Nossos Artistas

Poesias
    
Araujo (Pururu) - Ressurreição / No Fundo da Gaveta
       Brotto - Regata no Sábado
     Carlos Castellar (Antunes) - Fantasia / Confissão / Dúvidas/Saudades/
                                                Novo Amor

     Couto Netto - Pessoas Ondas
      Netto dos Reis - Poema do Amor Eterno / Ressurgência
  
   Poeck - O Embate do Temporal
     Poeck - Noturnas Borboletas de Veludo
      Ronaldo Netto dos Reys - Poesias da Nova Fase
     Tangari - Uma Lágrima      


RESSUREIÇÃO
                                    Ronaldo Lobo de Araujo (Pururu)

Último ato, fim da peça.
O pano desce sobre o palco.
Sem aplausos, sem platéia.
Nos bastidores, exaustos,
Choram os personagens.
Atores e personagens
Olham-se, calam-se.
As luzes vão se apagando.
Fim do fim, acabou...
Desmonta-se o cenário, 
O rescaldo do incêndio.
Esquarteja-se o que sobrou
De tudo que, um dia, fora
Para ser compartilhado.
Todos se sentam no chão.
Choram. Choram.
Resta a dor, mais uma,
Do saber-se vencido.
Das batalhas perdidas,
De tudo que foi ficando
Pelos caminhos, descartado.
No campo da luta,
Uns sobre outros, 
Os despojos, 
Os cadáveres insepultos
Dos sonhos, das ilusões,
Do que foi e não mais será.
Resta uma última lágrima
Ainda não chorada,
A que será...
Resta o pranto contido, eterno,
Na recordação de tempos idos.
Resta o arrepender-se tardiamente.
Lembranças daqueles dias,
Incontáveis dias de uma vida.
Resta, enfim, tão somente,
A esperança da luz.
Uma nova ordem 
A substituir o caos.
A teimosia da ressureição.
O desejo das feridas curadas,
O estancar do sangue,
O andar sem muletas,
O grande esforço de ser,
Apenas ser, continuar sendo.
Resta o desejo de ser
Um Deus menino, moleque,
Brincando com a seriedade
Da vida, do viver.
Ser o garoto sábio,
De tudo achando graça.
O eterno adolescente,
Repleto de sonhos.
Sonhar é preciso.
Resta sempre,
Até quando for,
O inexorável futuro

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NO FUNDO DA GAVETA

                                        Ronaldo Lobo de araujo (Pururu)

O grito preso na garganta,
A lágrima que não rola,
Sentimento contido no peito.
Desejo de mudar, rasgar,
Abrir, deixar sair, desbloquear.
Desejo de uma vida maior,
Destruir o que me destrói
Acabar com o que me impede.
Jamais o ser sem coração,
Jamais a indiferença anestesiante.
Viver, sangrar, arriscar
Porque o que é, hoje não o é...
Explodir em raios de luz,
Em sons, em cores, em perfumes.
Explodir em amor. Ser o amor.
Mudar, retroceder no tempo,
Trinta, quarenta anos atrás,
Viver tudo de novo, ao contrário.
Virar pelo avesso,
Sem medo, sem culpa, sem pecado.
Gritar para o universo quem eu sou.
Gritar a minha liberdade,
Mostrar as algemas partidas,
Os grilhões quebrados.
Felicidade daquele que conseguiu
Do que rompeu e renasceu.
Saber que tudo acabou,
Não sou mais eu, sou Eu,
O que não teme,
O que não se detém.
O entusiasmo juvenil,
A volta dos sonhos perdidos
Na longa noite de trevas.
(Dançar de rosto colado com a 
menina de tule, no baile de
formatura .)
Outro eu, o que ainda não é,
O que quase já foi.
Desejo de ser, de abrir os braços,
Abrir o coração,
Fechar os olhos, voar.
Libertas quae sera tamen
As lágrimas rolando de felicidade,
O amor, declarado, ecoando,
Voltando numa voz de mulher.
Acordar sorrindo para a vida.
Dormir agradecendo o dia.
O sangue a mil nas veias.
Não mais esta merda sem sentido.

