um forte ou um fraco. Naufragou, é verdade, em
dupla tempestade, açoitado pelo vento repentino da desilusão
afetiva, em momento em que estava longe de um porto seguro. Não
encontrou mãos que lhe lançassem um salva-vidas, até
porque, todas as mãos a bordo deveriam estar mais preocupadas em
remar pela própria sobrevivência. E o marujo, abandonado à
própria sorte, seguiu à deriva, incidindo no velho engano
de procurar no fundo do copo a balsa salvadora que jamais o manteria à
superfície. Procuro imaginá-lo naquela sua derradeira audiência
disciplinar, perfilado com a mão direita colada à coxa, o
caxangá apoiado sobre a mão esquerda espalmada, os olhos
baixos, humildes, como num pedido não pronunciado de desculpas,
o coração magoado. Mas não é fácil vê-lo
assim; a cena é incompatível com minhas memórias.
Por onde andará agora João Cândido?
Sua saga deve ter naturalmente continuado por aí, longe de nossa
vista. Espero que, em sua deriva, possa ele ter chegado a alguma praia
abrigada e lá, ao menos, encontrado um novo amor, de mãos
tão hábeis quanto as suas, capazes de pensar-lhe as feridas
que restaram. Seria um bom epílogo para sua história, até
agora tão desprovida de heróis ou vencedores; e uma história
só de perdedores sempre dá o que pensar. Ao menos, para que,
alhures, não venha a ser reescrita.
Anníbal (amorfo assumido) conta como marcou um golaço
Mas, ter a Miss Brasil apenas como madrinha da nossa torcida
lá no Maracananzinho não bastava. Era necessário mostrá-la a todos, colocá-la em
evidência e, assim, tripudiar sobre a torcida adversária. Para isso, nada melhor
que uma entrada apoteótica, com o estádio às escuras e os refletores dando
destaque à nossa Miss, em toda sua elegância e beleza. Fácil de imaginar,
mas difícil de executar. Obter uma autorização oficial para isso estava
totalmente fora de cogitação, restando-nos apenas apelar para uma operação
surpresa, naturalmente clandestina.
A tarefa ficou sob a responsabilidade do Grêmio de Rádio, que
congregava um grupo de aspirantes mais chegados às aventuras pela área
tecnológica. A primeira providência consistiu em visitar as instalações do
estádio para estudo da área, suas possibilidades e limitações. Logo verificamos
ser imprescindível a colaboração dos funcionários locais, particularmente os
eletricistas que operavam os dois canhões de luz a arco-voltaico e o encarregado
da estação de força. Nada, porém, que uma boa conversa e uma pequena gorjeta não
resolvesse...
Nosso planejamento previa uma rede de comunicações interiores
interligando os canhões de luz, a casa de força no subsolo e o local por onde a
Miss deveria chegar à arquibancada. A tecnologia da época deixava-nos, como
única opção, estabelecer um circuito de telefones auto-excitados, com os quais
já havíamos adquirido intimidade nas viagens de instrução. Mas a EN não dispunha
desses telefones, e foi necessário que um oficial do Corpo de Aspirantes os
obtivesse particularmente por empréstimo com um colega seu do Cruzador Barroso.
Fui buscá-los a bordo e recebi-os das mãos do então Capitão-Tenente Bernard
David Blower, acompanhados de uma série de recomendações quanto aos cuidados que
deveríamos ter com o equipamento. Ele não poderia adivinhar que, ao chegar à
Escola, a primeira providência seria cortar fora os punhos dos cabos, para
permitir mais fácilmente a conexão dos aparelhos à nossa rede...
Evidentemente, os punhos foram devidamente ressoldados antes da devolução.
Na hora do evento, tudo correu exatamente como planejado. À
chegada da Miss Brasil e sua escolta de aspirantes foi dado o sinal e, no
subsolo do estádio, botei a baixo os disjuntores do circuito de iluminação,
enquanto os canhões de luz davam destaque ao seu alvo. Seriam apenas alguns
segundos, que se tornaram um pouco mais longos do que o planejado porque eu
havia saído do meu posto no subsolo para ver o efeito da nossa aventura. Voltei
correndo, atendendo aos gritos do eletricista de plantão que já estava sendo
chamado pelo telefone para explicar a ocorrência.
Na verdade, não lembro agora que ganhou o jogo mas, na guerra
das torcidas, a vitória sem dúvida foi nossa. Houve alguns protestos por parte
dos organizadores dos jogos, mas não chegaram a nós.
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Barroso narra uma visita sentimental à suas origens
Tendo mudado de Passa-Quatro, pequena cidade do sul de Minas
Gerais, situada na Serra da Mantiqueira, no início da década dos anos 50 do
século passado, voltei, quando ainda jovem, várias vezes ao meu rincão natal.
Todavia, ao transferir-me para o Rio de Janeiro, em 1957, depois de ter morado
durante 4 anos em Taubaté, no Estado de São Paulo, poucas vezes a visitei.
Lembro-me que nessas oportunidades, servia-me do transporte
ferroviário, muito comum naquela época e que tinha um encanto especial. O
circuito Rio, São Paulo, sul de Minas até São Lourenço, era coberto pelas linhas
de trem. As estações da estrada de ferro viviam o seu apogeu de movimento e o
povo nelas regurgitava, quando o trem ali parava.
Quando chegava a Passa Quatro, tomava uma charrete no pátio
da estação e ia para a fazenda do meu avô Arthur, a “Fazendinha”. Nela, junto
com meus primos, principalmente o “Tutuca”, meu amigo mais chegado, passava umas
férias muito boas. Seus pais, tios Tonico e Ritinha, meu avô, “Babá” - minha tia
avó - e toda a família me tratavam muito bem. Bebia leite de vaca tirado na
hora, brincava nos pastos, no pomar, no grande pátio da casa grande, jogava
futebol e à noite, após o jantar, invariavelmente, ia a pé até a cidade. Lá,
encontrava-me com outros conhecidos e algumas vezes ia ao cinema local. O Cine
Regnier, bela casa de espetáculos, foi construída pelo francês de mesmo nome,
que encantando-se com a cidade nela permanecera, construindo não só o cinema,
como também um hotel, próximo da Estação da Estrada de Ferro.
Essas reminiscências me vêm a mente, porque neste inverno de 2004 resolvi
retornar a Passa Quatro, como fiz na mesma época no ano passado, e pretendo
repetir cada ano daqui para frente, depois de mais de uma década sem lá ir, e
rever mais pormenorizadamente, as paisagens de minha infância e com elas tia
Conceição a irmã mais moça de minha mãe Iracema, a última que permanece viva, de
todos os seus irmãos e irmãs. Ela representa para mim o elo final de uma
história familiar que engloba muitos acontecimentos e relacionamentos e que está
chegando ao seu final, pois minha tia “Ceição”, como é, carinhosamente, chamada
por todos, tem hoje já 84 anos de idade.
Como Marcel Proust, parece que estou também numa fase de “em
busca do tempo perdido”, fase essa em que aproximando-me já dos 70 anos
vislumbro no horizonte nebuloso, porém não distante, a etapa final dos meus
dias.
Assim, numa quinta feira de julho, dia 8, junto com minha
prima Gláucia Miriam, filha dos tios Joaquim e Guilhermina, parti de carro, do
Rio de Janeiro, as 12:00 horas, rumo ao sul de Minas. O roteiro incluía Itajubá,
Passa Quatro e também Cruzeiro/SP.
Em Itajubá iríamos visitar nossa prima, a freira Irmã Maria
Alice, filha dos tios Dr. Castro e Elisa, de nome Niza, antes de entrar para o
Convento. Lá chegamos as 18:00 horas, depois de percorrer 438 km de estrada, com
uma parada em Rezende, onde almoçamos.
Dessa minha prima, tinha uma recordação muito terna, pois
guardo comigo até os dias de hoje, uns santinhos com dedicatórias carinhosas
suas, datados de 1937, 1944 e 1947, quando ela era ainda muito jovem (levei
comigo essas lembranças e as mostrei para ela) . Recentemente, ela havia tido um
derrame, e a visita era motivada por esse fato e também pelo afeto que lhe
dedico, embora, conscientemente, essa seria a segunda vez que a veria em toda a
minha vida.
Fomos, eu e Gláucia muito bem recebidos pelas freiras e com
elas jantamos naquela noite. Ali revimos até algumas delas dos tempos de Passa
Quatro, quando controlavam o Colégio Nossa Senhora Aparecida, onde minhas irmãs
estudaram, uma delas, a Irmã Emiliana , ainda do tempo que freqüentei esse
educandário (com 5/6 anos de idade). Conversamos bastante com Niza, numa sala
reservada, rememorando figuras e fatos da família. Ela se encontrava em processo
de recuperação, mas me pareceu muito bem, mantendo perfeitamente sob controle
seus processos mecânicos e mentais. Ela agradeceu muito nossa visita,
compreendendo que tínhamos feito um certo esforço para isso, embora eu e Gláucia
tenhamos realizado essa viagem, voluntariamente e pela satisfação de revê-la. Às
20:00 horas nos despedimos, abraçando-nos e nos retiramos do Convento,
dirigindo-nos então para Passa Quatro, onde chegamos as 23:00 horas.
Enfim estava em Passa Quatro, minha terra natal!
Ninguém foge às suas raízes. Parece que algo nos prende ao
nosso chão primeiro.
A noite estava fria e, aceitando o gentil convite de Gláucia,
pernoitei em sua casa. Essa casa me traz recordações. Tio Joaquim ia ao cinema
diariamente e aos domingos freqüentava a igreja do Colégio Nossa Senhora
Aparecida, que ficava na avenida Cel. Ribeiro Pereira, local mais próximo de sua
residência. Tia Guilhermina era muito doce e a casa onde eles moravam era algo
encantado para mim. Lembro-me de uma vez, um domingo, com muita vontade de ir ao
cinema, mas sem um tostão no bolso, enchi uma cesta de verdura, apanhada na
horta de minha casa e fui “presentear” tia Guilhermina. Ela, muito bondosa e
perspicaz, agradeceu a “gentileza” e deu-me em troca algumas moedas que aceitei
prontamente e que me propiciaram a ida tão sonhada ao cinema naquele dia...
Dormi muito bem e no dia seguinte, após o café da manhã,
enquanto Gláucia providenciava algumas tarefas caseiras, resolvi sair, a pé,
pela cidade e rever alguns sítios.
Dirigi-me, primeiramente, à avenida Cel. Ribeiro Pereira, em
cujo número 1 havia morado há mais de meio século e pisei a calçada, ainda
cimentada, da Santa Casa e do Colégio Nossa Senhora Aparecida, de onde caminhei
em direção à rua do Vinagre. Em frente ao colégio, parei para olhar uma das
portas de entrada, onde do lado de fora, sentado numa espécie de banco de pedra,
eu ficava horas esperando que a freira responsável assinasse o livro que meu
pai, Oswaldo, inspetor escolar federal, me encarregava de entregar,
periodicamente para tal procedimento. Quem me atendia sempre e apanhava o livro
era uma senhora chamada D. Elisa. Seus cabelos eram grisalhos e enrolados em
tranças grossas pela parte superior e posterior da cabeça. Era muito educada,
silenciosa, mas me deixava sempre do lado de fora da tal porta...
Pela rua do Vinagre caminhei, observando as casas. A mais
bonita, junto ao muro do colégio, pertencia aos Borges, uma família de
portugueses ricos que trabalhavam com fumo, na época áurea desse produto, na
primeira metade do século vinte. Nas demais, recordei a casa do José Orlando,
casado com uma antiga empregada negra da fazenda do meu avô e cujo filho, o
Oswaldão, esteve na guerrilha do Araguaia, onde morreu nas mãos do pessoal do
Exército. Em minhas andanças pelo Pará, por desígnios de Deus, estive na década
de 80 em Xambioá/GO e São Geraldo do Araguaia/PA, justamente onde tal fato
aconteceu. O Oswaldão tinha sido meu amigo de infância, quando brincávamos
juntos de cavalinho de pau e jogávamos futebol. Recordei também as casas do
Francisco e do Gotardo, filhos de tia Inácia, que fora casada, em segundas
núpcias, com meu bisavô Joaquim Tibúrcio Pinto., pai da minha avó Leonor.