Ver sentido em mim,
Sentido no viver, 
Sentido até nas porradas levadas.
Da geladeira para o forno,
Da Antártida para o Equador.
Queimar, arder, espalhar as chamas.
Ser a chuva, ser o vento, ser o verão.
Ser o sussuro no ouvido,
O ansiosamente esperado,
Recebido com sorrisos,
Com brilhos nos olhos,
Com tapete vermelho,
Com palavras ditas com as mãos,
Recitadas com o olhar:
__”Que bom que você veio,
Que você vem, que você está,
Que bom que você é, e eu sou,
E nós somos. Que bom que te amo”
Chopin, Beethoven, os sons,
As músicas, sublimes, divinas,
Derramando o que vem do fundo,
As músicas das paixões.
O tango, quente, sofrido, sensual.
O tango da vida, das nossas vidas
Importa o hoje, o agora, o momento.
O amanhã aos deuses pertence.
Quero já, quero agora, hoje
Chega! Basta de eternidades perdidas,
Cinzas jogadas ao vento.
Quero já, agora, as luzes, o sol.
Quero a vida, os erros e os acertos,
Quero me embriagar. 
O porre da felicidade.
Quero a criança de pé depois do tombo,
Quero o rapaz sonhador, romântico.
Sentir o gosto da juventude em minha boca.
Encontrar, no fundo da gaveta,
O sentimento perdido, esquecido.
Que legal que, sem saber, te guardei.
Que bom que te encontrei,
Depois de tanto, tanto tempo,
Estás, aqui, comigo, outra vez,
Agora para o sempre.
Vamos em frente, vamos juntos.
Vamos enfrentar o mundo,
Contigo tem mais sentido, 
Até vale a pena.
Vamos juntos, de mãos dadas, até o fim.

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REGATA NO SÁBADO
                Brotto

 

No dia da regata
bateu fraca e leve brisa...
O tap-tap das velas...

O  Três  atraca de  prôa
no velho cais de cimento.

- Com os diabos !
Onde está a buja grande
p'ra completar o velame ?

Bittencourt   e   Lucimar
dêem uma busca nos  barcos !

Um bicho do escaler Um
tinha-a, safado, escondida
no fundo da casa-do-cão...

Ô, seu calouro de m........
isso é coisa que se faça ?


Suave,  um  marulho 
cresce e nos enche os ouvidos...
Suavemente.

Lento, lento, esse marulho
se transforma em mar irado.

Engrossa o sudoeste -
Mal se ouve o fonoclama
ao estrondar das ondas...

- À ordem todos os patrões !
Formar junto ao portaló .

A faina continua -
P'ra bordo o lanche e o corote
com água bem fresca.

Estais tesos à bombordo
para a primeira pernada .

Barcos prontos -
Tensos, aguarda-se a ordem
p'ra desatracar.

Redobra, forte, o sudoeste -
voam caxangás e gaivotas...

Percurso triangular -
Entre a ponte e a Taperinha
a linha de largada .

Aquartelar já a buja
para a primeira cambada ;

rolando demais
o escaler sem bolina...
bochecha cerrada ;

cruzar por entre as Botinas
vento través por boreste ;

em asa de pombo
pelo canal das dos Porcos
aproando à Barra Norte ;

cuidado com a retranca !
hora de cambar o grande ...

Proa no Calombo -
Deixar p'ra trás o farol
ao vento de alheta .

rumo à reta de chegada
entre a Francisca e Andorinhas...

A maré bem alta
só deixa à vista umas pontas
de pedras enegrecidas .

Linha de chegada -
Primeiro barco a cruzá-la
é da minha companhia ! ! !


Esta, a regata sonhada,
no sonho de todos os patrões ,

===========================================
Poeck, Confôrto, Sóssó, Krüger, Helio Paes , Sampaio,
Adriano, Bubu, Kasniakowski, Pig, Ferrari Rey, Vilain,
Custódio, Prado, Barnabé, Ventura, Penna Neto, Camargo
Freitas, Tourinho , Mário Fernando, Rio Lino, Nascimento,
Piccozzi, Carboni, Motta e Silva, Cunha Pereira, Fontoura,
Correia, Carboni,  Johnson, Hermes

e outros, de que ainda vou  lembrar...
===========================================

Da Sala de Estado
formados e apresentados]
vêm-nos novidades  :

- Fica suspensa   a   regata
por confirmado o máu tempo.

De novo no cais -
Gola erguida, mãos nos bolsos
das japonas azuis.

Baixar mastros, deitá-los
nos  cabides  do  Paiol.

Às rajadas, soa falho
num só toque de corneta
o aviso da Bandeira.

Vultos negros contra o céu
qual nas gravuras de Goeldi...

Soando o prep .
Sobe rápida a bandeirola
do branco-e-azul...

Ao  "arriôoo"  soa o apito
para o descer do auriverde...

Ao fora de forma
o papo corre nos grupos
ao longo da amurada...

Num combinam,  sotovoce
passarem  a   noite  no  Anil...



Fantasia
            Carlos Castellar (Antunes)

Esta noite no Cinema,
Me emocionei...
Uma estória de amor,
Eu chorei...
    Uma estória de cinema
    Muito bem contada
    Falava da angústia da procura
    Da procura da mulher amada.
        Se a vida, a arte imitasse
        Essa estória eu viveria.
        Atravessaria o tempo,
        Minha amada encontraria
           Da estória impossível
            Restou a melancolia.
            Coisas de cinema,
            Pura fantasia.

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CONFISSÃO
                    Carlos Castellar (Antunes)

Sei, com certeza,
Que poeta não sou.
Da métrica, pouco entendo,
Apenas escrevo, versejando vou.

Minhas rimas, muito simples,
Sem rebuscamento, singelas,
Trazidas pelo sentimento,
Pura emoção, assim são elas.

Verve, um dia, hei de ter,
Rimas e métrica dominar,
Sonhando poesia, versejando.

Poeta pudesse ser,
Versos rimar, metrificar,
Vivendo poesia, poetando.

Versar: “Sempre haverá uma poesia popular sem arte, e poetas populares sem
apuro gramatical e métrica, versejando com o falar da gente rústica”.
( Olavo Bilac – Últimas Conferências p.23 )

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DÚVIDAS...

       Carlos Castellar

Viver em sentimento,
Deixando livre a emoção?
Viver, tão somente
Ouvindo-se o coração?

Viver sem fantasia,
Exacerbando o lado prático?
Viver a realidade,
Tornar-se pragmático?

Viver em nostalgia,
Das lembranças do realizado?
Viver em saudade,
Rememorando o passado?

Viver o dia, dia,
Sem direcionamentos?
Viver apenas intensamente,
Deixar-se levar pelos acontecimentos?

Só o viver
Nos dará a resposta.
Viver é complexo.
Qual a proposta?

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SAUDADES

            Carlos Castellar (1990)

Era tempo de pião,
Era tempo de esperança.
Não havia inflação
Era tempo de esperança !

Soltar pipa, soltar balão,
Contar estrelas , ver o luar.
Sem novela de televisão,
Era tempo de sonhar !

Brincar de pique, amarelinha,
Menina aprendendo bordado.
Violência , quase não tinha,
Era um tempo encantado !

Que saudades do tempo de então,
Tempo que já passou...
Da infância sem solidão,
Tempos que o tempo levou...

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Novo Amor
                       
Carlos Castellar (09/01/2001)

Vibrar, vibrar, vibrar...
Um novo amor encontrar
O peito clama
O coração chama.

Como é bom amar!
É como estar no ar,
Vivendo ao léu,
Pairando no céu.

Uma flor colher
Na forma de mulher.
Não falta ensejo,
Transpira desejo.