Retornando à avenida, nela caminhei, observando as casas e
seguindo em direção ao seu final, até o rio. Passei pela casa do Pedro Primo,
pai de Edinho e Carlos (este, já falecido, ainda muito moço), amigos de
infância. Relembrei que esse era o caminho que fazia, diariamente, quando me
dirigia ao Ginásio São Miguel, dos padres betharamistas, onde fiz todo o
ginasial. Andando pela calçada, ia pensando que para mim, nesse momento, ele
era, de certa forma, o verdadeiro Caminho de Santiago, famoso percurso europeu,
percorrido pelos peregrinos, há mais de 1.000 anos, vindos do norte, do sul e do
leste para alcançar Santiago de Compostela na Espanha, onde refletem sua
existência e repensam suas vidas.
Ao me aproximar do rio, lembrei-me, em especial de uma casa,
uma bela casinha, com varanda em arco um tanto assimétrico, na qual, nos idos de
1951/52 foram lá morar dois jovens recém casados. A casa era pintada de rosa e o
casal parecia muito feliz. Essa imagem me ficou gravada e foi com grande
satisfação que a identifiquei, naturalmente, pela sua varanda de arco
assimétrico...
Já próximo ao final da rua e do rio, resolvi atravessar a
ponte da Estrada de Ferro que conduz até o Ginásio São Miguel e pisando a
estrada de chão, junto aos trilhos da ferrovia, fui me aproximando da escola.
Cada passo me remetia ao passado, quando vestido de uniforme cáqui, de bicicleta
ou a pé, freqüentava as aulas do curso ginasial.
Esse não era o caminho original do meu trajeto diário, pois
antigamente o caminho era mais afastado dos trilhos e a ponte era de madeira,
para passagem de pedestres e veículos e que foi arrastada pelas águas, durante
uma das enchentes que aconteceram em Passa Quatro. De qualquer forma, o caminho
atual é muito semelhante ao de outras eras, onde eu transitava.
Ao chegar às portas do colégio, dirigi-me ao campo de
futebol, onde jogava as minhas partidas, geralmente aos sábados/domingos com
meus colegas, dos quais, muito especialmente, me lembro do Joércio Grecca.
Jogávamos ambos na defesa, pois éramos os dois “backs” do time.
Olhei demoradamente o campo e estranhando a posição das
traves, observei que o antigo campo não era esse que eu estava olhando, mas sim,
o de traves mais velhas, transversal ao objeto de minha primeira olhada. Andei
pelo campo, pisei sua grama, agora com pernas sessentonas, muito diferentes
daquelas da minha adolescência do final do anos 40 e início dos anos 50...
Fiquei em frente ao colégio e apreciei suas linhas
arquitetônicas. Nada havia mudado, apenas agora, a sua frente, ao invés de
bicicletas, existiam muitos carros.
Abrindo a porta principal, entrei. Na ante sala olhei os
quadros na parede, onde pude observar meu pai, inspetor escolar Oswaldo Barroso,
datado de 1942, logo à direita. Girando a maçaneta da segunda porta que dá
acesso ao corredor interno do prédio, vi vários quadros, de ambos os lados das
paredes, com as fotografias de cada turma que se diplomou no ginásio do
educandário, em anos sucessivos. O quadro dos formandos de 1952, o da minha
turma, se encontra na parte superior da parede, logo à direita dessa última
porta. Só consegui ler dois nomes, Célio Salles Brito e José Maria Dias, embora
tenha podido ver, além do meu retrato, os dos demais colegas.
Adentrando mais o colégio, observei as diversas salas da
direção, onde ficavam os padres, e me dirigi até as salas de aula, onde há mais
de 50 anos atrás eu havia estudado. Senti emoção ao olhar o pátio, agora
gramado, as diversas salas de aulas onde tinha estudado História, com Padre Raul
Meda, Geografia, com Padre Evaldo, Matemática, com Padre Francisco, Francês, com
Padre Lino, Desenho e Música com Padre Angelelli e tantos outros. Reencontrei-me
na pele daqueles jovens que estavam agora na mesma trilha que eu havia feito
tantas décadas atrás...
Saí, como entrei, e vagarosamente tomei o caminho de volta
para a casa de Gláucia.
O seminário dos padres, ao lado, estava agora desativado,
aliás já estava há muitos anos, e o mato tomava conta de sua entrada.
Regressei pelo mesmo caminho, vendo o abandono dos trllhos e dormentes, agora
cheios de mato. Logo à frente vi um senhor cortando esse mato, para dar aos seus
cavalos.
A chuva começou a cair fininha e a medida que o tempo passava
ela engrossou. As gotas caindo no chão de terra se evaporavam e o cheiro da
terra entrou forte nas minhas narinas. O tempo voltou para mim. Os ecos do
passado, com lembranças de minha mãe, do meu pai de minhas irmãs, dos meus
parentes avivaram-se fortemente na minha mente. Foi uma experiência algo
dolorosa, mas ao mesmo tempo boa, necessária. Afinal o que eu estava esperando
ao empreender tal viagem ao meu passado?
A chuva enfim caiu forte e mesmo assim não aumentei os meus
passos. Quis senti-la no meu corpo e fui caminhando, caminhando... Ao chegar na
ladeira próxima a casa do Pedro Primo, subi em direção à Feira, bairro de Santa
Terezinha e retornei então pela rua de cima, rumo à casa da prima Glaucia. Ali,
no número 138, existe uma casa – o sonho de minha adolescência – com belos
jardins e escadarias. Ela sempre me impressionou muito e talvez algum dia eu
consiga visitá-la por dentro e matar a curiosidade do meu imaginário...
Chegando à casa da prima resolvemos almoçar no restaurante da
Pousada Morro Verde, nas Tronqueiras, próximo da antiga fazenda do Dr. Castro,
hoje pertencente a sua filha e minha prima, Maria Ângela.
Após o almoço, decidimos visitar a Fazendinha, hoje
pertencente ao meu primo Geraldo, filho do tio Tonico, que no entanto lá não
mora, residindo em Cruzeiro, onde é dentista. O caminho para lá, na margem
direita do rio Passa Quatro, antigamente ladeado de árvores, encontra-se hoje
todo construído de casas, o que tirou muito do seu encanto. É o progresso...
Na entrada da fazenda, há bastante tempo com sua superfície
original muito diminuída, há uma porteira que dá acesso a uma área interna que
por sua vez dá acesso ao portão da casa grande, a porteira do curral e a um
conjunto edificado, constante de uma garagem para carros, uma capela em
homenagem a Babá e uma casa do administrador Sr. Luiz. Fomos recebidos por ele,
que nos liberou a capela e as dependências da casa grande, assim que nos
identificamos como primos do Geraldo, proprietário atual da fazenda.
O conjunto da casa grande está muito bem conservado, o
jardim, as escadarias, a varanda, o pomar, a horta. Sob um telheiro, com uma
grande mesa no centro, foram construídas uma churrasqueira, um forno e um fogão
nas proximidades da casa. O pátio interno da casa está limpo e também em ótimo
estado de conservação.
O carinho e o cuidado do primo Geraldo se concentram mais
ainda no interior da casa, toda pintada e reformada, inclusive o anexo com as
dependências do vovô Arthur. Ela está toda mobiliada e a longa mesa no centro do
salão principal parece manter perene toda a memória da família Tibúrcio. Tudo
naquela casa evoca seus moradores originais, meu avô, D. Conceição, meus tios,
primos e agregados...
No quarto do vovô, eu e Gláucia fizemos uma comovida oração
por toda a família e na sala de visitas, onde estão os quadros de vários de
nossos antepassados pedimos também por suas almas. De pé na varanda, olhando
para o campo a frente, lembrei-me de quantas vezes ali estivera, nesse mesmo
lugar, mirando o horizonte, com meu avô Arthur. Recordando vários episódios da
família, entramos na capela, de muito bom gosto por sinal, construída em
homenagem a Babá e também lá fizemos nossas preces.
Satisfeitos com nossas andanças e reminiscências,
dirigimo-nos então, para a casa da tia Ceição que já lá nos esperava.
Sentados em torno da mesa, bebemos café, comemos bolo, biscoitos e conversamos
muito sobre toda a família. Lembramos dos nossos pais, de fatos passados, vimos
muitas fotografias antigas, rimos e em outras ocasiões ficamos circunspectos com
notícias não tão boas. Tia Ceição estava, no momento, meio indisposta para a
ingestão de alimentos e por isso mais uma vez não pode ir a um restaurante
conosco, prometendo contudo, que da próxima vez que voltássemos ela faria tudo
para nos acompanhar. Ela me lembra muito minha mãe Iracema, por sua alegria em
receber e por ficar agitada o tempo todo, querendo oferecer, isso mais aquilo,
etc., sempre querendo nos agradar ao máximo e demonstrando sua alegria em nos
receber. Lá conheci seu neto Bruno, já com 18 anos e tive noticias de Hebe,
filha de Paparuna, uma grega cujo verdadeiro nome é Zaphiriças Papadoupos. Ela
foi casada com o Dr. Afonso, um diplomata brasileiro, que na 2a Guerra Mundial a
trouxe para Passa Quatro. Hebe, já sessentona, depois que a mãe morreu veio
morar em sua cidade natal, próxima de tia Ceição, deixando Los Angeles/USA onde
residia com seus dois filhos.
Saímos da casa da tia já em torno das 21:00 horas e fomos
então encontrar a Dayse, amiga de Gláucia e também de minha irmã, já falecida,
Magaly. Ela, alegando ter feito um tratamento de canal dentário naquela tarde,
recusou-se polidamente a jantar conosco e assim ficamos conversando no portão de
sua casa, até que a chuva fria nos empurrou de volta a casa da prima. Isso por
volta das 23: 00 horas. A noite estava muito fria e foi a de mais baixa
temperatura que passei em Passa Quatro nessa minha viagem. Já na cama, cobri-me
com dois cobertores e usei meias... Lembrei-me então de que quando morava na
cidade, durante o inverno ao ir para a escola, meus lábios e mãos se abriam em
rachaduras.
Acordei mais tarde no sábado e depois de algumas
providências, saímos e fomos fazer nossa derradeira visita. Quis rever uma amiga
de infância, Marina, viúva de um conhecido meu, o Ataíde Terra. Ela é dona de
uma loja, no mesmo prédio onde seu pai tinha a Casa Azul (seu nome era Lepanto
Peregrini e ele foi testemunha da minha certidão de nascimento) e é mãe de uma
jovem que é a cara do Ataíde, seu pai. Conversamos, eu e Gláucia com ela durante
uns 20 minutos e nos despedimos depois, satisfeita minha curiosidade.
As 10:55 horas partimos para Cruzeiro e fomos direto para a
casa do primo Francisco. Lá ele me mostrou a coleção de quadros da família, as
camas que foram do vovô e D. Conceição e alguns retratos.Tudo isso fica situado
no seu “refúgio”, uma edícula ao fundo do seu quintal.
Saindo dali, levando também Maria das Graças, a esposa de
Francisco, apanhamos o primo Geraldo em seu consultório e fomos todos almoçar.
Durante o almoço tivemos a oportunidade de falar dos dias antigos, dos dias
atuais, dos nossos parentes, dos assuntos do momento, enfim de toda a família.
Foi muito bom, pois o Geraldo sempre me mereceu o maior respeito, por sua figura
humana e por sua operosidade.
A última etapa de visitas ocorreu na casa da tia Jeny, esposa
do tio Jupy, irmão de minha mãe e minha madrinha. Lá nos esperava, a prima Maria
Letícia e estava também o Bruno, filho da prima Maria Beatriz. Chegaram depois a
prima Maria Beatriz, a Gabriela , filha de João Bosco, neta de Maria Letícia, o
filho dessa última Domingos Sávio e o neto Tobias. A conversa foi muito boa, tia
Jeny estava muito contente com a visita, muitos acontecimentos foram
rememorados, Magaly, continuava muito querida por todos e a reunião durou até as
17:30 horas, quando levantamos acampamento para voltarmos ao Rio de Janeiro,
prometendo voltar no ano que vem.