A ela se dedicar,
A ela se entregar.
Que o amor dure,
Que o amor perdure...

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Pessoas Ondas

            Couto Netto

As ondas correm, ligeiras,
Resolutas, uma a uma,
Fazendo grandes esteiras
Em cachos vivos de espuma,
Cada qual querendo a ponta
Na disputa da medalha,
Mas na verdade o que conta
É que lutam por mortalha:
Seu destino é sem vitória,
Pois nenhuma passa à frente
E sempre o fim dessa história
É morrer na areia quente.
Talvez se espalhem na vida
De todos nós, tão mortais,
Que vivemos em corrida
Um por um, querendo mais.
Entidades já disseram
Que as ondas são todas nós:
Serão menos que elas eram,
Tal queda de dominós.
Donde vêm essas atletas,
Donde vêm com tanta fúria,
Donde vêm buscando metas,
Donde vêm com tanta incúria?
- vêm de longe, marinheiras,
Vêm de longe, tão briosas,
Vêm de longe, alvissareiras,
Vêm de longe, presunçosas,
Vêm de longe, destemidas,
Vêm de longe, interesseiras,
Vêm de longe, de outras vidas
Vêm de longe, aventureiras,
Vêm de longe, vagabundas
Vêm de longe, alcoviteiras,
Vêm das águas mais profundas.
Vêm do porto e suas beiras,
Vêm de longe, mercenárias,
Vêm de longe, desde as brisas,
Vêm de longe, tão primárias,
Vêm das águas indivisas,
Vêm das ilhas sem areias,
Vêm dos piques das marés,
Vêm dos peitos das sereias,
Vêm dos remos das galés,
Vêm de fortes maremotos,
Vêm de quem tentou seus prumos,
Vêm de quem quebrou seus votos,
Vêm de quem errou seus rumos.
Vêm das brumas, fugidias,
Vêm das grandes enseadas,
Vêm das grotas das baías,
Vêm das bagas das lufadas,
Vêm dos ventos, das monções,
Vêm do bafo do terral,
Vêm das lavas dos vulcões, Vêm do bem e vêm do mal.
Seu destino é sem vitória,
Pois nenhuma ganha a frente
E sempre o fim dessa história
É morrer na areia quente.

(Do livro "Pessoas Ondas", de Theophilo do Couto Netto, Editora Itatiaia, 1994)

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Poema do Amor Eterno

              Do Netto dos Reys, dedicado à Solange

Quando eu já não existir,
Busca uma praia solitária.
Estarei no vento que vem do mar.
Quando eu já não existir,
Ouve na solidão das tuas noites
Melodias tristes e profundas.
Eu virei na música.
Serei o rubro do dia a morrer,
A chuva, molhando teus cabelos.
A brisa que te beija a boca.
Estarei no perfume das flores que
Tuas mãos toquem,
Nas estrelas que teus olhos busquem
Serei o fio do luar que te afaga.
Quando eu já não existir,
Descerei nas lágrimas dos fogos artificiais
Deslumbrando a noite.
Perder-me-ei em ti.
No gosto da champagne estarei
E nos beijos que te derem.
Quando eu já não existir,
Existirá ainda o meu amor.
Ardendo nas estrelas
Suspirando na aragem da madrugada,
Tremendo nas canções melancólicas.
Quando eu já não existir,
Fluirei, etéreo e enamorado,
Das coisas belas para ti...

(Publicado na revista da Escola Naval "A Galera", de 1959, pg. 22)

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RESSURGÊNCIA

Netto dos Reys

Esse compartilhar é uma tentativa de poesia. É mais do que algumas linhas, logo é um poema, sem dúvida. Julgo que para isso é feito o poema: construir pontes entre um ser e outro, entre um e todos, entre um e o segredo.
Tentei usar a poesia sem abusar de seus poderes, acreditando ter adiado a medida justa para narrar emoções revividas em diálogos, onde, alcançamos uma Ressurgência em nossas almas. Aquela reciclagem interior, onde começamos a perceber melhor a graça dos seres e das coisas simples que nos rodeiam, a despertar nossas sensações e registros adormecidos, por vezes, problemas e soluções comuns esquecidas entre Deus, Cristo, nós, natureza, humanidade…

Falei em ressurgência… Ela é o pretencioso poema. Está presente nas águas de Arraial do Cabo, em algumas de suas praias (Grande, Anjos). Ela aflora em algumas partes dos oceanos. É resultante dos ventos que ali sopram, principalmente, para for a do litoral e da aceleração que resulta do movimento de rotação da Terra..

    Assim o sopro dos ventos arrasta as águas costeiras, quentes, para o lago, provocando a subida das águas profundas, frias, a substituição das camadas superficiais pelas camadas profundas, interiores… é a Ressurgência!

Ressurgência

Ronaldo Netto dos Reys (maio/86)

Veio das sombras…da memória de todos os tempos…
Do menino nascendo, veio…
Vem das lajes, das novenas, dos terços, de sinos tangendo em monjolos e marinhas…
Do menino crescendo, veio…
Veio do orvalho, das árvores, das raízes, de relógios sem ponteiros e de máquinas sem tempo…
Do neném caminhando, veio…
Veio de estrelas já extintas e tão distantes; de chuvas tão inúteis, de terras sem sementes,
De mares sem navios…
Do menino falando, veio…
Veio do suor nas enxadas, das lágrimas nas peneiras, do choro, da injustiça feita Homem-Deus, calouro, garimpeiro, pescador, marinheiro…
Do menino observando, veio…
Veio de perfumes, leques, retratos de mulheres com camafeus e de cortinas de filó…da primeira namorada…
Do menino sonhando, veio…
Veio de balaustres, varandas, lustres, do sangue feito canga ou coroa de espeinhos…
So menino sofrendo, veio…
Veio de ventos cantando canções distantes, veio de todos os sangues, meus e dos que não correm em mim…
Do menino amando, veio…
Veio de táboas largas, telhas vãs, de dobrados militares, de beijos de amor entre latidos de ca~es, pés na enxurrada, mangas no chão, oitis partidos, do amor primeiro, rompido…
Do menino enganado, veio…
Veio de beijos desejados, de pedras procuradas, de rosas esmagadas, dos rios, das aves, das praias, de espumas batidas nas pedras…
Do menino chorando, veio…
Veio das algas…dos liquens, da ostra…do coral…da fúria das tempestades…dos mosteiros…
Do menino iluminado, veio…
Veio de momentos vividos e não vividos, mas existidos, de sonhos sonhados e não sonhados, e tão sonhados…do homem…da mulher…não conhecido…de filhos amados e seres não amados…do ar transparente, da brisa, das misérias do mundo, das ondas do mar, das águas profundas…
Da ressurgência veio…
Veio de saudades…amarguras, vicências, da infância, da adolescência…de um lugar no passado, da idade madura…da morte, um pouco a cada dia…das cinzas…do renascer…da alegria…
Veio da sombra da memória de todos os tempos…
Do presente…de sentimentos não apagados…da angústia da individualidade…de gritar em silêncio…
Do reencontro…
Tantos anos depois!
Veio de Deus! Veio…

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O EMBATE DO TEMPORAL

Poeck - iniciado em 1956, terminado em 1998

NOTA DO AUTOR: Remexendo no meu baú de lembranças literárias da juventude, encontrei um poema inconcluso, que seria destinado à revista FRAGATA, dos alunos do Colégio Naval de 1956. Numa tarde dessas resolvi terminá-lo. Quarenta e dois anos depois, essa rara experiência poética aí está, fusão do jovem com o maduro, percepções tão separadas no tempo e no espaço que se fundem na mesma aventura estética. Transmito-lhe agora em nova versão "O EMBATE DO TEMPORAL", tendo o mar, nosso velho companheiro, por inspiração.