Embora, durante nossa estada em Cruzeiro chovesse muito, ao
tomarmos a Rodovia Presidente Dutra para regressar ao Rio de Janeiro, a chuva
parou e apesar de ter anoitecido, a viagem transcorreu sem atropelos e não
resultou nenhum perigo para nós. Ao todo, percorremos 764 km da saída de Niterói
até o término da viagem e o Palio Fire 1.0, consumiu uma média de 16km por litro
de gasolina.
Como diz o poeta Cazuza em sua música, o tempo não para,
espero nos próximos anos fazer, novamente, caminhos semelhantes, procurando, ao
visitar os sítios de minha infância/adolescência, reencontrar-me mais uma vez
com os verdes dias da aurora da minha vida...
José Maria Tibúrcio Barroso
Niterói, julho de 2004
Barroso narra uma visita sentimental à suas origens
“Na arte só tem importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes” (Eça de Queirós)
Obedecendo minhas razões interiores, de visitar, a cada ano,
desde 2003, os caminhos de minha infância, revendo minhas últimas tias ainda
vivas, escolhi neste ano, o inicio de agosto, em plena estação invernal, para
por em prática essa verdadeira “Á la recherche du temps perdu”.
Como não tenho qualquer pretensão de fazer arte literária,
vou simplesmente narrar a viagem que empreendi nesse inverno de 2005,
perenizando-a para o futuro, com as minhas observações e impressões.
Nesse ano, meu roteiro, partindo de Niterói, seria o
seguinte: Passa Quatro, via Itamonte, Cruzeiro , Itajubá e Varginha. Retornando
depois por Passa Quatro, Cruzeiro e Niterói. Meus companheiros de viagem seriam
meus primos Francisco e Gláucia, os quais apanhei em Cruzeiro e Passa Quatro
respectivamente.
Assim, tomei a estrada no dia luminoso de cinco de agosto, as
10:40 horas,com o meu Palio 1.0 Fire e segui pela Presidente Dutra, passando por
Itamonte, em direção a Passa Quatro.
Todavia, ao passar por Itanhandu, senti-me atraído a fazer
uma visita àquela cidade onde, em 1949, com apenas onze anos ficara internado no
Colégio Sul Mineiro por um semestre escolar, até pegar uma pneumonia brava e
voltar para a minha casa. A pneumonia que havia me prostrado, quase no fim do
primeiro semestre, tinha sido originada pela prática da ginástica, que era
feita, invariavelmente, pela manhã, num horário fabril. Levantávamos as 06:00
horas e já as 06:30, com um frio terrível das montanhas, pois estávamos em pleno
inverno, éramos levados a correr, subindo e descendo morro e depois para
concluir, tínhamos que mergulhar numa piscina, da qual saía vapor de tão fria
que era a temperatura da água. Não deu outra, pequei uma pneumonia dupla e tive
que ir para casa para me curar. Regressando ao Sul Mineiro, completei o restante
das aulas do semestre e não voltei mais ao colégio, ficando mesmo em Passa
Quatro no Colégio São Miguel.
Assim, algo me puxava para rever essa cidade e as paisagem
daqueles tempos de outrora.
Dessa forma, entrei no burgo e seguindo as mãos das ruas,
passei pela praça da Igreja Matriz e procurei encontrar o endereço onde ficava o
colégio em pauta. Passei duas vezes por onde, vagamente, me lembrava de sua
posição, mas no local só encontrei duas construções vizinhas, ambas de escolas,
uma estadual e outra municipal. Curioso, perguntei a transeuntes onde estava o
antigo Sul Mineiro, mas nada souberam informar, pois só tinham conhecimento das
escolas que se podiam ver agora naquele local. Tornei a passar em frente às
escolas, observei bem e cheguei à conclusão que o Sul Mineiro não existia mais e
em seu lugar estavam agora aqueles dois estabelecimentos de ensino.
Sinceramente, fiquei decepcionado. Parece que nenhum ser humano gosta de ver
derrubados os cenários do seu passado. É como se houvessem passado uma borracha
na paisagem e com isso um pedaço de sua história.
Dei-me por vencido e engolindo em seco a minha frustração,
dirigi-me então à praça da Matriz, onde estacionei o carro. Olhei em redor,
havia alguns jovens sentados nos bancos e a praça não parecia muito bem cuidada.
Olhei para um dos lados e ainda lá existia um estabelecimento comercial que
naquela ocasião pertencia ao pai de um colega do colégio. Todavia, por não
lembrar mais o nome desse colega, não entrei na loja. Simplesmente, a observei.
Olhando a Igreja Matriz ela me pareceu imponente e como acontecia há tantos anos
atrás, aos domingos, fui até lá fazer minhas orações, dedicando-as aos
contemporâneos daquela época.
Ao sair da igreja, lembrei de um fato que tinha me acontecido
em seus arredores e que ficou para sempre gravado em minha mente. Em um
domingo, daquele ano, aproveitando a licença que os alunos, trajando seu
uniforme escolar, tinham em ficar em liberdade pela cidade, após a missa, até
terem de regressar ao colégio, sentei-me num bar que se situava no lado da
praça, oposto ao da igreja. Não tinha um mísero tostão no bolso e me deixava
ficar na cadeira, vendo o tempo passar e olhando com olhos ansiosos e gulosos os
sorvetes que as pessoas vinham comprar no local. Minha garganta estava seca e
cada cliente que saia do balcão com um copo de sorvete na mão, aguçava mais meu
desejo de também poder ter um para mim. Era um verdadeiro flagelo o que eu
sofria... Pois bem, de repente, para um carro, com placa do Rio ou São Paulo,
não me lembro, e dele salta um homem, dos seus 40/45 anos e dirigindo-se ao
balcão pede vários copos de sorvete, para sua mulher e filhos, que tinham
permanecido no veículo. Enquanto esperava para ser atendido, este homem olhou
para mim e deve ter observado o meu desejo infantil de tomar um sorvete. Falou
então – oi garoto quer um sorvete também? – imediatamente eu disse – sim – e ele
prontamente - escolha então aquele você mais gosta - Meu Deus, era o que eu mais
queria na vida naquele momento! Os anos se passaram, mais de meio século, e eu
jamais esqueci daquela cena e da bondade daquele homem. Vida que passa, e sempre
me vem a mente esse acontecimento...
Atraído também por essa lembrança fui até o tal bar, mas ele
tinha se modificado. Em primeiro lugar, não incluía mais uma sorveteria e
depois, se tornara bem menor, pois tinha sido dividido em dois estabelecimentos.
Mais uma decepção...
Andei então pela rua principal do centro, em frente a Igreja Matriz. Ela tinha
se transformado em rua de pedestre e me pareceu nos dias atuais bem estreita.
Também ela tinha se modificado bastante, seu comércio me parecia, agora,
semelhante ao da rua da Alfândega do Rio de Janeiro. Caminhei pelo seu traçado
até a outra rua, frente à estrada de ferro. Nesse ponto parei e observei
atentamente a paisagem. Essa sim, me deixou melancólico, pois a ferrovia fôra
desativada, a estação está degradada e o mato crescia entre os trilhos.
Saindo de Itanhandu, fiquei pensando na roda do tempo...
Naquela época, fim da década de 40 e inicio da de 50, essa cidade era muito
florescente, enquanto minha terra natal era mais modesta. Diferente dos dias de
hoje, quando Passa Quatro apresenta um processo consistente de desenvolvimento
turístico e se apresenta mais bonita e arrumada que sua vizinha rival.
Tomando então a rodovia do Caminho das Águas, rapidamente alcancei meu torrão
natal e me dirigi à casa de Gláucia, minha prima. Encontrei-a muito bem
disposta, receptiva e pronta para no dia seguinte seguirmos a viagem programada.
A tarde estava radiosa, a temperatura baixa, mas agradável e
enquanto Glaucia procedia os preparativos para o jantar, resolvi dar uma volta,
seguindo para a rua do Vinagre, como planejara anteriormente, para fazer uma
visita à família dos descendentes de José Orlando da Costa. Este senhor, já
falecido, tinha sido casado com Rita, uma antiga doméstica na fazenda de meu avô
Arthur. O casal produzia e vendia doces para fora, tivera muitos filhos, que eu
conhecera, mas dos quais me lembro somente de alguns, como o Albertino, lutador
de boxe, o Américo, o Jorge, a Ester e a Leopoldina. O Américo, inclusive,
estudou na Rússia, era Engenheiro de Minas e chegou a ocupar o cargo de Ministro
de Minas e Energia, em Moçambique. Muito jovem ainda, eu era muito franzino e
minha mãe pedira então ao Albertino para me exercitar, o que ele fazia com
grande paciência, três vezes por semana. Todas as vezes que ia em sua casa, José
Orlando sempre me oferecia um de seus doces, o que eu aceitava com muito gosto.
Todavia, o que eu gostaria de lembrar aqui é o meu
conhecimento do Oswaldo, seu filho mais moço. Chegamos a brincar várias vezes de
cavalo de pau, em que montados num cabo de vassoura, galopávamos como se
estivéssemos sobre um cavalo verdadeiro. Lembro-me perfeitamente dele. Para sua
idade, 6/7 anos, já era alto e um tanto corpulento. Muito tranqüilo e simpático.
Pois bem, a roda do tempo girou, mudei-me de Passa Quatro e anos mais tarde,
muitos anos mesmo, vim a saber que o Oswaldão, o famoso chefe guerrilheiro do
Araguaia, dos “anos de chumbo”, era o Oswaldo, amigo de minha infância...
Formara-se em engenharia, na Tcheco-Eslováquia e regressara ao nosso país, onde
nas décadas de 60/70, já como membro do PCB, lutara com grande coragem contra a
ditadura imposta pelo Regime Militar, imposto ao país em 1964. Fôra morto pelo
Exército em Xambioá, cidade goiana às margens do Araguaia, em 1974.
Muito bem, por volta de 1986, eu havia comprado umas terras
no sul do Pará, em São Félix do Xingu e periodicamente ia até a região. Numa
dessas idas, devia me encontrar com um fazendeiro, em sua serraria, em São
Geraldo do Araguaia e para chegar até lá segui por Goiás, alcançando então
Xambioá, que ficava na margem direita do rio Araguaia, em frente a São Geraldo,
que ficava na margem esquerda. Lá escutei pela voz desse homem, a narrativa de
alguns acontecimentos sobre a guerrilha e o combate que o Exército lhes tinha
dado na ocasião. São as coincidências do destino...Não sei bem onde, mas em
algum lugar daquelas paragens, talvez muito próximo do local onde eu estava,
enterrado num canto da selva, devia estar o Oswaldo, meu amigo de infância.
Assim, depois de tantos anos, nós estávamos perto um do outro novamente...
Igualmente, tínhamos, anteriormente, nos aproximado através
do arco cósmico da vida, porque eu também tinha sofrido com o Regime Militar,
pois jovem ainda, tivera minha patente de Oficial da Marinha, cassada em 1964,
onde ingressara para cursar a Escola Naval, na Ilha de Villegaignon, por
concurso público nacional.
Hoje em dia, uma rua de Passa-Quatro leva o nome desse líder
guerrilheiro e em junho de 2000, o prefeito da cidade concluiu um ginásio
poliesportivo e o batizou com o nome de Oswaldo. Ele também foi homenageado, no
Estado em que derramou seu sangue, recebendo o título post-mortem de cidadão
paraense, dado pela Assembléia Legislativa, em 2001.
Entrando na rua do Vinagre, fui olhando as casas para tentar reconhecer aquela
do José Orlando. Em frente da que me pareceu mais semelhante parei e observei.
Parecia-me que era ela mesma, pois além do portão de entrada, via-se uma varanda
lateral, igual o registrado pela memória de minha infância. Como estava aberto
fui entrando e, parando em frente a uma janela, a da cozinha, olhei para dentro.