O EMBATE DO TEMPORAL

Rompe-se a cortina
esfarrapada do horizonte
e cai o temporal
por entre escombros do poente.
As nuvens
deixam de ser massas cinzas
para se tornarem
lavas líquidas rolando 
de nimbos arcanos
vindas de meridionais planícies
a desabar nos oceanos.

São garras elas agora
crescendo desesperadas, frias
cravando suas unhas rápidas e esguias
de granizos
nos músculos abertos
das águas ensandecidas.
Mais ondas, então,
nervos aquáticos
afloram nesse instante
e tentam, em vão,
multiplicar-se.
Não há mais espaço, porém,
entre o céu e o mar
nesse desesperado
e torturado amplexo.
Nem os ventos,
muito loucos,
conseguem atingir
as profundezas (onde habita a eterna escuridão)
para ali repousar, enfim, exaustos.
Nem tampouco podem as cristas
esgarçadas das ondas,
muito aflitas,
alçar vôo até o espaço vespertino
(onde se oculta seu plácido desejo)
seu desatino
de libertar-se, enfim, do cativeiro
da líquida inquietude.

II

Raios, então
estilhaçam o ar
como se fino cristal fosse
iluminando por segundos
a coreografia
contorcida
do par que se atrai
e se repele
se envolve e se agride.
No que não se consuma
no que não sabe terminar
o que não tem fim
nem início
no tempo:
Água e vento
Vento e água
condenados ambos 
ao eterno exílio
inseparável.
Explodem trovões 
elétricas descargas 
instantâneas 
e faiscam por entre nuvens 
negras e róseas 
nesse brilho fugaz e inacabado 
para logo voltar o negrume total 
palco abissal 
onde horizontes e mares 
se confundem
no drama desencadeado.

E a chuva é tão grossa
de gotas fortes
que perfuram e açoitam
espumas e rebojos
líquidos estiletes 
rápidos chicotes,
sem cessar.
Uivam rajadas
sobre vagas colossais
que desabem, em cascatas,
suas fúrias
sobre si mesmas,
autopunição incessante,
para ressurgir
mais enfurecidas ainda
nesse caos primordial.
Este parece, finalmente,
fundir em clímax
primevo e total
águas e ares
mar e céu
vagas e ventos
gritos e lamentos
sem nunca se completar 
em um encontro demente.
Sem jamais se encontrar
completamente.

III

Pois, entreaberta a cortina,
de repente
a tarde esquiva ressurge 
e tímidamente
entre névoas e sombras
e restos de luz,
aguarda.
Músculos e nervos
vagas e espumas
pulverizadas
tensionadas
no limite,
com as unhas geladas
de cristas arrebentadas
em brancas explosões
vão arranhando ainda,
e entre descargas luminosas
massas líquidas
desorientadas
em gestos finais,
ainda estão 
a esmurrar em vão
em fúria incontida
malsucedida
o energizado ar.

Subitamente, uma pausa, e,
em um sutil momento,
cessa o tormento
no pálido entardecer.
(O par de amantes
parece cansar.
Ou é ilusão?)

Rajadas ocasionais
derradeiros punhais
ainda acutilam
aqui e ali
as vagas agitadas
e estas, em último espasmo
achatam-se no amplexo
desconexo 
do telúrico orgasmo.

Um sinal, então, imperceptível,
rápido reflexo branco
súbito encanto
risca ao longe
a corrugada superfície
do oceano.
E este parece, em instante final
(será possível?)
algo aguardar
com um tremor restante
de anseio terminal.

O vento, então, surpreendido
cessa o alarido
e permite
o vôo solitário
ousado
imperturbado
de um albatroz
a separar
o céu e o mar.

Como é suave e majestoso
o seu planar!
Flecha de luz
distendida em gracioso arco.
Vôo de paz.
Curvas voláteis
vela branca de vida
a deslizar 
já pressentida
livre no ar!
Mar e céu, finalmente,
cedem e se afastam,
parelha exangue
(mal conseguindo,
exausta
se desvencilhar).
Somente então
absoluto
harmonia gestual
imperial
o vôo sereno da ave
dá por encerrado
(definitivamente)
o embate inutil
de mais esse temporal

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Noturnas Borboletas de Veludo
                                                            Poeck, 1955
noturnas borboletas de veludo
despertam nos ciprestes lentamente,
quando já adquirem um tom profundo
os amarelecidos halos do poente.