Lá estavam duas mulheres. Uma sentada e a outra, de pé, próxima ao fogão de
lenha. A primeira era Leopoldina, de todos os irmãos, a que restara viva daquela
família tão grande. A outra mulher, vim a saber, se chamava Elisa e era viúva do
João, do qual não me lembrava, filho também do José Orlando. Apresentei-me a
elas e começamos então a conversar. Logo em seguida chegou Maria Rita, filha de
Elisa e entrou na conversa. Rememorei então para elas o meu conhecimento sobre a
sua família e as minhas brincadeiras com o Oswaldo, também como, sua morte
prematura e a minha passagem por Xambioá. Foi uma visita muito afetiva e
convidei a todas para jantarmos juntos, o que declinaram educadamente, pois
Leopoldina não podia comparecer (estava algo caduca) e assim as demais deviam
fazer-lhe companhia.
Um fato interessante foi narrado por Maria Rita, acontecido
por ocasião da chegada de Oswaldo na Tcheco-Eslováquia. Como ele era um jovem de
cor negra, muito alto – 1,98m – com muito boa aparência, fazia o maior sucesso
na rua, principalmente com as mulheres, pois a presença de alguém dessa raça lá
era muito rara e, então, as pessoas paravam na rua para apreciar sua figura
marcante de gigante de ébano...
Saí dessa casa satisfeito por ter feito tal visita, mas
também nostálgico pelo quase total desaparecimento daquela família tão boa, da
qual agora só restava Leopoldina, uma representante do seu tronco original,
mesmo assim já um tanto desligada da realidade e do mundo que a cerca.
Fui então para a casa de tia Ceição, lá encontrando também a
prima Maria Lea. A tia tinha levado um tombo e fraturado umas costelas e, assim,
estava com certa dificuldade para respirar e se locomover, mas que no entanto
recebeu-me, como sempre, com muito carinho, café, bolo, biscoito e ficamos
conversando por cerca de três horas. Convidei-a para jantarmos juntos no meu
regresso de Varginha, mas ela preferiu que déssemos um passeio pela cidade,
indo, inclusive, até a Fazendinha. Concordei com seu desejo e como falássemos do
Ary seu vizinho e cunhado, manifestei o desejo de visitá-lo também, no que minha
tia me acompanhou. Apesar dos seus 90 anos ele estava muito bem, mesmo morando
sozinho, por escolha sua, apenas sendo atendido diariamente por suas filhas Ana
Maria e Joaninha, minhas amigas de infância. Quando estávamos em sua casa elas
chegaram e foi uma festa, pois não nos víamos há mais de meio século. Ambas
estão viúvas e juntos nos lembramos de sua mãe Margarida, uma doce mulher que
morreu muito jovem a quem eu gostava por demais, pois me emprestava seus livros
de história e me dava muito atenção.
Retornando à casa de Gláucia, jantamos e a após o jantar saí
para dar uma volta na cidade, caminhando pelos caminhos da minha juventude.
Estava frio e a prima preferiu não me acompanhar, aconselhando-me a me
agasalhar. Coloquei então o paletó e segui pela rua principal, primeiro pela
Ângelo d’Alessandro, depois pela Ten. Viotti, em direção ao Hotel das
Hortências.
Seriam mais ou menos 20:30 horas e a rua permanecia quase
deserta, apenas alguns pequenos bares estavam abertos. Tão diferente da minha
juventude em que a rua principal ficava bem movimentada, com bastante gente
passeando. Era a época do cinema e também, não existia televisão. O frio começou
a gelar minhas mãos e como estava de calça jeans, protegi-as nos bolsos externos
do paletó. Estava realmente gelado. Apertei os passos, pois desejava dar um
passeio completo pelo centro da cidade. Passei pelo local do antigo Correio, do
antigo Cinema Régnier, da antiga Casa Cancela, da escadaria da Igreja Matriz, do
antigo Bar do Nem Lopes, do antigo Bar da Dona Mariana, da Farmácia do Serafim,
da residência do Lepanto Pelegrini, da antiga Casa Azul, da casa da Chiquinha
Dantas, uma loirinha que fizera apertar meu coração dos 13 aos 14 anos, pela
praça, antigamente arborizada com árvores frondosas, pela antiga enorme casa que
pertencera ao meu avô Arthur, das antigas casas do tio Alberto, tio Tonico e
cheguei até a ponte sobre o rio Passa Quatro, atravessando a qual eu alcançaria
o Hotel das Hortências.
Parei por aí. O andar mais apressado tinha aumentado minha temperatura interna e
contrabalançara o frio exterior. Já mais confortável, comecei a voltar, mas
agora circundei a praça de antigas árvores frondosas e passei em frente a antiga
casa do tio Jupy. Observei-a atentamente, pois ela sempre me parecera imponente
e misteriosa. Abrigara em outros tempos minhas sete primas, todas de nome Maria.
Maria Letícia, a primeira, Maria Estela, a segunda... Após o nascimento da
última Maria, meu tio desistira de ter um varão na família...
Continuando o volteio da praça, olhei o local, como se
estivesse vendo, o antigo Patronato, em frente a linha do trem, que abrigava
meninos órfãos, ou deixados por seus parentes, vindos do Rio de Janeiro e São
Paulo. Lá, eles recebiam educação escolar e havia uma fazenda conveniada na qual
alguns deles, que assim o quisessem, aprendiam e praticavam agricultura.
Não existe mais tal educandário, pois foi demolido e em seu lugar foram erguidos
o Fórum, a Cadeia Municipal e a Estação Rodoviária da Cidade.
Tudo pelo social ! Dizem sempre os governantes que assumem.
Todavia, o chamado progresso tem as vezes uma conotação de retrocesso...
O estilo gótico da casa construída na antiga chácara da
madrinha Aurélia, em frente à capela lá existente, dá um toque fantasmagórico na
paisagem noturna daquele local, pelo qual passo a passos largos em direção a rua
da Estação do Trem.
No caminho, vejo a antiga Casa Bonani, agora com dois andares
e me lembro da jovem viúva Angelina, sua proprietária, que gostava muito de
música, tocava magnificamente acordeon e que nas estações de férias levava
sempre convidados do Hotel Régnier para continuar as serestas em sua casa. Em
muitas dessas ocasiões eu estava presente, pois era amigo do seu filho Fernando.
Em frente ao antigo laticínio, olhei para a sacada da janela
do andar superior do prédio e recordei-me da história que corria pela cidade,
nos tempos idos. Havia um senhor moreno, sempre muito arrumado, de paletó,
gravata e chapéu, que era visto ao cair das noites em frente do tal prédio. Na
mesma hora, na sacada, aparecia uma figura feminina, mulher do gerente do
laticínio. Corria de boca em boca pela cidade que os dois mantinham um romance
secreto. Eu mesmo os vi muitas vezes em suas posições de praxe. Não sei a
veracidade do fato, pois não me ligava muito ao assunto pela minha pouca idade,
mas o povo falava e falava...
Cheguei à Praça da Estação. Esta última estava fechada e a
praça completamente deserta. Muitas vezes eu tinha tomado o trem da Rede Mineira
de Viação desse local, ou para ir para Itanhandu ou para ir para Cruzeiro, de
onde embarcava na Central do Brasil, em direção à São Paulo ou Rio de Janeiro.
Agora, um pequeno trecho dessa ferrovia tinha virado atração turística, para
passeios, nos fins de semana, de visitantes de Passa Quatro. Outro progresso que
significou retrocesso, pois sabe-se que o transporte ferroviário é muito mais
barato que o rodoviário. Nisso nós copiamos mal o "american way of life", que
apesar de suas extensas rodovias, possui também extensa rede ferroviária, o que
não acontece com o nosso país...
Aproximei-me do antigo Hotel Régnier, estabelecimento que, situando-se na Praça
da Estação, recebia os turistas que visitavam a cidade nas férias e ficavam para
aproveitar os falados milagres da água mineral tori-magnesiana existente na
Fonte. Lá também ocorriam bailes nos fins de semana e era assim um dos pontos
altos de Passa Quatro. Lembro-me, especialmente de um baile, animado por um só
acordeon, em que a música mais tocada era o baião Kalu, que tinha sido lançado
recentemente pela cantora Marlene, uma estrela da Rádio Nacional, a rádio mais
ouvida e famosa naquela época. Eu sempre tivera muita vontade de me hospedar
naquele hotel. Até já havia sonhado com isso, várias vezes. Olhei pela porta
aberta. Não havia ninguém na portaria e nem no restaurante ao lado. Este, era o
antigo salão de recepção, onde havia os tais bailes. Por mais que me esforçasse
para encontrar alguém, não o consegui. Parecia uma imagem dos filmes de
Felini... Cheguei então próximo da escada que conduz ao segundo andar e
perscrutei o ambiente, observando o corredor com os quartos. Depois de alguns
minutos resolvi deixar o hotel e minhas lembranças. Já vira o suficiente e
experimentara as vibrações do passado... Quem sabe um dia eu me hospedarei aí?
Deixando a Praça da Estação, segui em frente em direção a
casa do Dr. Castro, agora de outro proprietário que a reformou e pintou, sem
alterar porém seu estilo arquitetônico. Passei em frente à antiga loja do
Chichilo e lembrei-me desse italiano que chegando em Passa Quatro ali se
instalou com um estabelecimento em que se encontrava de tudo. Era uma das
melhores casas comerciais da cidade, durante muito tempo. Subi então uma rua
transversal, a General Barcelos, para alcançar o logradouro da casa da Gláucia e
então vi-me diante do local da antiga casa do José Arimatéia, meu amigo de
infância. A casa não mais existia e em seu lugar fora erguida a Pousada Eco da
Montanha. Curioso, entrei e encontrando uma pessoa na portaria dirigi-me à ela.
Seu nome era Roberto, proprietário da pousada, irmão do José Arimatéia.
Apresentei-me e conversamos por um quarto de hora sobre Passa Quatro, o
movimento turístico da cidade, fatos do passado de que tinhamos participado eu e
seu irmão. Irformou-me que o mano morava há muitos anos em São José dos Campos.
Deixei-lhe meu endereço para que, quando tivesse contato, informasse o José
Arimatéia e me despedi.
Regressando à casa de Gláucia, fui para cama e me cobri
bastante, pois por um grande lapso de minha parte tinha esquecido de incluir o
pijama na minha mala de viagem...
Pela manhã, enquanto esperava o café, fui até a varanda e
observei a natureza. Estava radiosa. O céu estava completamente azul, sem uma
única nuvem branca. Havia matizes de cores no horizonte. Primeiro as montanhas
mais próximas, muito verdes. Depois a serra ao longe, verde-azulada. Finalmente,
o azul puríssimo do céu de Passa Quatro... O ar puro, a mente leve, o coração
sereno.Tudo contribuía para um bem estar sem fim e predizia uma bela viagem pela
frente.
Saímos então pela manhã em direção a Cruzeiro, onde apanharíamos o primo
Francisco. A distância é curta, cerca de 30 km e logo chegamos à cidade
paulista.
Com Francisco já conosco, estivemos na casa de tia Jeny e a
encontramos muito bem mentalmente, demonstrando grande vivacidade e conversando
animadamente. No entanto, ela está cada vez mais repousando na cama ou sobre uma
cadeira, pois sua movimentação está cada vez mais difícil. Ela manifestou sua
alegria em nos receber e permanecemos em sua casa por um período de mais ou
menos uma hora.
Despedindo-nos dela, rumamos para Itajubá, via Piquete.
Almoçamos em Itajubá e logo depois nos dirigimos ao Convento da Providência de
GAP.
Relembrando a visita que eu, Glaucia e Francisco lhes
fizemos, ficamos todos muito felizes em encontrar muito bem as primas Niza e
Maria José, esta última tão alegre, afetiva e amiga. A reunião em família, é
sempre enternecedora e os assuntos vão surgindo, com o passado se misturando com
o presente, os entes queridos e os acontecimentos sendo relembrados alegremente.
O lugar onde vivem respira paz e serenidade e as freiras,
suas companheiras, são também maravilhosas. Tive especial alegria em rever a
irmã Emiliana, remanescente do Colégio Nossa Senhora Aparecida, de Passa Quatro,
que passa para os que a cercam, uma atmosfera de amizade e de fraternidade.