Sombras então elas percorrem
com suas asas moles de nevoeiro,
e as evoluções que flutuam têem
as harmonias de um poema inteiro.

E que estranho poema revelado
nesse momento em que a noite
traz sua melancolia e seu medo

às madrugadas esquecidas, e quando
despertam nos ciprestes lentamente,
noturnas borboletas de veludo.
 

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Poesias da Nova Fase

    Do Ronaldo Netto dos Reys, tudo novo: Solidão - Oração da Primavera - Ambivalência


Solidão

Haverá um dia
que estranho vacum a envolverá, mesclando num sorriso perdido,
sem graça, aflorando de teus lábios serenos
chega a janela..então..eu virei de mansinho
sem que percebas
enleando-te nas noites escuras
que te tragam inquietudes
nas noites frias
banhando-te nas horas tépidas
nas tardes mornas
chegarei
no sorvo do ar que aspiras
na gota de orvalho esquecida
na folha verde
no olhar parado pleno de sensações passadas
na chuva caindo nas praças vazias
num risco de prata de estrela fugidia
depois
guardaremos silencio
ouvindo o barulho dos grilos
a brancura das espumas
esquecidos do mundo
inebriantes de presença
iluminado nossas almas
desprezando a solidão! sim, nesse dia,tu te espantarás eu sei,mas me desculparás sorrindo
por essa felicidade tão grande
como, a saudade, querida, que terei
quando minha imagem esmaecida
guardada na sua ausência
nada mais for que tênue lembranças...

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Oração da Primavera

Se tens medo de viver
Se tens medo de sofrer
Se tens medo de amar
Não fujas, então, da vida
E, sim, construa tua estrada
Pois nela vais encontrar o verdadeiro ser do teu ser! 
Vamos, ande para frente! Sem pensar em nada que te confunda
Pense só em viver
Aproveite a vida com o ela pode dar
Seja com o chilrear dos pássaros,
O amrulhar das ondas do mar,
O alarido das crianças
As misérias do mundo
A chuva molhando teus cabelos
As lágrimas vertidas por uma saudade imensa
E se fracassares um dia
Não te deixe abalares
Ponha-te em comunhão com Deus
Verás, então, como vais melhorar,
E encontrarás a solução dos problemas teus...
Sim... sim... sim
E mergulharás... na paz!

Primavera - Floripa - 08/11/00

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Ambivalência

ambivalência diante desse tudo
ou desse nada
já não sei se volto a caminhar miúdo
ou se solto a bota no rumo da estrada
ou desato o laço dessa corda bamba
ou ato o nó na alça da caçamba
se queimo a vida nesse fogo fátuo
ou se de fato tento nova vida
se afasto a tule dessa nova tela
ou entulho a talha com esse vinho velho
se curto o corte dado no baralho
ou meto o manto e me amortalho
se mato o mito que se mete em mim
ou me omito e e me torno mudo
diante desse nada
ou desse quase tudo

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Uma Lágrima

       Do Tangari, por ocasião do nascimento de seu primeiro neto

Jamais o mundo vira naquele semblante
Transparecer a dor ou a amargura
Jamais o mundo vira naquele homem a agrura
Da vida chorar por um só instante!

Parecia não ter alma, ser sem candura
Não sentia nada, sempre distante.
R'spido, sério, seco, nada cativante,
Frio, era mesmo como uma rocha dura.

Seguro e impassível, até diante da morte,
Não mudava, conseguia a mesma fisionomia
Manter como se não fosse a sua sorte.

Mas, naquele instante, em que seu neto nascia,
Pulsou-lhe o coração, a emoção foi mais forte.
Rolou-lhe uma lágrima... mas de alegria

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