A maneira como fomos recebidos nos encantou, foi-nos servido
um saboroso lanche e assim, no próximo ano voltaremos todos para novamente
termos o privilégio de, nesse ambiente mágico que é Convento da Providência,
estar novamente com as primas e com essas queridas freiras que as cercam.
Já era em torno das 16:00 horas quando nos despedimos, e com
a Irmã Emiliana nos orientando até a saída da cidade em direção à Varginha,
seguimos em frente rumo àquela cidade.
Chegamos a Varginha já à noite e fomos imediatamente procurar
um hotel para nos hospedar, pois não queríamos incomodar tia Marianinha e
primas. Estabelecemos-nos num hotel no centro da cidade e saímos mais tarde para
jantar e dar uma volta pelos arredores.
Gláucia nunca tido estado na cidade e Francisco tinha lá
morado, por um período, quando tio Astolfo era ainda vivo. Ele tinha feito
grande amizade com as primas e, mais tarde, mesmo já morando em outra lugar,
fôra convidado pela prima Glícia para ser seu padrinho de casamento. Todavia,
fazia já bastante tempo que estava afastado de Varginha. Para Gláucia, essa
visita representava a surpresa, o desconhecido. Para Francisco era rever suas
queridas primas e tia Marianinha. Para mim, que já estivera na cidade há uns
quinze anos atrás, era visitar a tia Marianinha e conhecer as primas ainda
desconhecidas, obedecendo minhas razões interiores.
Ficou acertado que descansaríamos naquela noite e no dia
seguinte, um domingo, iríamos então, encontrar com a tia e primas após a missa,
que também compareceríamos.
A capela onde foi celebrada a missa, era pequena, mas muito
simpática e estava completamente cheia, tendo sido colocados alguns bancos fora
dela para os excedentes se acomodarem.
Ao término da celebração nos encontramos fora da capela, com
tia Marianinha, Gracie e Paulo, seu marido. Após os cumprimentos e apresentações
fomos convidados a ir para a casa da tia, onde nos esperava uma mesa com café e
bolo, seguindo a tradição mineira de bem receber. Um pouco mais tarde apareceu
Glycia, ansiosa em rever o Francisco e conhecer a Gláucia e a mim.
A casa do tio Astolfo fica bem no centro de Varginha e é
ampla e confortável. Fiquei sentado perto do Paulo, muito simpático por sinal,
que faz com Gracie um casal harmonioso, e fomos conversando sobre assuntos
vários, falando-me, inclusive, de seu pendor para obras e arquitetura. Ele é
ortodentista em atividade e possui uma fazenda nos arredores da cidade. Disse-me
ter 72 anos, mas tem cara de muito mais jovem. Eu penso que ele faz parte desse
grupo privilegiado de seres humanos que não envelhecem nunca, permanecendo com
aparência de garoto até o final de sua existência, até pelo seu espírito leve e
sorriso acolhedor.
Tia Marianinha está muito bem e continua muito elegante, com
seus 90 anos bem vividos, locomovendo-se ainda com certa desenvoltura. Sente-se
que ela teve uma vida muito feliz com tio Astolfo e que juntos formaram também
um casal unido, respeitado e que tinha uma vida social intensa, pois o tio, além
de Juiz de Direito na cidade, fôra também, presidente do Clube local. Ela, fala
pouco e ouve muito, mas sente-se que ela está ligada em tudo.
Das primas, Gracie, Gláucia e Glicia, só as duas primeiras eu
conhecia. Todas muito simpáticas, educadas e com uma conversa de alto nível.
Glicia é alta, com presença forte e embora não seja Julia Roberts, é uma linda
mulher, como sua mãe e irmãs, tendo uma aparência agradável e muito carismática,
impressionando pela sua postura séria e demonstra ter uma personalidade
afirmativa. Tem o porte de uma juíza. Não é por acaso, que é a administradora da
fazenda de sua mãe.
Na seqüência do café da manhã, fomos convidados por Paulo e
Gracie para almoçarmos em sua fazenda e para lá nos dirigimos todos, exceto
Gláucia que ficou de aparecer mais tarde, o que efetivamente aconteceu, e de
Glicia, que tinha outro compromisso com o marido e ficou na cidade.
Na fazenda, tendo o café e o gado de leite como carros fortes
– produziu 500 sacas de excelente qualidade nesta safra, como informou o Paulo –
nos aconchegamos na casa principal e lá entre goles de cachaça, cerveja, vinho e
uma deliciosa comida caseira, exercemos plenamente a convivência familiar, junto
com toda a descendência do anfitrião, 6 filhas, genros e netos. Um família
grande e bonita.
Paulo e Gracie nos fizeram prometer que na próxima vez que
voltarmos a Varginha, seremos seus hóspedes. Hotel, nem pensar, disse-nos eles.
Tudo bem, e apesar de eu querer sair desse ambiente tão
afetivo e agradável, no máximo às 16:00 horas, já que sendo o motorista,
preferia não dirigir a noite, não foi possível, porque éramos todos instados a
ficar mais um pouco, com as conversas se estendendo, se estendendo e se
estendendo, de uma maneira tão amistosa que essa hora foi ultrapassada, sem que
eu pudesse fazer nada.
Foi uma despedida muito afetiva, tia Marianinha manifestou
sua satisfação em nos receber, bem como o Paulo e primas e saímos de lá muito
felizes por tê-la reencontrado e todos os demais parentes.
Assim, em torno de 17:00 horas tomamos o caminho de Passa
Quatro, passando por Três Corações, Cambuquira, Pouso alto e Itanhandu.
Chegamos à noite em Passa Quatro e após jantarmos em uma
pizzaria, próxima da casa da Gláucia, nos recolhemos.
A casa onde está instalada a pizzaria fez-me lembrar dos seus
antigos moradores da década de 50, D. Maria Augusta e Sr. Bedaque. Ela é tia da
Gláucia e irmã da tia Guilhermina. A pizzaria, na verdade, fica no primeiro
andar da casa, que está num nível inferior ao da rua. Assim, quem passa pelo
local, pensa que esse andar é um porão. Essa foi justamente a minha opinião de
mal observador, quando, nessa década, fui procurar o seu morador, um ferreiro
que fazia de quando em vez algum trabalho para meu pai. Ele tinha uma aparência
soturna, vivia com uma roupa que parecia que não mudava nunca e usava rapé.
Tinha sua oficina em outro endereço, mas como era final de semana, fui
procura-lo no local onde morava, que era, na verdade o primeiro andar da casa
onde Dna. Maria Augusta ocupava o segundo andar.
A pizzaria é muito bem instalada, serve com esmero e isso me
fez refletir sobre o momento turístico atual de Passa Quatro. A cidade parece
que se reciclou. Os hotéis, pousadas, bares e restaurantes se prepararam e hoje
em dia oferecem um serviço excelente aos clientes. Há gente de fora, sem dúvida,
mas há também muita gente da própria cidade, que está nesse negócio. Além disso,
as belezas naturais do município completam suas instalações urbanas, para
atender os visitantes.
No dia seguinte, após o café e antes de passar na casa da tia Ceição, dei um
passeio até a Feira (bairro de Santa Terezinha), onde procurei a antiga
casa-chácara de meus tios já falecidos, Ovídio e Chiquitinha. A casa, embora
estruturalmente, fosse a mesma, todas as suas janelas e portas tinham sido
trocadas para modelos mais modernos, o que não me agradou. A área da antiga
chácara, onde meu tio tinha criação de gado de leite, estava quase toda ocupada
por casas, pois o terreno tinha sido loteado. A casa em frente, uma antiga
construção que pertenceu ao Murilinho Cancela – ele era muito católico e
comungava todos os domingos - não existia mais e em seu lugar, havia outra
residência, nem de perto imponente como a que lhe precedeu. Uma enorme árvore
que existia na rua principal da Feira, mais ou menos na frente da casa dos meus
tios, já não existia mais também. Essa árvore, acredito, desapareceu quando o
traçado da rua foi retificado e ela teve de ser sacrificada. Uma pena, pois ela
teria, talvez, por sua altura e pelo diâmetro do seu tronco, mais de 200 anos.
Voltei pela rua Capitão F. Motta onde, na altura do número
138, parei e fiquei observando a casa à minha frente. Essa casa sempre me
impressionou e, assim, todas as vezes que vou a Passa Quatro faço questão de
revê-la. Infelizmente, só posso fazer isso pela sua parte externa, com sua
escadaria e jardins, pois jamais conhecendo seus moradores, não posso visitar
seu interior.
Regressando à casa de Gláucia, eu e Francisco nos despedimos
dela, agradecendo também sua hospitalidade tão amiga e carinhosa, e nos
dirigimos à casa de tia Ceição para conversarmos mais um pouco e depois partir
para Cruzeiro, onde o primo ficaria.
Desculpei-me com minha tia por não ter chegado a tempo de
poder fazer o passeio que tínhamos programado, uma vez que ela preferia sempre
realizá-lo na parte da tarde e não pela manhã, como eu sugerira, e meu tempo
permitia. Ficamos combinados então de fazer o tal passeio no próximo ano, quando
mais uma vez pretendo voltar a Passa Quatro para visitá-la.
Despedindo-nos dela, depois de mais uma rodada de café, bolo
e biscoito, que ela gentilmente fez questão de oferecer, tomamos a estrada em
direção a Cruzeiro e, lá chegando, deixei o primo Francisco em sua casa,
agradecendo-lhe a companhia.
Assim, depois de rodar 1.039 km regressei a Niterói, no dia
oito de agosto, onde cheguei às 15:30 horas, num circuito que me proporcionou
muitas emoções, muitas alegrias e nenhum cansaço.
Niterói, agosto de 2005
José Maria Tibúrcio Barroso
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Um caso lembrado pelo Boavista
Sábado, sete e meia da manhã, é
uma péssima hora para o telefone tocar. Fora de sede, é um
perigo. Florianópolis, no começo dos anos setenta tinha uma
comunidade da Marinha pequena e todos estávamos sempre a fácil
acesso de uma convocação extra do chefe. Não deu outra.
Cancelei o pic-nic com a família e fui para o Distrito acompanhar
o controle de um agente potencialmente perigoso. Vinha sendo monitorado,
em operação belissimamente integrada entre a Polícia
Militar e a inteligência da Marinha, através de uma viagem
de ônibus do interior do Estado de Santa Catarina para a Capital,
Florianópolis.
O pessoal de controle me explicou a situação.
Na quinta-feira à noite apresentou-se em um quartel da PM na fronteira
um cidadão com uma carteira falsa de Oficial da Marinha, pedindo
pernoite. Disse que servia em um navio de guerra e que, no porto do Rio
Grande, havia conseguido uma licença para localizar e pesquisar,
no interior de Santa Catarina, os vestígios de sua família
imigrante. Um agente nosso, infiltrado no ônibus, seguindo o suspeito,
foi substituído em Lages por uma informante do Sistema, e o relatório
do acompanhamento seria recebido no Distrito Naval a qualquer instante.
Enquanto tomava o cafezinho da chegada, ouvia
as conjecturas do Chefe do Estado Maior quanto às possibilidades
de desdobramento desse episódio, de vez que o subversivo era completamente
novo para o Sistema. Sua identificação havia sido positiva,
pois, ao pernoitar no quartel da PM, levava apenas uma mala contendo livros
nitidamente subversivos, pouco dinheiro, e nenhum equipamento pessoal além
de uma pistola 7.65 engatilhada. Se tivéssemos sorte, com a prisão
certa do elemento talvez se descobrisse uma rede, ou, até mesmo,
o fio de acesso ao novelo de uma nova operação. Era uma perspectiva
excitante para a ocasião histórica do país.
Algumas horas depois, já nos preâmbulos
do quarto café, dessa vez junto com o Almirante, zelosamente abdicando
do lazer de sábado, vimos entrar o Oficial de Informações,
de papel na mão, excitado, dizendo:
- Recebemos o relatório da manhã.
O suspeito está sendo seguido no ônibus, e deve chegar em
40 minutos na Rodoviária de Florianópolis. O esquema para
prendê-lo já está pronto. Aliás, ele, no pernoite,
deu nome falso de Douglas Brotto.
Minha gargalhada foi absolutamente inconveniente.
A espontaneidade de meu novo humor mais do que surpreendeu, quase ofendeu
a atmosfera de séria ansiedade que já se estendia por 36
horas de tensão.
- Explique-se Tenente, disse o Almirante, já
desconfiando de algo insólito.
- É o homem, disse eu. Conheço-o bem,
e, com certeza o episódio combina com sua personalidade. E contei
o que sabia.
O desmonte da operação foi feito com
habilidade e discreção suficiente para não melindrar
os parceiros externos, e eu, evidentemente, fui responsabilizado pela forma
de receber e encaminhar a figura ao Distrito, sob condições,
agora, de meia suspeita. Chegou o Brotto, inocente, puro e sujo, com a
roupa de três dias de poeirenta viagem. Final feliz, tudo bem, mas
da andaina de roupa que lhe emprestei, há 25 anos, até hoje
não me devolveu a cueca.
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Primeiras páginas do livro de memórias do Brandão
Eram seis e trinta da manhã do dia quinze
de março de 1995.
Eu e uma grande mala de fibra marrom aguardávamos
na estação férrea de Engenho de Dentro, o início
da primeira, dentre as tão sonhadas viagens que me haviam motivado
ingressar na Marinha.
O João Paulo da rua Manoel Miranda, cedia
seu lugar ao Brandão. O "Doze", do Colégio Militar, acabara
de ser promovido a 55.0136.1...
Notrem especial que nos levaria a Mangaratiba, começou
o relacionamento com os novos companheiros:
- "Tem farmácia aí, ô
calouro?"
Ignorar a gíria naval custou-me um esparadrapo
sobre o buço ralo de meus quinze anos, arrancado de uma só
vez. As lágrimas ameaçaram, porem evaporaram-se no fogo sagrado,
que ardia dentro de mim, antes que qualquer veterano notasse.
Conduzidos por traineiras de pesca sujas, mal cheirosas
e instáveis a ponto de apontar candidatos ao "clube dos sempre mareados",
desembarcamos na Enseada Baptista das Neves, recebendo as boas vindas do
pessoal encarregado da adaptação:
"Todos em forma, testa por três, malas a boreste!
Sentido! Cobrir!"
Ainda trôpegos, sob a influência das
marolas que enfrentaramos nas últimas duas horas, famintos e desajeitados,
perfilamo-nos com o propósito de externar vontade e determina'vão.
A fachada imponente do Colégio Naval erguia-se
por trás do alto mastro da bandeira e nos vigiava, com seus múltiplos
olhos azuisem forma de janelas, contrastando com o branco das paredes.
No centro do prédio, o acesso ao pátio interno, como uma
enorme boca aberta em forma de túnel, nos aguardava, disposta a
consumir boa fatia de nossa juventude, em troca da tenacidade imprescindível
aos homens do mar.
Nas horas que se seguiram, continuamos a enriquecer
nosso vocabulário, decifrando quase que intuitivamente, termos novos
lançados aos borbotões:
- "Caxangá não é chapéu,
é cobertura!"
- Vê se dá volta ao papo, seu
Farol!"
- "Vai reformar a jacuba?"
- "Tá na onça com essa mala,
marujo?"
- "Calouro que tem juízo dorme antes do último
acorde do Silêncio, levanta antes da Alvorada e não se atrasa
para a Matutina."
E por aí foi, enquanto recebíamos
as peças dos uniformes internos, éramos apresentados à
rotina diária, visitávamos as instalações do
Colégio Naval, compartilhávamos as refeições
e nos recolhíamos extenuados ao alojamento, no fim do dia.
(Do livro "A Mala Marrom", edição da Imprensa Naval, 1987)
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Crônica saudosista do Gilberto, seguida de glossário
Para obter o significado
das expressões sublinhadas, apenas coloque o mouse sobre o ícone
respectivo, sem clicar
INTRODUÇÃO
A Turma Elmo nasceu em 1955 e recebeu essa denominação
por ser a quinta turma a ingressar no Colégio Naval - ELMO era a
quinta letra do alfabeto naval usado à época, que começava
com AFIR, BALA, CRUZ, DEDO e ELMO.
Num acesso de saudosismo e de nostalgia de quem está beirando
os sessenta, o presente trabalh#ero, cujo conteúdo foi inteiramente
retirado da memória, pretende constituir-se numa homenagem aos 40
anos da Turma.
Embarquemos, pois, no Trem da Saudade que parte
da gare D. Pedro II às 12 00 horas, viajemos até Mangaratiba,
e de lá, numa lancha da Companhia Sul Fluminense de Navegação,
própria para o transporte de gado, vamos navegar cerca de duas horas,
até avistarmos, meio mareados, a Ilha Francisca, depois de passarmos
pelo monumento ao Aquidabã.
Estamos, finalmente, no Colégio Naval, e
amanhã o nosso dia vai começar.
RECORDANDO
São 0600 horas da manhã, fuso PERA
,
e um toque estridente de campainha, seguido de uma irritante corneta, tira-nos
do sono e do beliche quente.
Estamos em Angra dos Reis, o tempo está chuvoso,
o crepúsculo matutino mal começou e alguém, ainda
no torpor do sono, apressa-se a correr à varanda dos alojamentos
e gritar:
- Chefe-de-Dia, haverá ginástica?
Passados alguns minutos, vem a informação
pelo fonoclama
:
Corpo de Alunos, haverá ginástica.
No alojamento 1 do primeiro ano, ouvem-se impropérios
e palavras pouco elogiosas a respeito das genitoras do Chefe-de-Dia e do
Oficial-de-Serviço.
Entretanto, a decisão está tomada
e o jeito é vestir o uniforme de ginástica : calções
brancos, camisetas azuis, sapatilhas
pretas e, por cima, o uniforme CN. Alguns demonstram sua pouca afinidade
com essa atividade e vestem o uniforme CN por cima do pijama.
Agora a campainha e a corneta convidam-nos para
a Parada Matutina. O Comandante-Aluno berra: “Batalhão, sentido!
Atrasados à ordem”. Segue-se uma verificação de presença
e um café puro, mais precisamente um chafé. Novamente, formatura,
agora no campo de esportes, para uma revigorante calistenia
.
Eventualmente, ela poderá resultar até numa basite
,
mas isto é apenas um detalhe.
É chegada a hora da faxina: banho frio (nem
todos são chegados, mesmo após o esporte), barba, arrumar
beliches, engraxar sapatos, limpar amarelos etc.. Ah, não esquecer
do uniforme de parada, aquele com melhor apresentação, para
bem impressionar os oficiais.
Alguns menos afortunados são convidados pelos
veteranos para fazer a mesma faxina no alojamento deles (veteranos). Será
problema do calouro, se o tempo for insuficiente para fazer as duas faxinas
e, como consequência, ele for torrado
e, posteriormente, em audiência do COMCA (Comandante do Corpo de
Alunos), isso lhe custar um fim de semana sem ir a Angra, sem Quaresma
Júnior
,
sem cabaré
,
sem dançar com a Sovaco de Cobra
no Clube Comercial e sem o bife com fritas do Teófilo, sem matiné
no Cine Araribóia em companhia da Puana
e, ainda, a perda de um dia de licenciamento para o Rio, no fim do mês.
Deve-se, ainda, considerar um felizardo se não
levar uns cruza-remos
,
ou alguns testômetros
,
pinguins
,
torres de Pisa
,
e se não for obrigado a aprender algum nome complicado de veterano,
através de patinhas de leão
.
Concluída a faxina
,
é hora do rancho. Estamos muito satisfeitos, pois hoje tem mingau
de sagú e ovoplast, um ovo estrelado que mais parece feito de plástico
e que vem nadando em óleo. Em compensação, o pão
terá que ser comido puro, pois na hora da divisão da manteiga,
os veteranos deram o tofa-se
.
“Atenção rancho! Rancho à vontade”
brada o Chefe de Dia. É chegada a hora da Parada. Mais uma vez,
campainha, corneta e o comando: “Batalhão, sentido! Atrasados à
ordem”. Seguem-se transmissão de ordens, revista e certamente algumas
papeletas
(brancas
,
é claro, pois as azuis
raramente são concedidas).
A campainha soou. É hora do início
das aulas. No anfiteatro, um professor com voz tonitroante agride a mesa
com os nós dos dedos enquanto grita: “menino!”. Em outra sala, o
Jabotí
tenta fazer graça sem a mínima graça. Para não
desprestigiá-lo e aproveitando a chance para uma boa zorra, rimo-nos
a valer, jogando livros e outros objetos para o alto ou jogando-nos ao
chão. Um terceiro, ao lhe ser indagado se é “envolvente
ou evolvente”, responde: “vou perguntar ao Airton”.
Terminam as aulas do período da manhã
e novamente é hora do rancho. Um colega calouro é convidado
pelos veteranos a comer nas máquinas ( embaixo da mesa). É
humilhante, mas não deixa de ser engraçado (com os outros).
Um dos pratos é empada, e os veteranos, após
se servirem, decidem-se por uma regata. Ela consiste em obrigar cada calouro
a enfiar uma empada inteira na boca, empada essa bem maior que as normais,
e tentar assoviar. O primeiro que conseguir tem direito a comer uma nova
empada. Quanto ao último, só Deus sabe qual será seu
castigo.
“Atenção, rancho! Rancho à
vontade”. Os vários veteranos que se encontram junto à porta
lateral, agachados atrás das mesas, saem em desabalada carreira
para piruar
a sinuca. Salão de recreio para calouro,nem pensar. Pelo contrário,
é bom ficar longe da porta para não ser obrigado a safar
a bola sete, quando o veterano estiver prestes a matá-la.
No pátio interno, vários calouros
fazem ordem unida com palitos de fósforos como se fossem fuzís.
Outros se atiram ao chão, quando são metralhados
por veteranos.
No Salão de Leitura, cujo acesso aos calouros
é permitido a partir de determinada época do ano, a radiovitrola
“hi-fi” toca um 78 rotações com Sammy Davis Jr. interpretando
“Because of You”. Aumenta a saudade de alguém que está a
seis horas de viagem de ônibus pela Serra d’Água, Lídice,
Itaverá, Passa Três e Barra Mansa. Afinal de contas, ainda
não temos a Rio-Santos.
Mais um tempo de aula, no qual o sono é quase
insuportável. Mas temos de resistir heroicamente.
Começa o sexto tempo, destinado a atividades
práticas e esportivas.
Um grupo terá aula de voleibol com determinado
monitor que a inicia assim: “meu nome se chama-se ..."; "existem dois tipos
de quadras de volei: as grandes e as pequenas. Esta, por exemplo, é
média”.
Meu grupo terá defesa pessoal com o Kid
Malvadeza
,
mas uma forte diarréia deixou-me debilitado. Vou à revista
médica e o doutor, após ouvir minhas lamentações,
acha que estou me escamando
.
Mesmo assim, concede-me uma dispensa, e como medicação, receita
uma injeção de aplicação intravenosa, para
ser aplicada no músculo. A dor é horrível.
O enfermeiro de serviço é rubro-negro
doente e o Flamengo perdeu o último jogo, o que lhe deixou com extremo
mal humor .
Por isso, ele decide se vingar em mim: introduz
primeiro a agulha, e, depois, encaixa a seringa. Terminada a aplicação,
ele vai cuidar de outros afazeres e esquece a seringa espetada no meu braço.
Quando resolve retirá-la, o faz por etapas:
primeiro a seringa, e, depois, a agulha.
Ao passar pela quadra de basquete, próxima
da cantina, avisto um furgão estacionado junto ao muro que dá
para o mar. Segundo o boato que está correndo, trata-se de algum
alfaiate que veio fazer a prova do jaquetão e do branco externo
.
Estamos todos ansiosos para ter, uniformizados,
a primeira licença ao Rio: jaquetão e pelerine
dobrada e estendida sobre o braço.
Qual será o alfaiate? Casa Pátria?
Casa Moraes Alves? Ou será o Antônio Talarida? A decepção
toma conta de mim ao saber que meu jaquetão
vai demorar um pouco mais. O alfaiate não é o meu.
Segue-se, então, um período de atividades
livres, vindo a seguir o jantar. O cardápio inclui a sopa Lavoisier
,
feita com o feijão que sobrou do almoço.
Durante o jantar, os veteranos aproveitam para nos
obrigar a saborear um ponche: mistura de sopa, salada, arroz, azeite, jacuba
e tudo o mais que houver na mesa.
“Atenção rancho! Rancho à vontade”.
Vamos para a ponte de escaleres. Alguns se isolam pensativos e solitários,
com saudades da família ou de alguém muito querido. Outros
se envolvem num bom papo , tudo isso, é claro, se os veteranos permitirem.
Voltando ao pátio interno, encontramos trepados
em cada poste de iluminação, um ou mais calouros com a missão
de soprar as lâmpadas até que elas se apaguem. Mais uma vez,
são ordens dos veteranos.
Agora são 1900 horas e o estudo obrigatório
vai começar. Todos às salas de aula, encornômetros
na testa, vamo-nos preparar para a prova de álgebra de quinta feira.
Estamos certos de que mesmo bem preparados, erraremos várias questões
e na hora da revisão de prova vamos ouvir do professor: “tem log
? Tem colog?
Então não pode”.
Alguns veteranos aproveitam para fazer suas encomendas
de lápis de propaganda e de flâmulas (está na moda
colecionar esse material) para serem trazidos quando do licenciamento ao
Rio.
Outros passam suas rifas do relógio da torre
do Colégio, da mulher do Comandante e de outros objetos menos valiosos.
Mas se hoje é dia de cinema, não há
estudo obrigatório e a rotina é outra.
Às 2000 horas, vamos para o ginásio
e enquanto aguardamos o início da sessão, ouvimos aquele
disco selo MGM, no qual David Rose interpreta de um lado, “An American
in Paris”, e do outro, “Tenderly”.
É possivel que no decorrer do filme, algum
aluno escape sorrateiramente do ginásio, para um encontro com uma
doméstica atrás do muro das lamentações
.
Chega, finalmente, a hora da ceia. Hoje não
haverá mate brochante
.
Em seu lugar, será servido um suculento toddy.
A escolha foi feita pelo Oficial de Serviço,
quando lhe comunicaram: “Tenente, o leite estragou”, ao que ele prontamente
respondeu: “Não pega nada, faz toddy”.
Isto traz uma vantagem. Quem fizer um viva a
Marinha
,
no dia seguinte não estará com o mescla
cheirando a leite estragado.
Às 2130 horas começa o toque triste
de silêncio, melodiosamente tocado por aquele corneteiro, enchendo-nos
de melancolia e saudades. Aumenta a ansiedade pela chegada do dia do licenciamento
para o Rio.
Uns poucos superdotados e outros tantos arvorados
vão dormir, até que os veteranos, numa caçada noturna
,
os acordem para um banho frio. A maioria, entretanto, permanece nas salas
de aula, encornômetros em posição.
São 0600 horas da manhã, fuso Pera,
e como hoje é dia de entregar roupa para a lavanderia, ouvimos aquele
brado já bastante familiar: “olha o ral
!
Vamos se acordá! Olha o ral!”, parte de alguém com nome de
Almirante famoso, mas que com sua simplicidade e sua humildade, tornou-se
muito estimado por todos nós.
Alguém se dirige à varanda dos alojamentos
e pergunta: “Chefe de Dia, haverá ginástica?”.
Arregooooo
!
Vai começar tudo de novo.
CONCLUSÃO
Os fatos narrados traduzem, mais que recordações
de um tempo que se foi e não volta mais, mais que a experiência
de jovens que aos 16 anos deixaram o seio da família e foram submetidos
a uma disciplina e a um sistema de vida não muito fácil de
aceitar e absorver.
Representam o início de vida profissional
de Oficiais de Marinha que ao longo de mais de 30 anos de serviço,
dedicaram-se integralmente à sua carreira de vocação.
Doze alcançaram o Almirantado, aspiração máxima
de todos.
Representam, ainda, o nascedouro de uma amizade
sólida e desinteressada, tão rara de se encontrar, que se
completou com o ingresso dos demais colegas diretamente à Escola
Naval e que se prolonga até os dias atuais, envolvendo, também,
nossos familiares.
A Turma Elmo, a exemplo de outras turmas, mas talvez
de modo especial, configura um exemplo de camaradagem eterna, que começou
há 40 anos e que haverá se prolongar pelos tempos, pois nossos
filhos e netos estão a perpetuá-la.
Se Deus me concedesse a graça de voltar no
tempo, eu não teria a menor dúvida: retornaria à gare
D. Pedro II e embarcaria com a TURMA ELMO no Trem da Saudade.
GLOSSÁRIO
AMARELOS - peças do uniforme feitas de latão
e que exigiam limpeza com líquido apropriado;
ARREGO - expressão que se usava quando algo se
tornava insuportável ou intolerável;
ARVORADO - aquele que não tem mais chances de
aprovação em determinada matéria e, portanto, não
se preocupa em estudá-la;
BASITE - pelo que se ouvia dizer, era um inflamação
na base do pulmão causada pelo frio e pela humidade;
BRANCO EXTERNO - o uniforme branco usado em bailes e
festas;
CABARÉ - local afastado do centro da cidade de
Angra dos Reis, de baixo meretrício, porém um pouco mais
requintado que o da Rua Quaresma Júnior, cujo acesso era proibido
aos alunos, pelo Comando do Colégio;
CAÇADA NOTURNA - grupo de veteranos que durante
a madrugada iam ao alojamento dos calouros e os obrigavam, dentre outras
coisas, ao banho frio;
CALISTENIA - ginástica feita pela manhã
CRUZA-REMOS - trote aplicado aos calouros, que consistia
em obrigá-los a entrelaçar os dedos esticados, os quais eram,
então, apertados pelas extremidades;
ENCORNÔMETRO - pala verde que se colocava na testa,
muito usada por redatores de jornais, a qual, segundo se acreditava, evitava
prejuízos à visão durante o estudo noturno;
ENVOLVENTE (EVOLVENTE) - nome de determinada curva em
Geometria Descritiva;
ESCAMAR - tentar livrar-se de algo, por meio de mentira,
fingimento ou simulação;
FAXINA - asseio pessoal: banho, escovar dentes, fazer
a barba e preparo do uniforme;
FONOCLAMA - sistema de alto falantes, através
do qual eram transmitidos as ordens e os toques de rotina;
FUSO PERA - fuso horário, hoje denominado PAPA;
JABOTÍ - apelido de um dos professores;
JACUBA - refresco;
JAQUETÃO - uniforme azul marinho com botões
dourados, usado para licenciamento ao Rio de Janeiro e em outras ocasiões
especiais;
KID MALVADEZA - apelido carinhosamente atribuído
ao professor de defesa pessoal;
LOG, COLOG - abreviaturas de logarítimo e cologarítimo;
MATE BROCHANTE - bebida feita com erva mate, a qual,
segundo se acreditava, reduzia o libido dos alunos;
MESCLA - o mesmo que uniforme mescla, que era o uniforme
de uso diário, exceto aos sábados, domingos e feriados;
METRALHAR - trote em que os veteranos, ao passar por
um grupo de calouros, fingiam estar dando uma rajada de metralhadora, o
que obrigava a todos os calouros a se atirarem ao chão;
MURO DAS LAMENTAÇÕES - muro com as inscrições
“mens sana in corpore sano”, localizado junto à quadra de tênis,
atrás do qual eram aplicados trotes violentos;
PAPELETA - parte de ocorrência por falta disciplinar;
PAPELETA BRANCA - o mesmo que PAPELETA;
PAPELETA AZUL - comunicação de ocorrência
digna de elogio;
PATINHA DE LEÃO - maneira pela qual o nome do
veterano era soletrado, enquanto o calouro recebia, para cada letra, uma
pancada no peito, dada com as pontas dos dedos unidas;
PELERINE - capa azul de lã, forrada internamente
de cetim, que os alunos eram obrigados a transportar dobrada sobre o braço
esquerdo;
PINGUIM - outro tipo de trote em que o calouro era obrigado
a flexionar parcialmente as pernas, enquanto mantinha os braços
dobrados em ângulo reto nos cotovelos e os dedos indicadores de ambas
as mãos, apontando para cima. Quando cansava, o calouro tinha permissão
para trocar de dedos;
PIRUAR - tentar ou candidatar-se a fazer algo;
PUANA - apelido atribuído a uma senhorita (?),
resultante da combinação da última sílaba de
seu nome (ANA), com outro termo infelizmente impublicável;
QUARESMA JÚNIOR - rua de Angra onde se situava
o baixo meretrício, mais conhecida como ZBM;
RAL - o mesmo que ROL, quando pronunciado pelo encarregado
da lavanderia;
SAFAR - resolver, solucionar, retirar, surrupiar;
SAPATILHA - sapatos pretos com sola de borracha, próprios
para ginástica, componentes do uniforme de esportes dos Alunos do
Colégio Naval e dos Aspirantes da Escola Naval;
SOPA LAVOISIER - sopa feita com algo que sobrou de outra
refeição, geralmente feijão, e cujo nome foi atribuído
graças ao famoso Princípio de Lavoisier: “na natureza nada
se perde, nada se cria; tudo se transforma”;
SOVACO DE COBRA - apelido atribuído a determinada
senhorita da cidade, cujo odor axilar era insuportável;
TESTÔMETRO - outro tipo de trote em que o veterano
colocava as pontas dos dedos na testa do calouro e determinava que este
fizesse força com a cabeça para a frente. O veterano deixava
que a cabeça escapasse da ponta dos dedos, indo a mesma, em seu
movimento para a frente, chocar-se com a palma da mão do veterano;
TOFA-SE - termo publicável e pronunciável
e que substituia outro com grafia semelhante e cujo significado era de
que algo ruim acontecera;
TORRADO - o aluno que recebia uma papeleta, em virtude
de falta disciplinar;
TORRE DE PISA - trote que consistia em colocar o calouro
com o corpo inclinado para a frente, escorando-se numa parede com a testa.
VIVA A MARINHA - trote que consistia em despejar leite
gelado e bem açucarado dentro da manga do uniforme mescla, e mandar
o calouro levantar o braço e gritar “viva a Marinha”. O leite escorria
até sair pela perna da calça e, no dia seguinte, o uniforme
amanhecia com forte odor de leite estragado.
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MEMÓRIAS DO ÚLTIMO
GOVERNADOR MILITAR
DE FERNANDO DE NORONHA
Depoimento original do Governador Monteiro
NOMEAÇÃO E POSSE DO PRIMEIRO OFICIAL DE MARINHA
No primeiro semestre de 1986 - após décadas
de vinculação administrativa ao Ministério do Exército
(ME), e os últimos seis anos ao Ministério da Aeronáutica(MA),
quando então eram nomeados para o cargo de Governador Oficiais daquelas
Forças - o Território Federal de Fernando de Noronha (TFFN)
passava a ser vinculado ao Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA),
na gestão do Ministro Almirante-de-Esquadra Amaral.
Ao assumir aquele Ministério, ainda no mesmo
ano, o General-de-Exército Campos Paiva resolveu substituir o Coronel-Aviador
Sirotheau, que se encontrava no cargo desde 1984, por um Oficial de Marinha,
selecionado entre os Oficiais que serviam no EMFA. O propósito do
Ministro era, cumprindo decisão presidencial, transferir, em curto
prazo, a vinculação administrativa para o Ministério
da Justiça e Interior, quando seria nomeado um governador civil.
Em 24 de novembro, nomeado pelo Presidente da República
Governador e Comandante da Guarnição Militar do TFFN, eu
chegava à ilha para iniciar a experiência mais penosa e, ao
mesmo tempo, mais gratificante de minha vida profissional.
Na quadra de esportes da escola do arquipélago,
na presença de minha mulher Suely, do Ministro da Marinha AE Henrique
Sabóia, do Comandante-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais AE (FN)
Carlos de Albuquerque, do Governador do Rio Grande do Norte e de outras
autoridades militares e civis, recebi o cargo de meu antecessor, destacando
no meu discurso a intenção de dedicar-me inteiramente aos
problemas da ilha e de seus residentes.
RADIOGRAFIA DA ILHA
O arquipélago de Fernando de Noronha é
um conjunto de vinte e uma ilhas, ilhotas e rochedos de origem vulcânica,
destacando-se as ilhas de Fernando de Noronha, Rata, Rasa, Do Meio, Sela
Ginete e Lucena. A única ilha povoada é a primeira (capital
Nossa Senhora dos Remédios), com uma extensão aproximada
de 26km2, e distante 356km de Natal, 545 de Recife e de Dakar 2600km.
As duas visitas que anteriormente havia realizado
à ilha - na primeira como representante do Ministro Amaral, integrando
o Destacamento Precursor da Presidência da República, para
os preparativos da visita do Presidente Sarney e, na segunda, já
virtualmente Governador, integrado na comitiva do Ministro Campos Paiva,
para o primeiro contato com o mandatário exonerado, e as Altas Autoridades
Militares da Região - aliadas ao conhecimento dos relatórios
existentes no EMFA, permitiram-me antever, antes de receber o cargo, a
situação precária dos recursos disponíveis
e das dificuldades de toda a ordem que iria enfrentar tão logo desembarcasse
no Território.
O meio ambiente bastante comprometido, devido à
ocupação sem consciência ecológica e à
falta de recursos adequados ocorridas ao longo de muitos anos.
As trepadeiras "tiririca" e "jitirana" e outras
espécies de plantas trazidas do continente se estendiam por várias
áreas, causando sérios danos à vegetação
primitiva da ilha.
A avifauna ameaçada pelo teju (lagarto grande
do Nordeste), que ali colocado para combater as ratazazanas e catitas (pequenos
roedores), preferiu alimentar-se de petiscos mais nobres: ovos e filhoes
de aves.
De pouca diversidade, a fauna marinha sofrera no
passado pesca indiscriminada, sendo atualmente proibida a pesca submarina.
O santuário do golfinho rotador, localizado numa pequena enseada
da ilha, onde também se encontram formações de corais,
vinha sofrendo constantes violações por embarcações
e mergulhadores; a Praia do Leão, local de desova das tartarugas
verdes (espécie em extinção), era frequentada por
turistas durante todo o ano.
Com excessão do prédio desativado
onde funcionou, em tempos idos, o Quartel do Exército, e de uma
pequena casa petencente à Marinha, atual residência do gerente
do Banco Real, todos os bens imóveis da ilha - inclusas as 220 residências
dos ilhéus, o Palácio do Governo e algumas instalações
administrativas - eram de propriedade do Governo. A maioria apresentava
péssimo estado de conservação, necessitando obras
de recuperação e/ou manutenção. O único
hotel da ilha, ocupando antigos galpões construídos pelos
norte-americanos durante a 2a. Guerra Mundial, estava arrendado a uma emprêsa
de turismo de Recife.
As salas de aula da escola, assim como o Clube das
Mães haviam sido demolidos, e as obras de ampliação
do açude paralizadas, com o retorno ao continente dos técnicos
e operários.
Os equipamentos pesados de engenharia pertencentes
à Aeronáutica também haviam sido retirados da ilha,
restando tão somente algumas viaturas administrativas e algumas
viaturas pesadas, a maioria inoperante, com mais de cinco anos de uso e
em péssimo estado de conservação.
A população, constituída em
sua maioria de jovens, estimada em 1200 habitantes, formava uma sociedade
atípica, que gozava de privilégios jamais encontrados em
nenhum recanto do país - residência, serviços públicos
(água, luz e telefone), assistência médica e educacional
e transporte aéreo para o continente totalmente gratuitos.Quase
todas as famílias dispunham de fogão à gás,
geladeira, freezer, rádio, televisão, video-cassete e ventilador.
Os adultos, em sua maioria, faziam parte do "quadro de funcionários"
na categoria de servidores públicos federais vinculados aos Ministérios
Militares, não sendo raro presenciar-se de manhã jovens ilhéus,
com seus cabelos parafinados, surfando nas praias, e, à noite, ensinando
aos turistas a dança da lambada no bar do hotel.
Embora cerca de 170 ilhéus se dedicassem
a alguma atividade agropecuária, sem nenhuma orientação
técnica, em verdade apenas 30 cultivavam áreas significativas,
plantando milho, mandioca, feijão, e/ou criando suínos, caprinos,
ovinos e galinhas.Conquanto a região circunvizinha não fosse
piscosa em termos de atividade econômica, onze pescadores se dedicavam
esporadicamente à pesca de rêde em alto-mar.
O Território não possuia os Poderes
Judiciário e Legislativo , nem tampouco uma organização
administrativa e um quadro de pessoal próprios aprovados pelo Governo
Federal, à excessão dos cargos de Governador e Secretário
Executivo. Desse modo, os governadores adotavam uma estrutura organizacional
interna que melhor lhes permitissem, com o pessoal militar disponível
(nos governos anteriores com 20 Oficiais e 150 Praças) dirigir e
coordenar os diversos setores administrativos guarnecidos por 320 servidores
civis, via de regra, com pouca ou nenhuma capacitação profissional,
fruto do paternalismo exacerbado de governos anteriores.
Ainda que a passagem de responsabilidade de supervisão
administrativa do MA para o EMFA houvesse ocorrido vários meses
antes da mudança do governo, ainda na gestão do AE Amaral,
a nova guarnição constituída de militares das tres
Forças não havia chegado à ilha. A Aeronáutica,
esgotado o prazo previsto no cronograma de movimentação,
já havia retirado do Território mais da metade do efetivo,
inclusive todos os médicos e dentistas do hospital, e os poucos
militares que ali permaneciam se encontravam em trânsito, estando
a administração praticamente entregue aos civis.
O Escritório de Representação
do Território em Recife, chefiado por um Oficial Intendente, constituia
uma verdadeira base de apoio logístico, providenciando a aquisição
e remessa de gêneros alimentícios, materiais de construção,
combustíveis, gás e artigos de toda a espécie para
a ilha.
O transporte entre o continente e o Território
era realizado por aeronaves da FAB e pelo avião a jato da VASP,
que aos sábados trazia e levava para Recife uma média de
80 turistas do pacote turístico. A programação mensal
de oito viagens de aeronaves de carga C-130 e BUFALO, em vigor há
vários anos, fora reduzida drasticamente; a disponibilidade do avião
AVRO que quinzenalmente transportava 30 passageiros para Recife e 4 para
o Rio de Janeiro também diminuíra mais da metade.
No tocante ao transporte marítimo, a corveta
ou o rebocador da Marinha prestava apoio a cada dois meses, transportando
carga geral e principalmente combustíveis e gás engarrafado.A
falta de um porto dificultava sobremaneira a faina de desembarque, que
se iniciava com o transbordo da carga para uma pequena embarcação
de desembarque, e o lançamento de mangueiras e mangotes flutuantes
para a descarga dos combustíveis (óleo Diesel e gasolina),
a partir de um fundeadouro localizado a mais de cem metros da praia.
Ainda que a distância para Natal fosse menor,
as aeronaves e os navios demandavam a ilha partindo de Recife, pois nesta
praça as facilidades administrativas, de comércio e de apoio
eram bem mais significativas e diversificadas.
INICIO DO NOVO GOVERNO
No primeiro dia, a equipe de Governo estava constituída
do Governador, do Secretário Executivo, Tenente-Coronel Samary (Oficial
voluntário que servia no EMFA e lá chegou comigo), do engenheiro
Justo, antigo funcionário que se encontrava banido do Território,
do Encarregado do Pessoal Civil, Sr. Wilson, antigo morador da ilha, do
Chefe do Escritório de Representação, Major Gadelha,
que aguardava a chegada do Capitão-Tenente (IM) Angelo (Oficial
que estava servindo no Comando Naval em Brasília e era tesoureiro
do ClubeNaval, e de algumas Praças da Aeronáutica selecionadas
para reassumirem as chefias de postos-chave: usina termo-elétrica,
estação de tratamento de água, garage, hospital, super-mercado,
etc.
Critérios e procedimentos novos foram imediatamente
adotados em vários setores da administração, destacando-se
entre outros:
-adoção do
uniforme interno de campanha ou correspondente para o Governador e todos
os militares durante o expediente, visando melhorar a disciplina e o melhor
enquadramento da equipe de Governo quepassava a lidar exclusivamente com
assuntos civis, visto que a Guarnição Militar jamais chegou
a ser ativada de fato - não havia mais Quartel, nem efetivos de
pessoal compatíveis, e nem tampouco armamento, munição
e equipamentos; todavia, já no continente, mormente em visitas às
autoridades militares, para não ser tratado como simples Oficial
Superior, o Governador trajava passeio completo;
- adoção de
medidas de higiene e limpeza permanentes no estábulo e no super-mercado,
antes verdadeiras pocilgas;
- distribuição
diária da pequena produção de leite, com prioridade
de atendimento para crianças e idosos (a prioridade até então
era para os Oficiais, suas famílias e alguns bichinhos de estimação);
- venda de gêneros
alimentícios no super-mercado, mediante senha , que estipulava horário
de atendimento e quantidade proporcional ao número de pessoas da
família (outrora, todos os militares compareciam ao local tão
logo chegavam as mercadorias, adquirindo para estoque a maior parte dos
produtos, destinando-se as sobras para a população civil);
- proibição
da exibição de filmes pornô no cinema, prática
que vinha sendo incentivada, e com entrada de menores permitida, devido
à queda de frequência, com a chegada à ilha da TV via
satélite;
- controle rigoroso de entrada
e saída de pessoal na ilha, não se permitindo a permanência
do turista por mais de uma semana, nem tampouco a vinda de pessoas para
residirem com seus parentes;
- controle rígido
da estadia de veleiros, principalmente estrangeiros, que aportavam à
ilha com grande frequência, sendo proibida a aquisição
de gêneros alimentícios e bebidas no super-mercado;
- adoção de
rigoroso critério para o embarque e o retorno dos habitantes em
aeronaves para Recife, obedecendo à ordem de inscrição
na fila de espera, com prioridade para o pessoal em serviço ou necessitando
de atendimento médico no continente.
A fim de minorar a carência de serviços
médicos, o Governo usou o ardil de convidar para jantar na residência
do Governador turistas médicos e dentistas que prestassem atendimento
de emergência à população; um jovem dentista
da Marinha trocou a hospedagem gratuita na ilha durante quinze dias por
prestação diária de serviços no hospital.
Para reduzir o tempo de descarga geral no porto,
adotou-se uma organização de pessoal similar à do
Destacamento de Praia dos Fuzileiros Navais, estabelecendo-se equipes mistas
de civis e militares para as fainas de desembarque; nessas ocasiões,
o Secretário Executivo comparecia à praia, para apresentar
as boas-vindas ao Comandante e convidá-lo para almoçar com
o Governador, procedimento idêntico instituído também
no aeroporto, por ocasião da chegada dos aviões da FAB. Antes,
a desordem na praia e a ausência de um Oficial para receber o Comandante
do navio, suscitara a ameaça do Comandante do 3º Distrito Naval
de cortar o apoio dos navios da Marinha.
Contudo, o maior desafio e preocupação
eram as obras de maior urgência que deveriam ser iniciadas antes
da chegada da estação das chuvas em fevereiro, quando, então,
se tornaria impraticável o trânsito de viaturas pesadas nas
estradas da ilha:
- reconstrução
de dez salas de aula e uma biblioteca demolidas anteriormente, por razão
desconhecida, a fim do ano letivo ser iniciado sem atrazo;
-retomada das obras de ampliação
do açude do Xaréu, principal fonte de abastecimento de água.
Resolveu o Governo tocar as obras com o pessoal
da ilha, convocando os poucos e antigos funcionários que exerciam
funções de carpinteiro, mestre-de-obras, pintor e mecânico
de viaturas para, sob a direção do engenheiro Justo, iniciarem
a reconstrução da escola e a recuperação das
viaturas de engenharia .
Como as obras do açude - uma barragem de
150 metros de extensão que deveria ser alteada em 3 metros e sua
parede externa forrada de areia, pedras e grama - exigissem conhecimento
té